domingo, 28 de junho de 2026

Perdoar é entender o processo

Houve um tempo em que, como praticamente todas as pessoas em algum momento de suas vidas, eu também tive uma visão binária sobre a maioria das coisas. Ou é uma coisa ou é outra, e não há meio termo. E com essa visão tão rasa do mundo, entendia o perdão como um sinal de abnegação, uma negação de si. Pensava que perdoar aquela pessoa que me fez mal seria fingir que nada aconteceu, apagar a minha dor e seguir em frente. E com isso eu tendia a ver o perdão como uma coisa reprovável. Pensava, e às vezes verbalizava, coisas como "não sou trouxa para esquecer o que aquela pessoa aprontou comigo" e seguia carregando essa amargura.

Lembro que quando comecei a me dedicar um pouco a ler sobre ciências sociais e adquirir um conhecimento bem básico sobre ideologia e sua influência na constituição do sujeito, comecei a sentir que eu me tornava um pouco mais tolerante com determinados comportamentos que outrora eu reprovava. Partindo de uma análise sobre as circunstâncias materiais que determinada pessoa vivenciou, pensei compreender porque tomou determinadas atitudes.

Isso foi fundamental para salvar minha vida: apliquei esse "exercício da tolerância" à minha própria e, por me justificar, me perdoei. E por me perdoar, me admirei. E por me admirar, me amei. De tal forma e com tal intensidade, que atualmente para alguém abalar minha autoestima precisa se esforçar muito!

Entendi ali que perdoar é entender o processo, não é varrer a sujeira para baixo do tapete, limitando-se a recalcar emoções ruins e fingir que nada aconteceu. Perdoar é afirmar que alguma coisa aconteceu. Mas, buscar uma explicação para isto. Alguém praticou alguma ação que nos feriu. Por quê? Para cada "porquê" um novo "por quê?". E assim vamos voltando às raízes e percebendo que muitas vezes nós fizemos o que deu. O outro também. E nessa hora, não necessariamente precisamos passar por cima da nossa dor, não precisamos deslegitimá-la, não precisamos negar a mágoa que o outro nos impôs, mas entender que algumas vezes o outro não conseguiu fazer uma escolha. Veja bem, eu não disse que o outro não teve escolha. Eu disse que não conseguiu. Porque as ferramentas naquele contexto não eram mesmas que as suas. Tampouco eram as mesmas das quais ele dispõe atualmente.

Diziam que o perdão nos faz leves. Aos 16 anos eu diria que isso era uma estupidez. Trinta anos depois eu tenho que concordar com a frase clichê. Perdoar é entender o processo, já disse. E quando o entendemos, passamos a ter muitas oportunidades de interrompê-lo todas as vezes em que nos deparamos com as mesmas circunstâncias que em algum momento fizeram com que alguém nos ferisse. Interrompendo o processo, impeço que o outro me machuque. Outras situações há em que nada podemos fazer para interromper esse processo. E quando isso acontece, temos a leveza de não carregarmos responsabilidade por aquilo que seria inevitável.

O ato de perdoar nunca deve ser motivo de auto apagamento. Perdoe, mas não se anule. Reconhecer seus limites e tentar não ultrapassá-los é importante. É uma chave para a manutenção da sanidade mental. E não significa ausência do perdão, mas apenas que, ainda que tenhamos perdoado, não queremos ter que lidar com aquilo, não queremos mais passar por aquilo. Então está tudo bem entendermos o processo e mesmo assim não o tolerarmos.

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