terça-feira, 6 de outubro de 2026

Acalanto

Acalanto

— De quantos silêncios
Se veste o tempo
Até a gênese do brado
Anunciar que fez-se o medo?

— Talvez tantos, camarada!
Também o horizonte não vês?

— Tu bem sabes que em luxos
Não me assento. E não me nego
Ao vislumbre do amanhã...

— Todavia é notório teu cansaço...

— ...e é um luxo, a desesperança,
A que não me dou!

— Tua figura não me parece
De ânimo repleta.

— Certo estás. Um dia passa.
Morre o tolo pela língua.

— O tanto que tu disseste,
O quanto é precioso
O silêncio que almejas ter.

— E quando o tive,
Aprendi a maldizê-lo!
O incauto a língua mata.

— E do que tanto te afliges,
Camarada? Causa espanto
O espanto de quem grita?

— Vou além: ressentimento,
Isso que é! Ressentimento!

— Não te furtas de autocrítica.

— Se na chuva fechas os olhos,
Acaso deixas de molhar-te?
Do silêncio que surge
Quando o ruído suprimimos,
Deste me agrado. Ao contrário,
Se é do abandono das ideias
Que brota a falsa calmaria,
Nela, não vejo o horizonte
Mirado por olhos outros...

— Sobra solidão!

— Como é em toda correnteza
Que se sobe se não és salmão.

— É solitário todo caminho
Que vai contra a dominância!

— Só olha comigo, é o que te peço!
Põe teus olhos lá onde é ocaso,
E acredita que dali virá aurora.
E, a mim, me bastará...

— Olhemos juntos, então, meu camarada!
E é de lá que virá um amanhã
E que talvez só amanhã nos chegue.

Rio, 07 de outubro de 2026.

domingo, 28 de junho de 2026

Perdoar é entender o processo

Houve um tempo em que, como praticamente todas as pessoas em algum momento de suas vidas, eu também tive uma visão binária sobre a maioria das coisas. Ou é uma coisa ou é outra, e não há meio termo. E com essa visão tão rasa do mundo, entendia o perdão como um sinal de abnegação, uma negação de si. Pensava que perdoar aquela pessoa que me fez mal seria fingir que nada aconteceu, apagar a minha dor e seguir em frente. E com isso eu tendia a ver o perdão como uma coisa reprovável. Pensava, e às vezes verbalizava, coisas como "não sou trouxa para esquecer o que aquela pessoa aprontou comigo" e seguia carregando essa amargura.

Lembro que quando comecei a me dedicar um pouco a ler sobre ciências sociais e adquirir um conhecimento bem básico sobre ideologia e sua influência na constituição do sujeito, comecei a sentir que eu me tornava um pouco mais tolerante com determinados comportamentos que outrora eu reprovava. Partindo de uma análise sobre as circunstâncias materiais que determinada pessoa vivenciou, pensei compreender porque tomou determinadas atitudes.

Isso foi fundamental para salvar minha vida: apliquei esse "exercício da tolerância" à minha própria e, por me justificar, me perdoei. E por me perdoar, me admirei. E por me admirar, me amei. De tal forma e com tal intensidade, que atualmente para alguém abalar minha autoestima precisa se esforçar muito!

Entendi ali que perdoar é entender o processo, não é varrer a sujeira para baixo do tapete, limitando-se a recalcar emoções ruins e fingir que nada aconteceu. Perdoar é afirmar que alguma coisa aconteceu. Mas, buscar uma explicação para isto. Alguém praticou alguma ação que nos feriu. Por quê? Para cada "porquê" um novo "por quê?". E assim vamos voltando às raízes e percebendo que muitas vezes nós fizemos o que deu. O outro também. E nessa hora, não necessariamente precisamos passar por cima da nossa dor, não precisamos deslegitimá-la, não precisamos negar a mágoa que o outro nos impôs, mas entender que algumas vezes o outro não conseguiu fazer uma escolha. Veja bem, eu não disse que o outro não teve escolha. Eu disse que não conseguiu. Porque as ferramentas naquele contexto não eram mesmas que as suas. Tampouco eram as mesmas das quais ele dispõe atualmente.

Diziam que o perdão nos faz leves. Aos 16 anos eu diria que isso era uma estupidez. Trinta anos depois eu tenho que concordar com a frase clichê. Perdoar é entender o processo, já disse. E quando o entendemos, passamos a ter muitas oportunidades de interrompê-lo todas as vezes em que nos deparamos com as mesmas circunstâncias que em algum momento fizeram com que alguém nos ferisse. Interrompendo o processo, impeço que o outro me machuque. Outras situações há em que nada podemos fazer para interromper esse processo. E quando isso acontece, temos a leveza de não carregarmos responsabilidade por aquilo que seria inevitável.

O ato de perdoar nunca deve ser motivo de auto apagamento. Perdoe, mas não se anule. Reconhecer seus limites e tentar não ultrapassá-los é importante. É uma chave para a manutenção da sanidade mental. E não significa ausência do perdão, mas apenas que, ainda que tenhamos perdoado, não queremos ter que lidar com aquilo, não queremos mais passar por aquilo. Então está tudo bem entendermos o processo e mesmo assim não o tolerarmos.

quarta-feira, 10 de junho de 2026

Junho & Solidão

O mês de junho escancara a toxicidade do sistema monogâmico de relacionamentos amorosos. Vou usar esse nome para retratar a monogamia enquanto um sistema de crenças e normas que estabelecem como devem ser as relações, diferenciando-o da monogamia enquanto uma prática pessoal, consubstanciada na suposta escolha de vivenciar uma relação com apenas uma outra pessoa. E digo suposta escolha porque parto da premissa de que não há escolha quando a única opção é pautada pela ideologia hegemônica.

O sistema monogâmico de relacionamentos amorosos vende uma forma única de experimentar amor e sexualidade. Um script social, resguardado pela própria sociedade, no qual as pessoas buscam sua "cara-metade", a "banda da sua laranja", a "tampa da sua panela", e outras metáforas que aludem a esse ideal de relacionamento. Busca-se O Grande Amor da sua vida, aquela pessoa que irá completá-la em todas as suas lacunas, satisfazendo-a sexualmente, intelectualmente, afetivamente, emocionalmente... Com quem irá formar um casal, essa entidade que goza de uma proteção social, sendo considerada o elemento nuclear constitutivo da família – a única família possível dentro da ideologia dominante – e, portanto, reprodutiva da própria sociedade.

Um mito cruel que não encontra lastro na materialidade e cuja crueldade fica evidenciada quando chega junho e começam a aparecer em todos os cantos as referências ao Dia dos Namorados, comemorado no Brasil em 12 de junho.

Começamos pelo fato de que a data atende apenas a uma necessidade comercial, e nada tem de romântica. Por não haver em junho uma data significativa para gerar demanda e fomentar consumo, sendo este mês considerado até então um dos mais fracos no mercado de varejo, o publicitário João Dória, pai do ex-governador de São Paulo, de mesmo nome, em 1949, criou uma campanha para incentivar casais a se presentearem, ou seja, a comprarem e a consumirem. Aproveitando-se do fato de que no dia 13 de junho se comemora o dia do santo casamenteiro, Santo Antônio, João Dória pai criou o Dia dos Namorados na véspera. Nascia ali uma perversa máquina ideológica de frustração.

Falando aqui da minha experiência pessoal, que não guarda respaldo científico, vejo em junho mais gente frustrada por não ter com quem passar o Dia dos Namorados que gente feliz comemorando a data em casal.

O sistema monogâmico de relacionamentos amorosos planta em nós a ideia de que "é impossível ser feliz sozinho", cantada e explicitada à exaustão nas artes cênicas, na música, na poesia, e de que só podemos nos realizar verdadeiramente quando encontramos a nossa alma gêmea, que evidentemente não existe.

Nesse sistema de crenças, não enxergamos a mera possibilidade de experimentarmos outras formas de relacionamentos. E buscamos esse ideal, genérico e abstrato, da figura do amor da vida (seja a namorada, o marido, a esposa, o noivo, o parceiro...), o par. Primeiro estabelecemos todo os papéis que o amor da vida precisará desempenhar. Criamos a caixinha do amor da vida com todas as suas predeterminações. Agora, sim, ignorando a materialidade, a diversidade e a singularidade das pessoas, tentamos apenas encaixar alguém nesse papel. E todas as vezes em que alguém não preenche todos os requisitos para ocupar aquela função, alguém sai perdendo.

Dá dó ver tanta gente infeliz, lotando as sessões de terapia, buscando aquele Grande Amor, que nunca vem porque não existe. Quando chega junho a infelicidade e a amargura ficam expostas nas vitrines existenciais. Retorno então ao começo: junho escancara a toxicidade do sistema monogâmico de relacionamentos amorosos.

Observando tudo isto, penso que a monogamia é cruel, tóxica e violenta, e deve ser manifestamente enfrentada. É preciso que exista um movimento revolucionário no campo das relações, capaz de subverter a ordem vigente, derrubando a atual estrutura, movimento que chamo de revolução dos afetos. E a revolução dos afetos somente acontecerá coletivamente. Tô pouco me lixando se você quer namorar só uma pessoa por vez e para a vida toda e tá feliz com isso. Não é sobre a sua prática pessoal. É sobre um sistema social que impõe regras de como se deve relacionar, pautadas no controle do corpo alheio e no tratamento do outro como propriedade privada, levando às relações a mesma lógica do capital. E assim como o capitalismo se apropria de todo movimento que busca subvertê-lo, também a monogamia o faz: hoje há até quem reconheça que estar com alguém não é apropriar-se de sua liberdade, é permitir ao outro que tenha uma vida própria, desde que não exista uma relação afetiva com um terceiro.

No final, é tudo mais do mesmo. as suavizações que se tentam aplicar às relações monogâmicas, que buscam minimizar a violência e o controle, sugerindo alternativas como "casais vivendo em casas separadas" ou "casais que liberam um ao outro um dia da semana para terem uma vida", ao fim e ao cabo, mantém inalteradas as bases de sustentação desse sistema: controle dos corpos. "Tudo bem sair com amigos, mas não pode desejar outra mulher no rolê!", "pode ir pra boate sem mim, mas se eu souber que você beijou outro cara, está tudo acabado"... É assim, não adianta dourar pílula. Sempre há um "pode". Há sempre uma autorização ou um pedido de permissão implícito ou explícito. No final, o outro é propriedade nossa, e nós somos propriedade do outro. "Não há nada de errado nisso, Guto, fizemos uma escolha". Não, meu bem, não há liberdade de escolha quando não há diversidade de opções. Seguir o pensamento hegemônico quando se mantém cego a outras possibilidades de relacionar-se é uma prisão. E das mais cruéis, por nos manterem presos acreditando que estamos livres.

E assim, nos dias frios de junho, reinam a tristeza e a frustração de quem ainda sonha com O Grande Amor, e ainda não o encontrou para passar ao seu lado uma data comercial, cuja única finalidade é sustentar o capital.

quinta-feira, 21 de maio de 2026

Vento

Vento

Ventos e motores na noite
Em que sombras se movem
No que se move nas sombras.
Dorme o medo, todavia,
E não dorme quem roda a engrenagem.

A rua protege os seus
Das ameaças que vêm lá de dentro,
Dos corpos que vagam sem alma
Em exílio auto-imposto
Por grades e cercas elétricas.

Guardados fora dos muros
Gatos famintos, cachorros sarnentos,
Lúmpem de ébrios e putas
E capitães da areia
Que nada têm a perder
Porque nada trazem consigo.

É noite sem voz e de vento,
De um tempo que gira
E não sai do lugar.
Quem não vai, pois que não chega,
Não sabe o canto das aves,
Prenúncio da fuga lenta
Da noite que carrega o silêncio,
Mas deixa o vento atrás de si.

Salvador, 22/05/2026

domingo, 22 de fevereiro de 2026

Transitoriedade

Gosto do gosto
Que tem a gente que fica
Gosto de vento fresco
Em praça vazia,
De laranja no céu
Com sol poente
Que a janela aberta
Permite que adentre.

Gente que fica
Dá vontade de mergulhar
No mar de afetos
Que fica na gente.
Sabor de abraço quente,
De gelo da água no Leme
De fantasia de carnaval.

Gosto do cheiro
Que tem a gente que fica
Cheiro de banho de chuva
Quando cai a luz e faz calor
Eu gosto...

Quem fica fica na gente
Como eco de miado de gato.

Gosto do barulho
Que faz a gente que fica
Barulho de sorriso aberto
Ruído do pão quando assa
De coração que bate
Em compasso e harmonia
Como o coração fica
Quando a gente fica.

Gente que fica é vento 
Mas, vento passa,
Não fica.
Não fica?
Quando passa
Bate na gente
E marca o rosto.
Gente que fica é vento 
Que marca a pele suada
Enquanto avança
A bicicleta veloz.

Tem gente que não fica
Tem gente que vai, mas fica
Tem gente que fica e não fica
Mas fica a gente que não vai
Gosto de gente que fica
Gosto de gente que fica
Gosto de gente que fica...

quinta-feira, 24 de outubro de 2024

Vazão

Se do amor, tua linguagem é cuidado
Cuida então para que não se esvaneça
O semicerrar daqueles olhinhos
Que, expressivos, sorriem rutilantes,
E riem, como se o toque da ponta da língua
Fizesse-lhes cócegas ao tocar nos dentes
Quando em meia-lua seus lábios se dobram.

"Que faço eu?", em agonia tu perguntas.
Ah, quisessem os deuses pudesse dizer-te,
Sem pestanejar, dir-te-ia: "Segue!"
E se fracassares em secar-lhe o pranto,
E não mais vires a curva ascendente da boca,
Oferece teu ombro para que sobre ele
Repouse a cabeça, sobre a qual tuas mãos passearão.

Não sê leviano. Cuida! (Tu sabes fazê-lo).
Enquanto vertem dos seus olhos sal e água,
Abraça-o no silêncio das horas mortas
Até que não mais se molhem seus ombros...
E na manhã que se anuncia, quem sabe,
Tenhas o regalo de seres testemunha,
De olhinhos apertados e língua nos dentes.

Rio, 24 de outubro de 2024 

segunda-feira, 12 de agosto de 2024

Olhares

Olhares

Do mundo que me precede,
Constituiu-se meu modo de ver.
Do tenebroso ao mais belo,
Apenas eu mesmo saberei,
O que se descortina perante meu olhar.

Nada valeria dar-te um espelho
Posto que nele, o sujeito que vê,
É o mesmo objeto que é visto.

Quem dera pudesse dar-te
Ainda que em momento tão breve,
Meus olhos, e somente eles!
Em verdade, dar-te-ia, se pudesse,
Por curto instante que fosse,
Para que dele te regozijasses,
Com tal intensidade, qual gozo eu,
Os sentidos pelos quais te absorvo.

Se apenas eu tenho o condão
De ser o sujeito que se apercebe
Do que me trazem meus sentidos,
De todos eles facilmente me despojaria
Para que num só instante,
Te enxergasses, te ouvisses,
Te sentisses, como te sinto eu,
E que espelho algum
Jamais te revelará.

Gustavo Carneiro de Oliveira
Rio, 17 anos e 5 meses depois, numa tarde em que Oyá se faz presente