Acalanto
— De quantos silêncios
Se veste o tempo
Até a gênese do brado
Anunciar que fez-se o medo?
— Talvez tantos, camarada!
Também o horizonte não vês?
— Tu bem sabes que em luxos
Não me assento. E não me nego
Ao vislumbre do amanhã...
— Todavia é notório teu cansaço...
— ...e é um luxo, a desesperança,
A que não me dou!
— Tua figura não me parece
De ânimo repleta.
— Certo estás. Um dia passa.
Morre o tolo pela língua.
— O tanto que tu disseste,
O quanto é precioso
O silêncio que almejas ter.
— E quando o tive,
Aprendi a maldizê-lo!
O incauto a língua mata.
— E do que tanto te afliges,
Camarada? Causa espanto
O espanto de quem grita?
— Vou além: ressentimento,
Isso que é! Ressentimento!
— Não te furtas de autocrítica.
— Se na chuva fechas os olhos,
Acaso deixas de molhar-te?
Do silêncio que surge
Quando o ruído suprimimos,
Deste me agrado. Ao contrário,
Se é do abandono das ideias
Que brota a falsa calmaria,
Nela, não vejo o horizonte
Mirado por olhos outros...
— Sobra solidão!
— Como é em toda correnteza
Que se sobe se não és salmão.
— É solitário todo caminho
Que vai contra a dominância!
— Só olha comigo, é o que te peço!
Põe teus olhos lá onde é ocaso,
E acredita que dali virá aurora.
E, a mim, me bastará...
— Olhemos juntos, então, meu camarada!
E é de lá que virá um amanhã
E que talvez só amanhã nos chegue.
Rio, 07 de outubro de 2026.
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