quinta-feira, 14 de setembro de 2017

Álcool

Álcool

Vem a passos mansos.
Mas, vem!
Chega, chama
Acende a brasa
Que abraço nenhum faz mais quente
Apenas chega, de repente
E consigo
Traz da embriaguez o hálito e o alento.
Para longe sopra
(só para onde o coração não sente)
As sombras soturnas e silentes
De uma noite que era longa,
Tornada dia no súbito sorriso
Que tua verdade de ébrio
Fez brotar.

Rio, 15 de setembro de 2017.

terça-feira, 29 de agosto de 2017

Enquanto os olhos não fecham

Enquanto os olhos não fecham

Perdidos, vagueiam pela noite escura
Sobre telhados, a esmo, valsejando.
Queiram deuses, a qualquer momento (quando?),
Conduzi-los à formosa criatura.

Poesia em vagantes pensamentos,
Rodopios em singela melodia.
Pálpebras que pesam ao raiar do dia,
Olhos que não fecham, posto que atentos.

Evocações inquietas: saltitantes rãs,
Habitantes deste pântano de insônia,
Vêm de tão distante e ao meu leito trazem,

Derramadas, em profusão, memórias vãs.
Sorrio! Sem pompa, sem cerimônia,
Chega à minha mente insone sua imagem.

Rio, 29 de agosto de 2017.

sábado, 19 de agosto de 2017

Noite de Inverno

Noite de Inverno

Lambe minhas pernas, toca leve meus pés
Quando adentra pela noite sem convite.
E te sinto em minha pele, sem limites,
Anseio por teu contato e por quem tu és!

Guarda-te nesta estância, deita nesta alcova,
Abraça-me suave, beija-me ligeiro!
Frio da madrugada, chega sorrateiro
A embalar meu sono, tal que me renova.

O canto da tua mãe ouve comigo!
(Tilintam singelas notas nos telhados
Da garoa que à noite nos vigia).

Logo, logo vai-te embora, chega o dia.
Sem teu adeus, em meu sono acalentado,
Fico na paz dos sonhos, caro amigo.

Rio, 20 de agosto de 2017.

quarta-feira, 2 de agosto de 2017

Pretérito Imperfeito

Pretérito Imperfeito

Bumerangue lançado no espaço
Quedando-se açoitado pelo vento
Não fez da sua curva o movimento
Perdeu-se para sempre no embaraço.

Partiu, sem dar adeus, o trem da vida...
(Mãos acenam de longe um lenço gasto)
Para onde vai? Por quais trilhos tão vastos?
Qual plataforma? Que estação desconhecida?

Pelas pradarias, veloz na cavalgada
Foi-se em galope o alazão indócil
Para não voltar, perdendo-se adiante.

Ponteiro de relógio em disparada
Chance desperdiçada pelo ócio.
Pranteia arrependido doravante!

Rio de Janeiro, 31/07/2017.

quarta-feira, 12 de julho de 2017

Velha Estrada Nova

Velha Estrada Nova

Deixaram de ver quantas belas paisagens
Meus olhos, porque, temente, não te segui?
Caminho vistoso do qual não desisti
Para onde levas? Para quais paragens?

Por insetos, por torrentes e por flores
Foste presenteado pelas estações.
Quantos invernos, primaveras ou verões
Sobre ti não vi lançarem suas cores?

Trilha serpenteia aonde não conheço,
Quiseram retornar até aqui meus pés,
Por tão íngremes encostas, tortuosas

Por tantos escorregões, tantos tropeços...
Não mais te vejo, doravante, de viés,
Sigo adentro, estrada bela e sinuosa.

Rio, 12/07/2017

quinta-feira, 6 de julho de 2017

Elegia por um ser vivente

Fez-se do vinho novamente água
E do sonho fez-se noite não dormida
Viuvez de ente vivo... Quanta mágoa!
Luto inútil. Tanta falta. Morte em vida.

De longe jaz com olhos não cerrados,
Que restam das lembranças? Que tormentos?
Vulto pálido e sombrio que apavora,
Espectro que chega em pensamento...

Saudades do que foi... Tempos de outrora...
Afasta-me da memória que me traz
Sua morte! Quão soturno em peito meu,

Pesar que ganha corpo, vai-te embora!
Ara a quinta de onde medrará minha paz!
Leva o pranto por alguém que não morreu.

Rio, 07/07/2017



sexta-feira, 19 de maio de 2017

Gente

Gente

Gente é bicho que muda,
mas nada que muda muda da noite para o dia.
A gente é que faz vista grossa para sua grosseria
e quando os sinais nos alertam
não estamos alertas
por qualquer razão que seja,
ainda que sem razão.

A gente arruma uma desculpa,
acreditando ou querendo acreditar
que se trata de um momento isolado,
motivado por qualquer coisa alheia,
do tipo que não corre nas veias,
porque é mais fácil tachar de feia
a coisa que não vem de dentro
daquilo que a gente quer que seja
o que a gente quer que seja

Gente é coisa estranha.
Faz que não faz, falando,
e fala aquilo que não faz.
Mas, fato é que o ato
diz mais que o dito
e o bicho maldito nos morde!
Depois que rosnou
e nós ouvimos,
mas, fingimos que não era p'ra gente.

Não muda do dia p'ra noite
aquela gente que empunha o açoite
e a gente faz que não viu
porque é cego ou otimista!
Todo sinal se nos mostra
quando a gente aceita ver
Mas, se ver é sinal de doer
melhor é fingir de cego
E seguir sem perceber

Até que o bicho-gente nos mata
e mata com crueldade.
Mas, se gente é bicho que muda
A gente espera bondade
Da gente que a gente tem.

Por isso quem perde não é a gente,
mas essa gente que maltrata
e que sempre esteve lá!
Porque gente muda
mas, muda devagar
e se a gente não aprender a olhar
pode ir se preparando,
que a gente vai se dar mal.
Aprenda que o bicho-gente
sempre dá o seu sinal.

19/05/2017