segunda-feira, 26 de março de 2012

Oásis de Bethânia

Dá-se o nome de oásis às pequenas porções de terras férteis, próximas a nascentes de água, dentro de um deserto. Tratam-se de territórios extremamente valiosos por possibilitarem paradas estratégicas de caravanas e permitirem repouso e abastecimento das frotas que singram as imensidões áridas. São locais visados para a restauração das energias esvaídas de viajantes e animais combalidos pelas condições inóspitas do trajeto. Em sentido figurado, oásis significa renovação, prazer ou consolo diante de adversidades.

Renovação. Ultimamente tenho tocado com certa frequência neste tema. E nos mais variados contextos, dentre os quais incluo os debates inflamados sobre a carreira da Madonna, passando por uma necessidade de desenvolver estratégias de marketing para renovar a imagem da empresa onde sou empregado, chegando à análise dos últimos trabalhos de Maria Bethânia.

Dissidente dentre grande parcela dos fãs da Abelha Rainha, costumo dizer que o tempo foi generoso com sua voz, diferentemente do que aconteceu com inúmeros cantores e cantoras que sentiram em suas cordas vocais o peso dos anos. Os trabalhos antigos de Maria Bethânia me conquistaram, mas não tanto por sua voz intensa, porém não lapidada, muitas vezes evocando uma agressividade que julguei desnecessária (como se verifica no “Soneto de Fidelidade” gritado de “Rosa dos Ventos”, em 1971). Atualmente, sem perder a gravidade, seu timbre vem ganhando certa maciez que talvez desagrade aos que guardam como paradigma a crítica social entoada nos versos de “Carcará”.

Quando falamos sobre o atual momento na carreira de Dona Maria, ouço com bastante frequência uma crítica sobre a mesmice que pairou em seus trabalhos mais recentes, nos quais se tem verificado uma reiterada alternância entre violas caipiras e sonoridade sertaneja de um lado e referências africanas, candomblé e rodas de samba de outro. E, divergente que sou, acho um tanto injusta a permanência da crítica diante de álbuns modernos como o elegante “Tua” e o conceitual “Mar de Sophia”.

Agora, ouvindo o “Oásis de Bethânia”, cujo lançamento oficial está previsto para o próximo 1º de abril, deparei exatamente com isto: renovação. E não me refiro apenas à sonoridade, mas à própria temática das músicas. Com apenas 38 minutos, as dez faixas de “Oásis de Bethânia” cantam a transformação. A mudança dos rumos, os amores que se vão e a superação da dor. Como na Betânia bíblica, onde, de acordo com a lenda, Lázaro voltou da morte, o álbum, de um modo ou de outro, deixa claro que nada é eterno e que tudo pode ser revisto, revisitado e reformulado. É o reverso daquilo que está posto, descortinando novas existências, reais ou imaginárias. Os conselhos entoados na terceira faixa, “Vive”, composição de Djavan, “Desencana, meu amor/Tudo seu é muita dor/Vive!”, fazem crer ser possível reverter em alegria as vicissitudes, da mesma forma que “Lágrima”, faixa que abre o disco, traz a ilusão de ser plausível “fazer das lágrimas que choro estrelas a brilhar”.

Pesando contra a qualidade da obra, somente os desnecessários agudos que Dona Maria assume na execução da excelente “Carta de Amor”, composição de Paulo César Pinheiro, com texto de autoria da própria cantora, que passeou bravamente na seara da literatura. Além disso, há uma desaceleração à medida que as faixas se sucedem, dando a impressão de que o melhor foi aproveitado no começo, e deixado para o final, não exatamente o pior, porque o álbum não se encerra com uma música ruim, mas talvez o mais frio. Ocorre que as faixas que o abrem são mais comoventes, mais intensamente dramáticas, adequadas para o dedinho em riste, enquanto aos poucos, vão adquirindo uma levada jazzística, mais cool, o que não tira a qualidade da produção.

Com uma concepção minimalista, o disco valoriza sobretudo a voz da cantora, priorizando arranjos discretos e elegantes, como o bandolim de Hamilton de Holanda na já citada “Lágrima”, o sax de Marcelo Martins em “Casablanca” e o piano de Vítor Gonçalves em “Barulho”, estas duas, composições de Roque Ferreira, que também assina a melancólica “Fado”. Além disso, conta com um delicado repertório, escolhido pela própria Bethânia, que inclui faixas inéditas, bem como obras arraigadas no cancioneiro popular brasileiro, como “Calúnia”, de Paulo Soledade e Marino Pinto, eternizada na voz de Dalva de Oliveira, e “Velho Francisco”, belíssima música de Chico Buarque.

Melancólico, lento, às vezes arrastado, conjugando verbos no passado, evocando tempos que se foram e incertezas sobre o que virá, sem, no entanto, deixar esvair a esperança de que o futuro incerto se revelará bom, “Oásis de Bethânia” é um disco nostálgico, que colaciona a sonoridade daquela Maria de álbuns épicos, como “Mel”, “Álibi” e “Ciclo”. Reconfortante, é para ser ouvido à meia luz, com a gravata afrouxada no colarinho.

quinta-feira, 22 de março de 2012

MDNA, um acerto depois de uma série de erros

Nunca fui fã de música pop, quem me conhece sabe bem. Menos ainda da Madonna, cuja figura me incomoda muito com sua notória antipatia e ausência de carisma, além de uma marcante falta de voz. Mas, isentando-me de minhas preferências pessoais, sempre a admirei como artista, por sua constante capacidade de se renovar. E dentre tantas obras de gosto duvidoso que ela já produziu, consigo tirar coisas muito boas, como os álbuns "Ray of Light", "American Life", “Erotica” e "Bedtime Stories". Mesmo porque nem só de timbre e alcance vocal é feita a boa música. Que o digam as adoráveis gravações de Maria Bethânia e de Nara Leão.

Com uma obsessão meio estranha por uma artista de quem nunca me considerei um admirador, tento acompanhar cada novidade que a Madonna lança. Em primeiro lugar para ir contra meu próprio preconceito sedimentado de que música pop é sinônimo de lixo. Gosto de me surpreender e mesmo de me contrariar. Já dizia Raulzito, "prefiro ser esta metamorfose ambulante do que ter aquela velha opinião formada sobre tudo". Em segundo lugar, para descobrir qual foi ideia original que ela trouxe. E neste último aspecto, confesso, tenho andado bastante decepcionado.

Desde o álbum "Music", um dos piores de sua carreira, que só se salva por ter incluído uma versão bem razoável, ainda que incompleta, de "American Pie", obra prima de Don McLean, e a qual, aliás, a própria Madonna não aprecia, seus trabalhos vem se repetindo à exaustão! São aproximadamente 15 anos utilizando-se reiteradamente a mesma fórmula! Quem quebrou um pouquinho o marasmo e ausência de criatividade foi o disco "American Life" que, apesar de abraçar o eletrônico, deixou um pouco de lado a atmosfera dançante. Depois, seguiram-se os monocórdicos "Confessions on a Dance Floor" e "Hard Candy" que não revelaram bem a diferença da “Rainha do Pop” em relação a tantas outras fotocópias do pop-dance, como Lady Gaga, Beyoncé, Britney Spears, a ponto de justificar seu título de nobreza.

É aí que me surpreendeu ouvir MDNA, o álbum novo, cujo lançamento oficial está previsto para o próximo dia 26 de março. Continua mais do mesmo, sejamos honestos, sem nenhuma originalidade. No entanto, desta vez o disco trouxe melodias bastante captáveis, daquelas que ficam na cabeça e se podem assoviar.

MDNA começa com duas faixas monótonas, de batida bastante dançante, é fato, mas que não conseguem empolgar, e parece estar fadado ao fiasco quando, imediatamente encontra seu pior momento, na terceira faixa, “I’m Addicted”, extremamente cansativa. Porém, a partir daí, os passos começam a se acertar e a deliciosa “Turn Up The Radio” inicia a parte boa do álbum. Na faixa “Give Me All Your Luvin”, que conta com a participação de Nicki Minaj e M.I.A., o retrô coloca-se em evidência no coral cafoníssimo – e por isto mesmo, muito agradável de se ouvir –, que mais se parece com os gritos de animadoras de torcida. Da mesma forma, “Superstar” e “I Don’t Give A”, que também conta com a participação de Nicki Minaj, não ficam devendo coisa alguma a qualquer sucesso eletrônico dos anos 80, acrescentando-se ainda como um plus o crescendo final com que esta última faixa se encerra.

As letras vão desde a pieguice adolescente da brega “Superstar” (“Uh-lalá, você é meu superstar (...) Você é meu mafioso, como o meu Al Capone”) até o transcedental de “I’m a Sinner” (“Como o sol, como a luz, como a chama/Tal como a tempestade eu queimo através de tudo (...) Eu sou uma pecadora, eu gosto de ser assim”), não sem passear pelo lado sexualmente apelativo que não poderia deixar de aparecer em um trabalho da Madonna (“É tão erótico/Esse sentimento não pode ser vencido/Está passeando por todo meu corpo/ Sinta o calor”). O fato é que, independentemente da temática cantada, é impossível não sentir vontade de cair em uma pista de dança ao som de MDNA. A batida acelera e reduz na medida exata, abrindo todas as possibilidades que uma boite pode oferecer, desde a pura e simples diversão descontraída até a sensualidade de corpos suados em movimento hipnótico.

O álbum encontra seus momentos mais calmos nas faixas “Masterpiece” e “I Fucked Up”, na qual a artista pede desculpas, reconhecendo que ferrou tudo e errou novamente. Tudo bem, Madonnna, está perdoada. Aqueles que admitem o próprio pecado dão um passo inicial para a salvação. Aliás, ao dizer “Eu cometi um erro/Ninguém faz isso melhor que eu”, Madonna poderia muito bem estar se referindo aos seus últimos trabalhos, mas não a MDNA (Ok, a letra não fala nem de uma coisa nem de outra), que possui músicas que podem mesmo ser qualificadas como belas, coisa quase impossível de se ver neste universo pop de pseudocantoras fabricadas em série. Dou aqui minha mão à palmatória reconhecendo, que, embora nada justifique este fanatismo afetado que as pessoas alimentam por uma cantora mediana como tantas outras, passados os minutos iniciais, o álbum é muito bom e revela-se um perfeito convite para cair na pista.

sexta-feira, 9 de março de 2012

Abandono

Há sempre um pouco de mágoa em escrever. Porque as palavras são ingratas com aquele que delas faz uso. É como uma amizade inconstante, que num momento se faz presente, dando tudo de si, ocupando todo os espaços vazios e oferecendo o conforto à solidão dos dias e das noites e de repente traz o abandono, desfazendo a esperança de que alongaria sua presença. Então, sem dizer sequer adeus, vira as costas e sai. Leva consigo a alegria de sua companhia e deixa em seu lugar somente a saudade e a incerteza sobre se um dia voltará.

Quem fica sofre. O medo de ser deixado para sempre torna ainda mais dura a negação da equação em que a soma do acostumar-se e do gostar era igual à felicidade por poder externar-se e desabafar. Então, gastam-se horas vazias, segurando em vão um lápis e um papel ou alisando com dedos vacilantes um teclado macio. É uma síndrome de abstinência, similar à que conduz o fumante a segurar entre os dedos um cigarro, ainda que apagado, somente para manter a longínqua sensação táctil do ato de fumar, que jamais substituirá o prazer inebriante da nicotina.

Deseja-se que as palavras abundem, mas elas apenas faltam. Assim, simplesmente. Como se jamais tivessem existido. Como se faltar fosse a única condição imposta em sua gênese para sua gênese. Até que o escritor adapta-se novamente à realidade do abandono, à insuficiência e à inexpressividade vocabular.

Mas, então, eis que surgem em profusão, fazendo crer novamente que vieram para ficar, brincando com os sentimentos sérios de quem se acostumou a ser abandonado, iniciando o eterno ciclo de idas e vindas.

Não há em quem escreve o orgulho dos apaixonados que, deixados pelo objeto de sua paixão e de seu desejo, lançam mão de jogos e estratagemas que os impedem de assumir aquilo que sentem. Ao contrário, quem escreve se humilha. Está sempre rastejando por qualquer sobejo lexical e o mínimo sinal da menor e mais essencialmente monossilábica palavra será suficiente para trazer o ímpeto de agarrá-la com sofreguidão, implorando, sem a menor dignidade, para que não vá embora.

Escrever é ser. E quem escreve só é enquanto o faz. Mesmo com o sofrimento e as vicissitudes inerentes à inconstância que é existir, aquele que escreve precisa estar sendo. Sempre. Ou terá por jazigo perpétuo o limbo sombrio de uma realidade sem a linguagem que o traduz sobre um pedaço qualquer de papel de pão, sulcado pelo caminho sinuoso que se abre à medida que suas curvas são construídas pela tinta de uma caneta.

quinta-feira, 8 de março de 2012

Era uma vez...

Morava distante, o que a obrigava diariamente a levantar cedo de sua cama para trabalhar. De origem pobre, chamava-se Cynderella da Silva, assim mesmo, como todos os YY e LL cuidadosamente escolhidos por seus pais, que acreditavam com isto, conferir algum status ao seu nome e imprimir alguma força em sua personalidade, o que a levariam longe. Mas, o mais longe que seu nome a levou foi ao seu mundo idílico, existente apenas em sua cabeça de leitora voraz de livros de bancas de revistas.

Era uma moça sem belezas e, por esta razão, jamais fora capaz de despertar paixões em quem quer que fosse. Romântica, devorava todos os volumes de “Sabrina”, “Júlia” e “Bianca” que lhe caíam nas mãos e, sempre que podia, comprava um exemplar. Era um luxo ao qual se permitia. “Gastar com cultura é investimento”, justificava-se. Acostumada à solidão que acompanha a fealdade e íntima dos títulos nos quais a palavra “amor” estava sempre presente, fantasiava inúmeras vidas, similares às que encontrava nas páginas da literatura barata que consumia.

Às vezes era uma belíssima serviçal de uma mulher rica, amargurada e cruel, cujo único herdeiro era um filho garboso e de bom coração. Todos viviam num castelo – que sempre ficava na Escócia (era um nome bonito para um lugar) – mas a rica proprietária transformava sua vida em um tormento, para horror do seu filho, que, num dado instante, descobria-se apaixonado pela pobre injustiçada, que invariavelmente se chamava Jennifer. Com a morte da mãe, o casamento do filho era o caminho inevitável e a ex-criada, agora transformada em uma requintada dama, vivia feliz para sempre ao lado do seu amor. Numa outra ocasião, era uma belíssima órfã, Jennifer, escocesa, que vendia flores, até que, num dia de chuva, um homem garboso de bom coração lhe aparecia e comprava todo o estoque. Era rico, claro. Mas, casado. E sua mulher, como não podia deixar de ser, amargurada e cruel... O final de todas as histórias era sempre o mesmo.

Ia, desta forma, conduzindo sua vida sem atrativos, perdendo-se em devaneios através dos quais conferia alguma graça às horas que gastava no trajeto de casa para o trabalho e às outras tantas que perdia no caminho inverso, em alguma realidade fantástica que tornava mais leve sua vida medíocre. Possuía uma existência insignificante e se dava conta disto quando punha um final em seus pensamentos. Sofria nestes momentos, como quem sofre a perda de uma vida, mas, tão logo era consumida pela dor de ser ela própria, engajava-se na construção de uma nova fantasia e, sem se aperceber de si mesma, enfrentava com resignação a massa informe que, todos os dias, a esmagava na entrada e na saída do metrô.

Naquele dia, como por inspiração divina, constatou, encantada, que poderia se transformar em uma personagem de conto de fadas. Não mais se enxergava na plataforma daquela estação lotada de pessoas que esbarravam umas nas outras como se atraídas por grandes ímãs ou por uma força gravitacional contra a qual era impossível lutar. Cynderella era ela mesma, mas sem os YY e LL, o que a tornava um pouco menos Gata Borralheira. O que antes era uma sirene de aviso, agora era um arauto que anunciava a aproximação, não de sua carruagem, pois queria mudar e ser mais moderna, mas do trem que a conduziria à felicidade eterna, com que se encerram todas as histórias que se iniciam com “era uma vez”.

Mais imaginativa que o habitual, subvertia o conto, adaptando-o ao seu próprio momento, igual a todos os outros de todos os dias. Ela não era mais uma assalariada atrasada para seu trabalho. Havia sido transformada por uma fada madrinha e era agora uma donzela que, trajando um longo vestido e um par de delicados sapatinhos que faziam ainda mais belos seus pés, encantava a todos com suas maneiras refinadas, sua beleza e sua elegância.

Depois de vivenciar todo o esplendor de um baile, repleto de convidados tão nobres quanto a condição que ela própria ostentava, estava atrasada sim, mas para adentrar o trem encantado, que, inexoravelmente, transformar-se-ia em abóbora quando a mágica chegasse ao fim.

Sentia-se tensa e buscava por espaços abertos dentre os convivas, que bailavam cada vez mais próximos uns dos outros, transformando-se em uma verdadeira barreira humana e impediam-na de se aproximar da gare onde tomaria seu luxuoso vagão...

Foi arrancada bruscamente do onírico cenário, quando se deu conta de que o metrô estava parado ali diante de seus olhos e a dança dos convidados adquiriu contornos de turba, dentro da qual empurravam-se uns aos outros, numa tentativa frenética e desesperada de entrarem no vagão apertado, que jamais comportaria de forma adequada todo aquele contingente que se movia como uma manada de animais em debandada. Empurrada para dentro, como um plâncton que flutua ao sabor das ondas, mas, incapaz de nadar, tampouco pode escolher o destino que pretende seguir, olhou para baixo e viu que estava com um dos pés descalços. Tentou voltar à plataforma.

Não conseguiu vencer o caos da multidão e antes mesmo que pudesse se aproximar das portas, o apressado aviso sonoro lhe dera a certeza de que estas se fechariam, encerrando-a para sempre naquele esquife coletivo. A composição partira... E então, sem nenhum glamour, Cynderella da Silva perdera seu sapatinho. Já passara há muito de sua hora, mas, mesmo assim, seu vagão não viraria abóbora. Seria sempre o mesmo metrô de todos os dias e isso era ainda mais triste. A vida nunca seria um conto de fadas... Sem que jamais algum príncipe a tivesse seguido, seu sapato deteriorou-se lentamente naquele trilho, enegrecido com a fuligem que se acumulou a cada trem que por ali passou.

quarta-feira, 29 de fevereiro de 2012

Um conto de verão

Ela entrou com o bebê no colo. Ele nunca foi um homem bom. Fazia um julgamento de si próprio desprovido de falsa modéstia e acreditava-se com o caráter um nível acima do da grande maioria dos indivíduos e nutria um notório desprezo contra aquilo que se chamava “raça humana”. Não sentia raiva do indivíduo ao seu lado, mas desprezava o grupo de todos os indivíduos que estavam ao seu lado e dentro do qual se inseria. Não se achava bom. Supunha, sim, que a raça humana é que estava a um passo atrás de si. “As pessoas são más”, dizia a si mesmo e, sem se acreditar bom, tinha apenas a impressão de que agia com o mínimo de postura com que deveriam agir todos. Pouco se importava com o maniqueísmo da espiritualidade, mas encontrava em Immanuel Kant um grande aliado. Ele sempre sonhou em mudar o mundo, embora nunca tivesse se dado ao trabalho de acreditar nesta possibilidade. E para não sucumbir por sua falta de fé, ele nunca deixou de desejar. Com tudo que podia. Se o fizesse, acabaria por atirar no próprio ouvido. Perdera a esperança que nem mesmo depositara no homem e desprezava-o por isto. Mesmo assim, tentava praticar boas ações, sempre repetindo para si mesmo: “não é mais que minha obrigação; é o mínimo que todos deveriam fazer.”

Era egoísta e por isto praticava o que diziam ser o bem, o que para ele era só mais uma faceta do seu próprio olhar sobre si mesmo por desejar estar em consonância com seus próprios valores e isto lhe dava prazer. Era a busca por este prazer que o fazia praticar um ato em prol da mesma humanidade da qual não se enxergava como membro, embora o fosse. Não acreditava em altruísmo despropositado, porque no âmago todos fazem algo visando à própria satisfação pessoal. Sua consciência nunca lhe pesou por pensar assim. Pelo contrário, sempre achou bom que existissem pessoas capazes de sentir o tal prazer de ver o bem do próximo e correrem atrás dele. Isso tornava o mundo um lugar um pouco menos insuportável.

Ao vê-la desajeitada segurando aquela criança, ele percebeu que ela era, evidentemente, evangélica. Lutara sempre consigo mesmo para abolir preconceitos e ideias pré fabricadas que costumeiramente conduziam à intolerância e, por esta razão, nunca gostou de conceitos limitantes, tais como “cara de crente”, “jeito de gay” ou “ar da bandido”... “Gay, crente e bandido não têm cara”, dizia. Mas, naquele momento, contra seus princípios, ele teve a certeza de que ela era evangélica, afinal, ela trajava uma sóbria camisa de manga longa e usava uma saia na altura do tornozelo, a despeito do calor escaldante que mordia a cidade com suas presas pontiagudas. Sem se dar conta de que ele mesmo trajava um terno, como trajam os pastores, ele teve a absoluta certeza de que ela era evangélica.

Naquele momento, ele não pensou na resistência que nutria contra crianças e na própria intolerância que tinha em relação a cristãos – mais um preconceito seu do qual ele tinha consciência e o qual tentava não alimentar. Apiedou-se dela. Não por bondade, que ele não era dado a este tipo de pieguice. Apiedou-se porque ele mesmo era arrogante. E viu apenas uma mulher em uma sociedade de homens, uma negra em uma sociedade de brancos e uma evangélica. E também por vê-la obrigar-se a segurar uma criança no colo enquanto lutava para entrar naquele vagão repleto daquilo que ele desprezava: gente.

Mas nada do seu desprezo passou por sua cabeça naquele momento. Não pensou no quão impaciente as crianças normalmente o tornam. Não pensou em todos os embates ideológicos que já travara com um cristão. E assim, sem pensar em nada, mecanicamente, levantou-se e ofereceu-lhe seu lugar. "Jesus lhe abençoe", ela disse, confirmando suas suspeitas. Somente então perguntou-se se ela teria aceitado a sua oferta e sentado no lugar que ele lhe cedera se soubesse que ele era ateu. Divertiu-se com este pensamento e sorriu. Fechou os olhos e prosseguiu sua viagem em pé.

quarta-feira, 28 de dezembro de 2011

Ele não me fez falta.

Em diálogo com um amigo que vem valentemente enfrentando um Linfoma Não Hodgkin, e por cuja recuperação torço sinceramente, fui questionado se eu nunca me senti solitário durante todo o período em que venho enfrentando/enfrentei meu Carcinoma pelo fato de eu ser ateu e, consequentemente, não depositar a esperança da minha cura em um “ser superior” que estivesse velando por mim. Em resposta, disse-lhe que não. E uma série de pensamentos me ocorreu de forma atabalhoada, quase me impedindo de seguir adiante na conversa, em razão da dificuldade de transpô-los ordenadamente em palavras.
De fato, não me senti sozinho durante meu tratamento e nas ocasiões das cirurgias a que tive de me submeter. Em todos estes momentos, contei com uma equipe médica bem preparada, o que, por razões óbvias para mim, é o principal! Ademais, contei com o apoio de amigos e da família, o que me impediu de sucumbir quando o medo, a dor e a tristeza bateram algumas vezes a minha porta.
Não. Deus não fez a menor falta! Até mesmo porque, ad argumentandum tantum, partindo do pressuposto hipotético de que ele realmente exista e de que nada no Universo acontece sem sua intervenção onipotente, o fato de eu ter desenvolvido uma neoplasia maligna supostamente foi uma vontade divina, seja lá quais forem os motivos que ele tenha tido para desejar minha doença... Não adentrarei neste mérito. Prosseguindo, Deus não fez falta, basicamente por dois motivos: o primeiro é que se ele teve a presença de espírito (para não dizer “espírito de porco” ou “fogo no rabo”) de me colocar um câncer, não acredito que ele se importaria muito com meu sofrimento, tampouco estivesse preocupado em me curar; segundo, porque se ele me proporcionou algo tão ruim como a doença, sou rancoroso demais para querer alguém como ele por perto, a não ser que eu tivesse a oportunidade de quebrar sua cara com um soco.
Como uma coisa acarreta outra, uma outra ideia que me ocorreu durante minha conversa com meu amigo foi que não há um critério baseado na fé para assegurar quem vai ser curado e quem não vai. Crentes e ateus sofrem com doença. Crentes e ateus morrem de câncer. Crentes e ateus morrem em paz. Crentes e ateus morrem a custa de muita dor. Crentes e ateus se curam. Crentes e ateus têm recidiva... Enfim, se a doença tiver que sumir de dentro de você, sumirá, com ou sem a sua fé na salvação de sua alma. Se a doença tiver que te matar, matará, com ou sem a sua fé na salvação de sua alma.
Penso como deve ser triste àquelas pessoas que contaram com Deus para sua cura, mas acabaram morrendo! Como deve ser sido decepcionante aos que ficaram e carregam a certeza de que não puderam contar com ele, mesmo tendo pedido tanto. O fato é que eu me sentiria menos enganado se eu morresse sem ter depositado minha esperança em alguém que, supostamente poderia me curar e não curou!
Honestamente, para mim, vale mais contar com os médicos, mesmo sabendo que muitas vezes eles não conseguem nos salvar. Alivia pensar que eles fazem o possível! Vale mais contar com a família e os amigos. Ainda que eles não tenham o poder de nos curar, senti-me bem mais seguro em meio aos que me amam e que se esforçaram para reduzirem de alguma forma os incômodos que a doença trouxe. Estes sim tiveram importância crucial para me ajudarem a lidar com o câncer!
E Deus, quem é? É aquele que poderia me manter saudável, mas preferiu macular meu corpo com um tumor maligno? É aquele que poderia ter me tirado as dores que a radioterapia me causou, mas preferiu permanecer omisso, agravando-me os sintomas com as queimaduras na minha pele e as feridas na minha garganta? É aquele que poderia me tirar as náuseas e azias decorrentes da quimioterapia, mas preferiu pagar para ver o quanto eu vomitaria? É aquele que poderia manter intacto o meu paladar, mas preferiu extirpar de mim o meu maior prazer, que é o de comer? É... Ele não me fez a menor falta!

terça-feira, 20 de dezembro de 2011

Yhwh: O precursor do terrorismo

Mais um ano caminha em direção ao seu fim e todo aquele ritual característico do mês de dezembro começa a ser observado no comportamento geral das pessoas. Em todos os cantos, todos correm pelas lojas em busca de presentes e pelos mercados em busca do maior peru. As agendas ficam lotadas com tantas reuniões e confraternizações que, rotineiramente, acabam no famigerado “Amigo Oculto”, o qual sempre deixa insatisfeito um considerável percentual do grupo em questão. Há sempre um exagero nas ornamentações de gosto duvidoso, com uma infinidade de luzes e cores, que configuram poluição visual sem fim, mas que todo mundo ama. Há homens gorduchos vestidos com inexplicáveis casacos vermelhos, que devem ter sido bastante úteis na última glaciação, mas, que se afiguram completamente desprovidos de sentido no verão escaldante destas paragens tupiniquins. E há ainda as mobilizações sociais para arrecadação de donativos a serem distribuídos para grupos menos favorecidos, que, muito provavelmente, só são lembrados nesta época do ano.

De outro lado, há sempre um grupo ávido pela discórdia, pronto para estragar o prazer alheio, insistindo em propagar que tudo isso é vão e que a verdadeira razão de ser do Natal é celebrar o nascimento de Jesus Cristo (que nasceu 7 anos a. C.!) e que todo o mais não passa de armadilha do Demônio do Capitalismo, filho mais velho de Satanás, que insiste em desvirtuar pessoas de bem do Verdadeiro Caminho (assim mesmo, com letra maiúscula, em sinal de reverência ao caminho – na verdade um desfiladeiro – que supõem ser a única opção válida). São os crentes! Os filhos de Deus! E faço questão de deixar claro que o termo “crente” aqui está tomado na sua acepção mais ampla, não se confundindo com “evangélico”, “religioso”, “cristão” ou qualquer outra designação restritiva de fé. É um clichê, mas para evitar comprar uma briga desnecessária com grupos que apregoam o politicamente correto, explicito aqui o conceito: crente é quem crê, é sinônimo de crédulo. Melhor assim.

Hoje, há poucas horas atrás, em conversa com uma amiga crédula, declarei-me ateu e ouvi a pergunta “por qual razão você é ateu?”. Antes de responder, por se tratar de um diálogo com uma pessoa com quem possuo um mínimo de intimidade e nutro um mínimo de estima, senti-me à vontade para brincar, munindo-me de uma suposta intolerância ateísta (que, aliás, também não me agrada em nada, porque qualquer forma de fundamentalismo me preocupa), revidei, num fingido tom agressivo: “por qual razão você crê? Ou melhor, por que você crê? Porque quem crê já não tem razão!”. Rimos da guerra ideológica e encerramos a contenda ali mesmo, com ambas as perguntas deixadas sem resposta.

Mas, confesso que, como ateu declarado há pelo menos 15 anos, começo a achar que são clichês as mesmas perguntas tantas vezes repetidas por mim e pelos meus pares como “porque crer?”, mas, ainda assim, não consigo deixar de fazê-las! E uma das coisas que mais me intriga na fé cega (que é realmente uma faca amolada) é quando eu escuto que “Deus é bom”.

Este raciocínio me atormentou durante um bom tempo, quando, anos atrás, assistindo ao desenho animado “O Príncipe do Egito”, cheguei a uma conclusão: “Deus é um terrorista!”, exclamei em um volume alto o suficiente para deixar minha irmã evangélica e minha mãe horrorizadas com a heresia proferida.

Em um excelente conceito extraído da Wikipedia, terrorismo é o uso de violência, física ou psicológica, através de ataques localizados a elementos ou instalações de um governo ou da população governada, de modo a incutir medo, terror, e assim obter efeitos psicológicos que ultrapassem largamente o círculo das vítimas, incluindo, antes, o resto da população do território. Trata-se de uma forma de coação das aglomerações sociais para se colocar em prática aquilo que se quer propagar, seja de cunho religioso, político, étnico, ou qualquer outra forma de ideologia, normalmente incutindo o pânico nas pessoas inocentes, para que os grupos que detém o poder possam realizar a vontade do grupo que pratica o terror.

Assim, como exemplo de terrorista, posso citar o grupo separatista Euskadi Ta Askatasuna (ou simplesmente ETA, sigla para “Pátria Basca e Liberdade”, no idioma basco) que, visando ao seu desmembramento do restante da Espanha com a criação de um país basco, desde 1959 vem pressionando o governo espanhol através de luta armada e ataques a civis. Da mesma forma, as Forças Armadas Revolucionárias da Colômbia, as FARC, que, visando à implantação do sistema socialista na Colômbia, pressionam o governo, através de sequestros e homicídios. E o que dizer da Al-Qaeda, grupo fundamentalista islâmico, liderado por Osama Bin Laden, que, em combate ao imperialismo norte-americano, deixou boquiaberto o mundo ao lançar aviões sobre o World Trade Center, causando a morte de pessoas inocentes, que sequer tinham relações com o governo dos Estados Unidos!

É comum vermos toda a gente horrorizada com tais práticas, perguntando-se como é possível que tantos inocentes paguem pelos atos dos grupos terroristas que, pretendendo mobilizar governos, atacam-nos, mesmo que com eles sequer guardem relações!

Trata-se de uma prática antiga. Muito antiga. Em minha palavra de leigo, tenho como o mais antigo registro de terrorismo o livro do Êxodo, capítulo 3, versículos 19 e 20, que assim narrou: “Eu sei que o rei do Egito não os deixará sair, a não ser que uma poderosa mão o force. Por isso estenderei a minha mão e ferirei os egípcios com todas as maravilhas que realizarei no meio deles. Depois disso ele os deixará sair.”

Segundo a Mitologia Bíblica, ninguém mais que o próprio Deus, o mesmo que lá em cima me disseram que era bom, escolheu o povo hebreu como herdeiro da Terra Prometida de Canaã, ordenando a Moisés que convencesse o faraó a libertá-lo, eis que se encontrava escravizado no Egito. Quando Moisés perguntou como faria para convencer o faraó, com a naturalidade de quem responde as horas, Jeová teria respondido que causaria feridas aos egípcios e que isto o convenceria.

E assim, vieram as Dez Pragas do Egito, que culminaram na morte dos primogênitos descrita em Êxodo 12:29-30: “Então, à meia-noite, o Senhor matou todos os primogênitos do Egito, desde o filho mais velho do faraó, herdeiro do trono, até o filho mais velho do prisioneiro que estava no calabouço, e também todas as primeiras crias do gado. No meio da noite o faraó, todos os seus conselheiros e todos os egípcios se levantaram. E houve grande pranto no Egito, pois não havia casa que não tivesse um morto.”

A pergunta que nunca deixo de fazer é a de que se Deus é onipotente, não seria mais prático mudar a opinião do faraó, poupando a vida do “filho mais velho do prisioneiro que estava no calabouço”, que nada tinha a ver com a dominação dos hebreus? Ou, sem adentrar o mérito de sua questionável bondade e benevolência, e toda a ausência de lógica daí decorrente, se Yahweh precisava tanto satisfazer sua sanha assassina, porque não matar apenas o faraó? Ou apenas o seu filho mais velho? Para que levar “grande pranto” ao Egito?

Honestamente, se vejo alguma diferença entre o terrorismo de Alfonso Cano, Osama Bin Laden e Gilmar António e o de Javé é porque este último, supostamente onipotente, poderia dispor de outras estratégias para alcançar seu objetivo maior e se delas não fez uso, tal fato somente se explica por um prazer mórbido na destruição e na dor alheia.

Recentemente o ETA anunciou o fim da guerrilha, partindo para o diálogo e a diplomacia. As FARC não chegaram ao mesmo nível de civilidade, mas negociaram a libertação de vários prisioneiros, demonstrando certa relativização de seus métodos, ainda que sutil. Enquanto isso, para o futuro, o profeta João Batista nos diz, em Apocalipse 14:18-19: “Declaro a todos os que ouvem as palavras da profecia deste livro: Se alguém lhe acrescentar algo, Deus lhe acrescentará as pragas descritas neste livro. Se alguém tirar alguma palavra deste livro de profecia, Deus tirará dele a sua parte na árvore da vida e na cidade santa, que são descritas neste livro.”

Parece-me que a vingança será sempre a primeira opção para a Yhwh. E diante disto tudo, continuo seguindo meus passos de ateu, perguntando “qual a razão de crer?”, ou melhor, “porque crer?”

Porque quem crê, se o faz, é porque há muito já perdeu sua razão!