segunda-feira, 24 de janeiro de 2022

Olavo de Carvalho, Paulo Freire e a celebração da morte (de alguns)

Lá vamos nós outra vez... Basta que morra alguém do lado de lá para que o lado de cá se divida entre os que comemoram o falecimento e os que julgam os que comemoram como iguais os de lá.

A bola da vez hoje foi o lixo fascista Olavo de Carvalho. Faço parte do time que celebrou sua passagem para o diabo que o carregue. E faço sem nenhuma dor na consciência. Pergunto "e daí?" da mesma forma que perguntou seu Jair quando lembrou ao mundo que não é coveiro. E não, não me igualo ao Seu Jair.

Uma parcela da esquerda parece que ainda não compreendeu que ser esquerdista é lutar contra uma opressão que está acontecendo, decorrente das relações criadas e mantidas dentro do sistema capitalista. Não se luta apenas contra uma ideia de opressão, uma teoria genérica e idealizada, que supostamente seria praticada. Luta-se contra uma opressão que acontece todos os dias e segue nos matando. Mas, para uma parcela da "esquerda fofinha" (não uso o termo "cirandeira" por respeito a uma manifestação folclórica), ser esquerdista não é lutar, mas fazer por merecer uma medalhinha dourada por bom comportamento, assim considerado o comportamento com escopo assimilacionista, que tenta se encaixar nas normas que estruturam e são estruturadas pela mesma relação de opressão da qual essa mesma esquerda é vítima. Em suma, tenta ser aceita pelo opressor.

E lá vou eu mais uma vez citar Paulo Freire, lembrando quando ele diz na sua obra Pedagogia do Oprimido, que a relação de opressão somente existe quando o opressor a inaugura. Sem a figura do opressor, não há o oprimido por não haver quem dê início à opressão. Aqui, volto a chamar atenção para o fato de estarmos vivendo uma opressão que já acontece. E pela qual, se ainda não estamos mortos, foi por puro acaso. Porque esse é o objetivo do opressor. Oprimir para exterminar.

Quando vemos Seu Jair a serviço da burguesia dar de ombros e perguntar "e daí?" enquanto centenas de milhares de pessoas morrem asfixiadas por uma doença para a qual já havia vacina, estamos vendo a burguesia dar de ombros e perguntar "e daí?" para a morte de cada um de nós que não somos classe dominante.

Então, não. Para essa esquerda que acha que ser esquerdista é vestir fantasia de unicórnio e viver numa idealização de paz e amor, e que insiste em equiparar a vida do oprimido à do opressor, sob o manto fictício de que todas as vidas importam, faz-se necessário lembrar que o desrespeito ao nosso direito de viver somente existe quando a opressão pelo nosso extermínio é inaugurada. E por isso, o nosso "e daí?" quando a vida de um fascista é extinta em nada se equipara ao "e daí?" proferido pelo Seu Jair.

Quem inaugura a opressão são eles. E se você não deu início às relações estruturais de opressão que visam à extinção dos seus pares, então pare de se colocar em pé de igualdade com quem deseja sua morte quando você só deseja viver em paz. E sua vida em paz não acontece porque existe a figura do opressor. Por isso, rebelar-se é legítimo. Como é legítimo aplaudir e vibrar a morte de Olavo de Carvalho, que partiu deste mundo tarde demais.

terça-feira, 4 de janeiro de 2022

Imersão

Imersão

Nas águas profundas desse mar bravio
Sem temor algum, mergulha de cabeça,
Com a alma despida para que aconteça
Não basta nudez do corpo, se vazio.

De navio a naufragar, saltar sem medo
Depois de enfrentar muitas tormentas,
Espumosas vagas, ondas turbulentas...
Desilusões! Da confiança um arremedo.

Da exaustão após nadar longas braçadas
Deixar-se imergir três dias e três noites.
Abre os olhos! Não te encontra cá o açoite
Neste mar de calmarias alcançadas.

Gustavo Carneiro de Oliveira
Rio, 04 de janeiro de 2022.

quarta-feira, 29 de dezembro de 2021

Presente de Natal

Presente de Natal

A paz de um oásis que acolhe a caravana
Da exaustiva caminhada pelo caos da areia:
Ano de tormentas, desesperanças e vacinas.

Hiatos de respiros em alvoradas natalinas
Enchem de calor a alcova que incendeia.
Hipnos e Himeros ébrios numa carraspana.

Terno olhar, sorriso súbito que emana...
Momento de paz, que preço alto algum custeia,
Enlaçados, dormem em horas vespertinas

Nas vidraças descem águas cristalinas,
Ruídos de temporal como cantos de sereia
E corpos enredados com fome, sede e gana.

Frêmitos, arquejos: delícias da vida profana.
Suor e saliva... sangue quente em cada veia.
E no fim, o alento: presente em tempos de ruínas.

Gustavo Carneiro de Oliveira
Rio, 29 de dezembro de 2021.

segunda-feira, 27 de dezembro de 2021

Há uma imagem a preservar?

Conversando com um amigo que vive com HIV, recém-saído de uma relação relativamente duradoura, sorodiferente (ou seja, aquela na qual uma das partes vive com o vírus e outra não), disse-me que tinha interesse em participar de atividades de prevenção e conscientização sobre HIV/AIDS, integrando grupos de apoio, "saindo do armário do vírus", assumindo publicamente sua própria condição de pessoa com sorologia positiva para poder falar mais sobre o assunto. Ato contínuo, disse-me que não o fazia apenas para "preservar a imagem do ex". Argumentava de forma vaga que a maioria das pessoas são ignorantes e preconceituosas e não entendem a possibilidade de existência de relacionamentos sorodiferentes, de forma que invariavelmente pensariam que seu ex também tem o vírus.

Imediatamente perguntei se ele se sentia inferior a outras pessoas por viver com o vírus. Disse-me que não. Devolvi novo questionamento: por que então você acredita que associar uma outra pessoa à exposição ao vírus é expô-la negativamente, a tal ponto que considera manter o segredo como "preservar sua imagem"? Que imagem precisa ser preservada? A de alguém que não vive com o vírus?

A partir do momento que se entende como "uma imagem a se preservar" a de uma pessoa sem HIV, pela via inversa está se dizendo que ser "confundido" com alguém vivendo com HIV é um problema. É assumir que viver com o vírus o coloca numa condição inferiorizada em relação à condição de pessoa que não vive com HIV. É, de alguma forma perpetuar o preconceito que existe sobre o vírus.

Os aplicativos de pegação nos quais tenho cadastro possuem campos específicos para que você informe sua sorologia. Acho isso um desaforo e me recuso a preencher o meu status sorológico. Entendo como desrespeitosa a criação de um campo para que pessoas digam se têm ou não um vírus. Quem vive com HIV não tem obrigação alguma de "alertar" pessoas sobre sua condição. Que não vive não deve exibir sua condição, como se fosse um troféu ou um selo do INMETRO. Deixo meus campos em branco e quem quiser pensar qualquer coisa a meu respeito, que pense.

"Mas, Guto, vão pensar que você vive com HIV e suas possibilidades de pegação ficarão restritas porque vão te discriminar." E quem te garante que eu não sou? Foda-se, meu bem. Não faço nenhuma questão de desmentir. Afastar pessoas preconceituosas não é restrição, é livramento. Não existe uma "imagem a se preservar" quando se entende que viver com um não é um dano à imagem. Dano é perder gente querida para AIDS, como já perdi, por ignorância, preconceito e falta de acolhimento. Se para alguém é um problema ser tachado de pessoas vivendo com HIV, que trate a própria sorofobia.

quarta-feira, 22 de dezembro de 2021

Não pechinche com o ambulante

Amiguinho, te mandar o papo reto aqui: um real que você pechincha no ambulante porque achou o cone de amendoim caro não vai te fazer mais rico, não. Na melhor da hipóteses, vai te ajudar a inteirar a grana daquele drink laranja e vermelho que você vai ostentar no Instagram depois de pagar uma fortuna, sem nem pedir um desconto para não passar esse vexame no loungezinho badalado, de onde você vai fazer questão de mostrar o check in nos stories. Para o vendedor, no entanto, pode ser a diferença entre levar ou não um quilo de arroz para casa.

"Ain, Guto, mas o cara tá cobrando cinco reais em um canudinho de amendoim. Com cinco reais eu compro meio quilo de amendoim e faço uns vinte canudos daquele!"

É mesmo, meu bem? Então da próxima vez, traz seu amendoim de casa. Mas, lembre que, com os cinco reais do seu meio quilo, o dono do supermercado não vai queimar os pés na areia da praia para levar até a sua mesa o salgadinho já torrado, temperado, prontinho para comer.

A pessoa que se submete a vender comida na praia andando o dia inteiro sob o sol escaldante e queimando os pés na areia não está "tirando vantagem" por estar cobrando dois ou três reais mais caros em seu produto. Mas, você pode estar tentando tirar dessa pessoa a possibilidade de jantar ao final do dia para que você tenha a sua vantagem de economizar um real. Num país em que trabalhador tá procurando osso de boi no lixo para ter o que comer, você deveria se envergonhar por achar que é um negocião voltar pra casa com dois reais a mais no bolso.

Valorize a classe trabalhadora. Esse um real que volta no seu bolso também é mais valia que você usurpou de um trabalhador.

terça-feira, 16 de novembro de 2021

Não fui eu que comecei

No Pedagogia do Oprimido, Paulo Freire fala sobre como o opressor "inaugura a opressão". Eu me encantei com essa expressão. A mim remete à nossa noção mais básica de justiça, quando somos ainda muito crianças e, ao sermos repreendidos por um adulto numa contenda, apontamos o dedo para o outro e dizemos "foi ele/ela quem começou!".

Ainda criança, a gente consegue entender a ideia de paz e tranquilidade, como o momento que preexiste ao conflito. E a justiça se faz quando é punido o responsável pela alteração daquela situação. Quando dizemos "quem começou não fui eu", usamos a ideia que Paulo Freire chama de "inaugurar a opressão". Justamente o pensamento formulado já na cabeça da criança de que "estávamos todos aqui em paz, até que ela/ele começou a perturbar".

O opressor é o criador da opressão, que é uma relação que somente passa a existir quando ele a inaugura. Se foi ele quem começou, ele que pare. E se a única forma de lhe parar for pela violência, esgotadas as tentativas de orientação didática, então que seja. Há vozes que simplesmente precisam ser caladas.

segunda-feira, 4 de outubro de 2021

Dialética da Criação

Dialética da Criação

Trago um mundo inteiro dentro em mim?
Mãos que cá já estavam moldaram-me em argila,
constituindo-me à sua semelhança.
Reflexo sou daquilo que me criou.

Dentro em mim pululam pensamentos.
Ideias que habitavam em tempos idos
Cabeças que, antes mesmo de eu chegar,
Já pensavam pensamentos que pensei.

O que sou? Perpetuação de ideias?
Em que pensavam as mãos
Na mente que em mim moldaram?

Aqui dentro ainda trago inteiro um mundo?
Porque quando aqui cheguei, cá já estava.
E em meu ouvido ecoava, retumbante,
A voz que me ordenava: "segue a ordem!"

"Foste tu criado à minha semelhança.
Não saibas tu para além do que doutrino.
Desconhece o bem e o mal, assim te digo.
E segue a reproduzir o pensamento
Que por este Paraíso transitava
Quando nele pisaste da vez primeira."

***

Um mundo inteiro dentro em mim carregaria
Se não viesses tu do mesmo barro
Pelo qual fui esculpido, camarada.
Viemos ambos de um só pó: uma só terra
Que não é tua, minha tampouco,
Posto que deveria ser de todos
Para que humanos todos fôssemos.

Quando no outro me vir constituído
Não carregarei em mim peso de um mundo.
Porque o mundo que aqui já existia
É arvore apodrecida que será deitada.

Rio de Janeiro, 04 de outubro de 2021.