sábado, 31 de julho de 2021

Inquietação

Inquietação

Tardam-se as horas, tarda-se o sono!
Arde em brasa o natural leniente.
E aromatiza o gelo que adentra
Em cada fresta, cada vão, cada canto
Com fragrâncias de fresco capim.

Nenhum braço o abraça no frio
Obsceno que lambe seus pés.
Horas avançam, sono não chega,
Mente vagueia nas horas do porvir:

Que surpresa lhe reserva o alvorecer
Quando o dia que chega trouxer consigo
Sorriso acanhado de quem mira nos olhos?

Dorme antes da aurora! Não te cansas?
(Diz de si mesmo para consigo)
Tardam-se as horas, tarda-se o sono!
Todavia é na singeleza das palavras doces
Onde anseia repousar
Quando for presente o futuro
E se esconder o Sol que ainda não nasceu.

Rio, 31 de julho de 2021.

quarta-feira, 28 de julho de 2021

A prisão arbitrária de Paulo e Géssica

O ativista e militante Paulo Gallo, fundador do grupo Entregadores Antifascistas, teve prisão temporária decretada nesta quarta-feira, dia 28/07/2021, juntamente com sua esposa Gessica, após se apresentar voluntariamente ao 11º Distrito Policial de Santo Amaro, em São Paulo. Paulo (Gallo) Lima está sendo investigado por sua participação na manifestação democrática realizada no sábado, dia 24/07/2021, na qual representantes da sociedade civil atearam fogo na estátua do caçador de escravos Borba Gato, colaboracionista do Estado Brasileiro no genocídio da população negra durante o Brasil Colonial.

A prisão temporária é medida prevista pela Lei nº 7.960/1989, e para ser considerada legal, precisa obrigatoriamente cumprir com os requisitos previstos pelo seu respectivo artigo 1º:

"Art. 1° Caberá prisão temporária:
I - quando imprescindível para as investigações do inquérito policial;
II - quando o indicado não tiver residência fixa ou não fornecer elementos necessários ao esclarecimento de sua identidade;
III - quando houver fundadas razões, de acordo com qualquer prova admitida na legislação penal, de autoria ou participação do indiciado nos seguintes crimes: (...)"

É preciso destacar que o ativista não apenas se apresentou voluntariamente, não oferecendo quaisquer óbices às investigações, como ainda possui domicílio certo, em endereço fixo, e identificação civil. Além disso, o ato pelo qual é investigado não faz parte do rol previsto no inciso III do artigo acima transcrito.

Paulo Gallo é representante da categoria de entregadores de aplicativos, e sua luta é contra a precarização do trabalho e pela melhoria das condições abusivas, impostas pelo avanço das políticas neoliberais do atual governo, que retiram direitos trabalhistas e expõem entregadores a condições aviltantes, cinicamente chamadas de empreendedorismo.

Nós, juristas, precisamos nos mobilizar contra mais essa VIOLAÇÃO DE GARANTIAS CONSTITUCIONAIS praticada contra toda a classe trabalhadora, através dos desmandos deste Estado que há muito deixou de ser democrático, e avança vorazmente contra pessoas que lutam pela manutenção dos seus direitos. É preciso unir a sociedade contra a arbitrariedade e o autoritarismo de um Estado que se rebaixa para a burguesia e avança abusivamente engolindo os trabalhadores deste país!

Hoje, foram o Paulo e a Géssica, amanhã poderá ser qualquer um de nós, que estamos denunciando ilegalidades praticadas pelas instituições. Essas instituições que deveriam zelar pelo povo, real detentor do Poder Estatal, mas que optam por lamber as botas de uma pequena parcela de endinheirados.

Nossa total solidariedade ao militante Paulo Gallo e à sua esposa Géssica. Pela IMEDIATA REVOGAÇÃO DA PRISÃO ILEGAL DECRETADA contra ambos. A estátua de um genocida jamais deve ser motivo de orgulho para um Estado que se diz democrático. Menos ainda deverá ser pretexto para que trabalhadores como Paulo e Géssica sejam coagidos e intimidados por exercerem seu direito assegurado pelo artigo 5º, XVI, da Constituição Federal, de livre manifestação em local público.

terça-feira, 20 de julho de 2021

Quarenta, quarenta e um...

Ontem um amigo na casa dos 30 e poucos anos me perguntou como era ser um homem de 40 anos (para quem não sabe, tenho 41). Questionou se alguma coisa havia mudado na minha vida em razão de ter feito 40 anos.

O número pesa para muitas pessoas. Lembro de terem me feito essa mesma pergunta quando completei 18, uma idade que cria expectativas pela maioridade civil. E minha resposta foi unicamente "grande coisa ter feito 18, é tudo a mesma merda, não muda nada, a não ser que agora eu pratique um crime".

Meu palavreado era bem menos elaborado e eu era bem mais limitado intelectualmente para discorrer sobre o tema idade. Hoje, respondendo a uma pergunta feita forma tão específica, como a de ontem, sobre ser "um homem de 40 anos" posso dizer quase a mesma coisa que disse quando completei a maioridade.

Para mim, interna e pessoalmente, nada mudou quando fiz 40 anos unicamente por ter feito 40 anos. Então, ser um homem de 41, ou ter sido um de 40, de 38, de 35 anos, para mim não fez muita diferença em razão dos números. O tempo é uma medida criada pelo ser humano, e na natureza os processos se dão independentemente de estarmos contando ou não o tempo que levam para acontecer. Uma árvore que cai na floresta continua sendo uma árvore caída na floresta, ainda que não tenha alguém lá para ver. Ainda que não exista alguém para dizer o que é uma árvore ou o que é uma queda, ou ainda o que é uma floresta. O processo pode não ter sido nomeado ainda, mas está acontecendo.

Assim vejo a minha idade. Não me sinto velho, e não me pesa ter 41 anos. Não vou dizer que sou indiferente ao processo de envelhecimento. Mas, é isso: o que talvez venha a me pesar um dia, ou venha a me preocupar, são as transformações no mundo material e concreto, decorrentes do processo de envelhecimento. É a decrepitude física, são as dores, as incapacitações, as limitações impostas, a memória que eventualmente irá se perder, não por causa de um número que corresponda a uma quantidade de anos, mas ao próprio processo de envelhecer em si mesmo.

Na minha vida, experimentei dois momentos importantíssimos de autoconhecimento, que giraram uma chave existencial e me transformaram de forma significativa em "outra" pessoa. Um deles aconteceu quando eu tinha 22 anos, o outro aconteceu há menos de um ano, quando, por acaso, eu tinha 40 anos. Mas, não posso dizer que ter 22 anos ou ter 40 anos, são em si mesmo, de forma inerente às idades, representativos de uma grande mudança. Não vou descrever aqui as experiências que tive aos 22 e aos 40, porque não há espaço, mas sei que mexeram estruturalmente na minha forma de pensar e de ver as coisas.

É assim que funciona para mim. Um número é só um número. Os processos que se realizam no mundo material, estes sim, podem vir a me abalar negativamente de alguma forma. Não tem sido o caso até o momento. Por acaso, nunca me achei tão interessante e tão atraente como nesta idade. Mas, não é pela idade enquanto um número mágico ou um portal que atravessamos. É pela transformação lenta, gradual, que observamos dia a dia e, num dado momento, nos damos conta de que uma forma de ser deu lugar à outra.

Hoje não aliso nem escovo meus cabelos, com os quais vivi em pé de guerra durante anos, e amo meus cachos que finalmente se tornaram grisalhos. Tenho disposição física para me exercitar, para pedalar, para caminhar, para correr da polícia em manifestação. Meu rosto já apresenta algumas marcas da idade, que disputam espaço com as marcas de acne que ganhei de herança da adolescência. As cicatrizes deixadas pelas espinhas foram, durante muito tempo, um problema incontornável, que me obrigava a colocar filtros e edições em fotos para que eu não pudesse me confrontar com a imagem daquele que eu era. Hoje acho graça quando vejo fotos de dez, quinze anos atrás, em que eu parecia um desenho animado, de tanta edição. Minhas fotos atuais, em sua maioria, não levam filtro, e nunca me achei tão bonito em toda minha vida quanto me acho atualmente, com rugas, pancinha, marcas de acne e cabelo cinza.

Então, ser um homem de 41 anos, para mim, tem sido uma experiência positiva. E não por ter 41 anos, mas porque calhou de estar nesta idade quando as experiências de vida que tive e que me conduziram até aqui me transformaram em quem sou. Talvez quando eu sentir dor ao levantar da cama ou me sentir incapacitado de subir uma escada eu venha a ficar desgostoso, tenso e preocupado. E isso pode acontecer amanhã ou pode levar ainda outros 40 anos para acontecer.

Não me importa contar idade enquanto conceito prévio e abstrato, marcado em uma escala criada pela humanidade para medir o tempo. Importam-me as mudanças concretas, que acontecem no mundo material, aquilo que vejo no meu corpo, a pele que perde o viço, o músculo que perde o tônus, os ossos que rangem, o enfraquecimento da memória e do sistema imunológico, o funcionamento deficiente dos órgãos. Enquanto isso não chega, ser um homem de 40, de 41 de 42, de 43...não significa nada em si mesmo para mim.

sábado, 17 de julho de 2021

O Bispo

Através da fumaça fugaz
Que em derredor dos seus dedos dançava
E dissipava na brisa fresca
Olhava o cinza da tarde pela janela,
Pela qual ansiava não ver todas as dores
Que sabia existentes no mundo.

Em sua mente que se fartava de não ser calma
Atormentavam-lhe, como moscas em volta do lixo,
Recorrente pensamento ao qual se prendia
Num apego doente, de quem não descansa:
"Que lhe custava ter girado aquela faca?"

quinta-feira, 1 de julho de 2021

Cadeia e a ficção jurídica da ressocialização

Cadeia é só mais uma forma de controlar corpos indóceis que supostamente ameaçam um sistema de dominação de uma classe sobre outra. A função socializadora da pena é uma ficção jurídica, como, aliás, é o próprio direito.

Nossa sociedade – capitalista – valoriza o sujeito que pode consumir. Quando o sujeito não consome e, consequentemente, deixa de injetar capital para quem fornece produtos e serviços, deixa de ser desejável para existir nessa sociedade.

O direito, na sociedade capitalista, nada mais é, senão um instrumento de dominação na mão da burguesia para manutenção dessa ordem criada por ela mesma. Desta forma, o direito penal não tem outra finalidade senão encarcerar aqueles indivíduos que, por serem "indesejáveis" para a sociedade de consumo, atrevem-se a romper a fronteira física imposta pela ordem social. Como assim, Guto? Que fronteira física?

Bem, as cidades são projetadas para conforto de quem pode pagar por ele. Avenidas com opções de lazer, comércio, transportes, fácil acesso a praias e a comodidades, não são baratas. Quem pode pagar – leia-se "quem consome" – é bem-vindo. Quem não pode, é varrido para a periferia, onde não há infraestrutura. Favelas, morros, bairro afastados dos centros comerciais, tornam-se o espaço físico delimitado para os corpos indesejáveis. Neste momento, não preciso dizer que são os negros, pobres, travestis, transexuais, gays, e todos os marginalizados pelo sistema de dominação capitalista, patriarcal e branco, preciso?

Pois bem, essa parcela excluída fisicamente da sociedade de consumo, nos "limites de segurança" para quem consome, uma vez privada de condições mínimas de existência, luta para sobreviver como pode. E isso inclui o ingresso na criminalidade. Naquilo que o direito – enquanto norma imposta pelo Estado burguês – chama de crime. Entende aí por que o mesmo ordenamento jurídico que prevê crime de tráfico também prevê crime contra a segurança nacional a exaltação de um tipo diverso de ordem social, que não essa criada pela burguesia?

As cadeias são depósitos de pessoas pretas, presas com pequenas quantidades de drogas, e não servem a nenhum outro propósito senão o de gerar a falsa sensação de segurança para as classes médias, fudidas o suficiente para não serem dominantes e confortáveis o suficiente para serem consumidoras.

Pequenos delitos, como furtos e roubos não põem em risco a estrutura da sociedade, sequer configurando algum tipo de ameaça de esgarçamento do tecido social. Mas, quando a mídia insiste em implantar a cultura do medo através de manchetes policiais, tipo "jovem é assassinado por causa de um iPhone", isso cria nas classes médias (privilegiadas o suficiente para terem um iPhone, fudidas o suficiente para pagar esse luxo em 36 suadas prestações), uma sensação de temor. Passa-se então a alimentar a indústria da segurança privada e das armas, com pessoas se trancafiando em suas casas, gradeadas e cheias de alarmes. Ou por que você acha que existe um lobby das armas no Congresso Nacional, sedento por normas de liberação do armamento e de mãos dadas com a extrema direita?

Essas mesmas pessoas são as que promovem campanhas para endurecimento de um sistema penal, já suficientemente rígido para uma clientela não branca, não heterossexual, não homem cis. Tudo isso fica bem amarradinho quando governos e legisladores conservadores promovem políticas de aumento de pena, de liberação de armas, para contenção, inclusive, decorrente do avanço da retirada de direitos sociais.

E aqui a cadeia tem seu papel fundamental: guardar quem se atreve a romper com esse sistema organizado de forma a perpetuar desigualdades. As classes médias imbuídas do pânico gerado pela mídia passam a apoiar políticos demagogos, que supostamente mostram trabalho quando aprovam leis mais duras para quem é preto, pobre, favelado, que quando se atreve a descer dos morros para andar no "asfalto" vira uma ameaça e acaba encarcerado. Por isto mesmo, aconselho você a parar de clicar em manchete sensacionalista de página policial: não dê audiência a quem promove cultura do medo e implanta na mentalidade mediana a sensação de temor que faz apoiar gente como Bolsonaro e Bancada da Bala. Apresentadores de programas como Datena, Sikêra Jr., e outros do gênero deveriam ser banidos da TV.

Cadeias deveriam não existir. Direito penal não deveria existir. O Direito não deveria existir. O Estado não deveria existir. A sociedade pautada no consumo não deveria existir. O capitalismo, que junta todas essas peças e monta esse sistema tão bem encaixadinho, é o causador de tudo isso. E ele, principalmente ele, não deveria existir.

segunda-feira, 7 de junho de 2021

Ame-se. Odeie o mundo em que você está.

Ame-se mesmo quando você fracassa. E isso não é uma mensagem de autoajuda. Nem é do meu feitio. Se fosse autoajuda seria "ame-se e você nunca irá fracassar, porque quando a gente quer a gente consegue". Odeio autoajuda.

E não, nem sempre a gente consegue quando quer. Quase nunca, na verdade. A vida é uma desgraça. E por isso mesmo, é preciso que você se ame e perceba que você não é culpado/a pelos seus fracassos. A responsabilidade é de um sistema dentro do qual você se insere: um sistema que não te dá oportunidade e te cobra resultados para os quais esse mesmo sistema não te preparou.

Por isso, ame-se, e ame-se muito. Perdoe-se pelos seus deslizes em vez de passar a vida se punindo. Pare de odiar a si mesmo/a. Se fosse autoajuda, seria "não guarde ódio de nada". Mas, não é. Odeie. E odeie com toda força que você tem. Guarde seu ódio, cultive-o, deixe-o acumular. Mas não se odeie. Não direcione seu ódio contra si. Aponte-o para o sistema que te massacra. Deseje destruir esse sistema da mesma forma que você deseja se destruir quando imerge em autocomiseração.

É com esse ódio que, depois de aprender a se amar, você irá lutar para destruir o sistema que te fez aprender a se odiar. Faça esse ódio crescer até virar revolução. E ame-se tanto, mas tanto, a ponto de acreditar que você merece o mundo que você pretende construir. Porque você merece.

quarta-feira, 5 de maio de 2021

Um Conto de Pandemia ou Diálogo com um Geminiano

— Até queria, mas não estou no momento para viver um romance agora. Talvez quando concluir o mestrado, tiver um carro, uma casa, colocar o corpo em forma...

— Você acha que vida é algo que espera uma hora certa para acontecer?

— Você não?

— Claro que não! Não é que dedicar-se a seus projetos não seja importante, mas estabelecer fases para experimentar uma existência essencialista e previamente idealizada, a mim parece um tanto irresponsável. Você é feliz?

— Não...

— Então...

— ...mas, vai chegar o momento em que serei!

— Se te faz bem pensar desse jeito...

— E você? Não acha irresponsável viver como se não houvesse amanhã?

— Tire o complemento da sua pergunta e repita.

— "Você não acha irresponsável viver?"

— Agora volte umas casas, lá para o começo da conversa, tire o complemento da sua frase negativa...

—"Não estou num momento para viver"?

— Pois bem. O que te parece?

— Não entendi onde você quer chegar... Mas, diz aí você, que se formou, que entrou no mercado de trabalho, que se habilitou profissionalmente... Vai dizer que cumprir cada uma dessas etapas não te trouxe imensa felicidade?

— Não. Não trouxe. Deveria?

— Não é o que se espera?

— Exatamente! Mas, quem espera? E espera com base em quê?

— As pessoas esperam. Porque é assim que é a vida. A gente nasce, a gente cresce, a gente estuda, se forma, trabalha, adquire bens, casa, tem filhos...

— Que vida é assim? Digo, que vida traz em si, intrinsecamente, essas fases? São etapas inerentes e constitutivas em si mesmas do que se chama vida? E quem não estudou? Quem não trabalha? Não vive?

— Não sei... Talvez não viva. Talvez não como deveria.

— Deveria, deveria, deveria... Você só repete o dever ser. O que deveria ser não é o que é. Essas etapas da existência são frutos de um pensamento criado pela nossa sociedade, que estabelece um tipo de script a ser seguido e nos ensina que deve ser assim. "Você vai ser feliz no dia da sua formatura", "Você vai ser feliz no dia do seu casamento", "Você vai ser feliz quando seu primeiro filho nascer"...  Olha que merda! Criam um roteiro e a gente embarca! Eu não senti essa felicidade idealizada quando me formei. Só senti alívio, não suportava mais a faculdade! Tirar minha OAB? Mais alívio, finalmente poderia trabalhar. Começar a trabalhar? Mais alívio! Poderia pagar minhas contas... O roteiro que nos ensinam transforma em causador de felicidade o que é pra ser um mero momento de transição. Um instrumento para superar uma fase de dificuldade e ingressar em outra. Primeiro nos impõem uma série de dificuldades, como se estivéssemos cumprindo fases de um vídeo game, depois nos dizem "superou uma fase? Isso é felicidade, agora passe para a próxima...

— E alguma coisa em algum lugar te faz feliz?

— ...no fim a gente vê uma caralhada de gente frustrada, seja porque não realiza as etapas que lhes dizem que deve realizar, seja porque, quando as realiza, não encontra o pote de ouro no fim do arco-íris... essa tal felicidade que dizem que deve estar lá! E então a pessoa se frustra, acha que tem algo de errado consigo! E respondendo a sua pergunta, sim, já experimentei momentos felizes. Sentir o vento na cara enquanto ando de bicicleta é uma coisa que me faz feliz. Sabe quando te falei da gambiarra que tive de pensar para consertar meu ventilador? Então... O simples fato de ver meu ventilador funcionando, com uma ideia que eu tive, me deixou feliz. E feliz mesmo! Tipo "uau, sou um gênio!" Por alguns minutos experimentei mais felicidade do que quando finalmente saí da faculdade.

— Estranho alguém ficar feliz com algo que nada tem de grandioso...

— E o que é grandioso para você? O que te faz supor que pegar um diploma é algo grandioso é o valor que te ensinam que um diploma tem. Dizem que casamento é um momento grandioso. Para mim, é um passo para o cadafalso.

— Você não conta, é do contra. Sua opinião sobre casamento sempre foi radical.

— Não se trata disso. Minha opinião sobre casamento sempre foi a "minha opinião". Em parte formada, como todas as opiniões sobre todas as coisas, com base no que experimentamos do mundo. Em parte formada com base na minha subjetividade, que também é fruto do que vejo do mundo.

— Então você diz que tudo que você gosta é porque te ensinaram a gostar?

— Sim e não. Nossa sociedade nos ensina que casar é bom, que se formar é bom, que ter filhos é bom, que trabalhar é bom. A gente então vive para perseguir esse roteiro. Mas, nossas experiências particulares interferem nessa visão geral. Por um lado "o mundo" espera que eu case, porque para "todo mundo", o casamento é um sonho. Mas, eu, querendo ser o diferentão, digo não a essa experiência. E por quê? Porque sou um ser formado em mim mesmo, constituído por valores individuais, originados dentro de mim? Não. Mas, porque minhas experiências vividas ou minhas observações mostram que o casamento não é legal. Eu aprendi a valorar outras circunstâncias que não são compatíveis com a ideia de casar. Então, mesmo eu fugindo do casamento, fazendo parecer com isso que sou uma voz dissonante em meio a uma coletividade que sonha com o dia de jogar o buquê, na verdade sou só uma colagem de outras influências do grupo no qual estou inserido. Se numa escala mais ampla, "o grupo", pensado assim de forma difusa, valoriza o casamento, pode ser que as influências mais diretas que recebi, de pessoas específicas, de leituras específica, de estímulos externos, tenham sido voltadas a cultivar momentos em que estou sozinho. Minha subjetividade foi moldada também.

— Então, você não quer seguir a boiada e viver como a sociedade impõe, mas segue a boiada, vivendo de forma diferente. Não estou entendendo.

— Eu sigo uma boiada dentro de outra. Uma corrente dentro de uma estrutura maior e mais abrangente. Mas, não vamos tergiversar. Voltando ao assunto principal, é necessário entender que, se por um lado seus valores são valores que o meio lhe impõe, por outro lado, você deve abraçar quem você se tornou e aceitar que você pode ser diferente e isso não é nenhum problema. Se você não se sente feliz com um "momento grandioso" talvez porque não exista um momento grandioso em si mesmo, mas um momento ao qual atribuem o valor da grandiosidade. É o tal roteiro do qual estou falando. Eu não preciso estar feliz porque as pessoas dizem que devo estar feliz. Como na formatura, por exemplo. Você pensa que há algo de errado consigo por ter se graduado e não ter se empolgado? Você já viu uma mãe com depressão pós-parto? Já procurou se informar sobre a culpa que sente por não estar feliz com a chegada do bebê, mas deprimida? Vê que ela sofre duas vezes: a primeira dor é a própria depressão em si; a segunda é a culpa por estar deprimida quando o mundo inteiro lhe cobra que esteja radiante. Ela não segue o script e se sente a pior pessoa do mundo.

— Entendo.

— Sabe se essa mãe curtiu a gravidez? Ou se não curtiu a gravidez, mas a novela que passava na TV, ou a promoção à diretoria do setor na empresa em que trabalha... Qualquer coisa. Qualquer coisa que não fosse o marcador "mulher que espera um bebê". O que, no curso do processo a fez feliz, que a maternidade não superou? E por que lhe tiraram isto para a colocarem a ser mãe? 

— É isso que você chama de roteiro?

— Por que você seguiu uma faculdade, que não lhe trouxe felicidade? Por que vai se empregar num emprego que não lhe trará felicidade? Por que pode se prender numa relação que não lhe trará felicidade? Por que não ficará feliz quando segurar no colo seu primeiro bebê?

— Aí, você já está conjecturando...

– Mas, não é esse o cerne de questão! Eu apenas ilustrei que muita gente segue o fluxo. E você está seguindo também! Espero que encontre em algumas dessas etapas um pouco de felicidade. Mas, você não tem garantia alguma de que o fará! Tomara eu esteja errado e você encontre. Mas, você não pode apostar por isso. E aí? Se não acontecer, o que você vai fazer? Vai continuar seguindo o roteiro? Não se trata de te tirar do fluxo, mas apenas te mostrar que você segue um! Para que, amanhã ou depois, se você estiver insatisfeito no rumo que está levando, você possa ao menos cogitar a possibilidade de haver outros... porque as relações entre as coisas são dinâmicas demais para caberem numa escalinha de tempo. Você não quer a porra do namoro? Namore! Vai esperar voltar da Europa, depois de financiar o carro, quando tiver parcelado seu apartamento, após a promoção da empresa em que você trabalhou por dez anos, depois do mestrado, para só então experimentar algo novo?

— Mas, eu estou correndo atrás do meu sonho!

— Que sonho é esse que você persegue e que a cada dia te deixa mais exausto de tudo? Com que estado de ânimo esse sonho vai te encontrar? A vida é o que acontece todos os dias desde que você nasce até quando você morre. Toda a espera não é nada mais que uma projeção de vontade. E não é uma vontade que surge do nada, é uma vontade à qual você é treinado a sentir. E aí, você passa a existência esperando da vida algo que ela não necessariamente irá te dar. Ela até pode. Por sorte. Mas, não necessariamente irá. Enquanto seu evento grandioso não chega, o que você estará fazendo? Isso é vida. Não é nada que tenha em si própria um valor, a não ser o valor que damos a ela. Se você renega todo esse tempo em que O Momento não chegou, você faz o quê? Esse marasmo é vida acontecendo. E todos os dias, a cada dia, a gente precisa tentar encontrar uma razão para estar aqui. Porque senão a existência se torna insuportável! Pra que projetar essa razão para um evento futuro e incerto para então esperar a magia acontecer?

— Parece papo de coach, até me admira você com esse discurso de autoajuda... Chega a ser engraçado você tentar me dizer que a magia acontece a toda hora...

— Você não entendeu nada, então... Não estou tentando lhe dizer que a magia acontece a toda hora, o que estou dizendo é que talvez a magia não venha a acontecer nunca...

— Vai à merda com seu pessimismo!

— ...E isso só se torna um peso quando a gente espera da vida o que ela talvez nunca venha a nos dar. Quando a gente deixa de desejar, a gente deixa de sentir a falta.