O mês de junho escancara a toxicidade do sistema monogâmico de relacionamentos amorosos. Vou usar esse nome para retratar a monogamia enquanto um sistema de crenças e normas que estabelecem como devem ser as relações, diferenciando-o da monogamia enquanto uma prática pessoal, consubstanciada na suposta escolha de vivenciar uma relação com apenas uma outra pessoa. E digo suposta escolha porque parto da premissa de que não há escolha quando a única opção é pautada pela ideologia hegemônica.
O sistema monogâmico de relacionamentos amorosos vende uma forma única de experimentar amor e sexualidade. Um script social, resguardado pela própria sociedade, no qual as pessoas buscam sua "cara-metade", a "banda da sua laranja", a "tampa da sua panela", e outras metáforas que aludem a esse ideal de relacionamento. Busca-se O Grande Amor da sua vida, aquela pessoa que irá completá-la em todas as suas lacunas, satisfazendo-a sexualmente, intelectualmente, afetivamente, emocionalmente... Com quem irá formar um casal, essa entidade que goza de uma proteção social, sendo considerada o elemento nuclear constitutivo da família – a única família possível dentro da ideologia dominante – e, portanto, reprodutiva da própria sociedade.
Um mito cruel que não encontra lastro na materialidade e cuja crueldade fica evidenciada quando chega junho e começam a aparecer em todos os cantos as referências ao Dia dos Namorados, comemorado no Brasil em 12 de junho.
Começamos pelo fato de que a data atende apenas a uma necessidade comercial, e nada tem de romântica. Por não haver em junho uma data significativa para gerar demanda e fomentar consumo, sendo este mês considerado até então um dos mais fracos no mercado de varejo, o publicitário João Dória, pai do ex-governador de São Paulo, de mesmo nome, em 1949, criou uma campanha para incentivar casais a se presentearem, ou seja, a comprarem e a consumirem. Aproveitando-se do fato de que no dia 13 de junho se comemora o dia do santo casamenteiro, Santo Antônio, João Dória pai criou o Dia dos Namorados na véspera. Nascia ali uma perversa máquina ideológica de frustração.
Falando aqui da minha experiência pessoal, que não guarda respaldo científico, vejo em junho mais gente frustrada por não ter com quem passar o Dia dos Namorados que gente feliz comemorando a data em casal.
O sistema monogâmico de relacionamentos amorosos planta em nós a ideia de que "é impossível ser feliz sozinho", cantada e explicitada à exaustão nas artes cênicas, na música, na poesia, e de que só podemos nos realizar verdadeiramente quando encontramos a nossa alma gêmea, que evidentemente não existe.
Nesse sistema de crenças, não enxergamos a mera possibilidade de experimentarmos outras formas de relacionamentos. E buscamos esse ideal, genérico e abstrato, da figura do amor da vida (seja a namorada, o marido, a esposa, o noivo, o parceiro...), o par. Primeiro estabelecemos todo os papéis que o amor da vida precisará desempenhar. Criamos a caixinha do amor da vida com todas as suas predeterminações. Agora, sim, ignorando a materialidade, a diversidade e a singularidade das pessoas, tentamos apenas encaixar alguém nesse papel. E todas as vezes em que alguém não preenche todos os requisitos para ocupar aquela função, alguém sai perdendo.
Dá dó ver tanta gente infeliz, lotando as sessões de terapia, buscando aquele Grande Amor, que nunca vem porque não existe. Quando chega junho a infelicidade e a amargura ficam expostas nas vitrines existenciais. Retorno então ao começo: junho escancara a toxicidade do sistema monogâmico de relacionamentos amorosos.
Observando tudo isto, penso que a monogamia é cruel, tóxica e violenta, e deve ser manifestamente enfrentada. É preciso que exista um movimento revolucionário no campo das relações, capaz de subverter a ordem vigente, derrubando a atual estrutura, movimento que chamo de revolução dos afetos. E a revolução dos afetos somente acontecerá coletivamente. Tô pouco me lixando se você quer namorar só uma pessoa por vez e para a vida toda e tá feliz com isso. Não é sobre a sua prática pessoal. É sobre um sistema social que impõe regras de como se deve relacionar, pautadas no controle do corpo alheio e no tratamento do outro como propriedade privada, levando às relações a mesma lógica do capital. E assim como o capitalismo se apropria de todo movimento que busca subvertê-lo, também a monogamia o faz: hoje há até quem reconheça que estar com alguém não é apropriar-se de sua liberdade, é permitir ao outro que tenha uma vida própria, desde que não exista uma relação afetiva com um terceiro.
No final, é tudo mais do mesmo. as suavizações que se tentam aplicar às relações monogâmicas, que buscam minimizar a violência e o controle, sugerindo alternativas como "casais vivendo em casas separadas" ou "casais que liberam um ao outro um dia da semana para terem uma vida", ao fim e ao cabo, mantém inalteradas as bases de sustentação desse sistema: controle dos corpos. "Tudo bem sair com amigos, mas não pode desejar outra mulher no rolê!", "pode ir pra boate sem mim, mas se eu souber que você beijou outro cara, está tudo acabado"... É assim, não adianta dourar pílula. Sempre há um "pode". Há sempre uma autorização ou um pedido de permissão implícito ou explícito. No final, o outro é propriedade nossa, e nós somos propriedade do outro. "Não há nada de errado nisso, Guto, fizemos uma escolha". Não, meu bem, não há liberdade de escolha quando não há diversidade de opções. Seguir o pensamento hegemônico quando se mantém cego a outras possibilidades de relacionar-se é uma prisão. E das mais cruéis, por nos manterem presos acreditando que estamos livres.
E assim, nos dias frios de junho, reinam a tristeza e a frustração de quem ainda sonha com O Grande Amor, e ainda não o encontrou para passar ao seu lado uma data comercial, cuja única finalidade é sustentar o capital.