"- Eu morrerei, mas todos vocês irão comigo!
- O quê? Como?
- Eu vou mostrar a vocês agora!"
tchan-tchan-tcha-ran-ran...
E assim, termina a ópera de Carlos Gomes, baseada no libreto de Antônio Scalvini, deixando no ar de uma plateia exausta a pergunta "mas como ele matou a todos junto consigo próprio?".
Quem teve a ideia de montar Il Guarany, sob a forma de concerto, não foi muito feliz na escolha de um trabalho excessivamente visual, repleto de elementos cênicos, como esta ópera, que se divide em quatro atos, e tem como cenário um castelo, uma gruta, uma aldeia, um porão, um quarto, uma floresta, dentre outros. Não posso me considerar um expert em óperas, tendo visto um total de seis, sendo três encenadas, e três em forma de concerto, cada qual com seus prós e seus contras, não cabendo aqui um aprofundamento da natureza de cada uma das montagens.
Mas uma coisa em comum que percebi nas óperas-concerto a que eu já assisti é que, em todas, o desenrolar da história basta-se a si mesmo para deixar claro ao espectador tudo o que acontece em cena, bastando um pouco de imaginação para se construir mentalmente o pano de fundo para a trama. Assim foi em "A Voz Humana", de Francis Poulenc, cuja simplicidade de um diálogo ao telefone, do qual apenas um interlocutor é ouvido, demonstra por si só todo o desespero da amante abandonada, bem como em "Uma Tragédia Florentina", de Alexander von Zemlinsky, na qual uma relação de adultério resulta no assassinato do amante Guido, encerrada na hipocrisia da adúltera e no cinismo do marido traído, no diálogo final: "- Porque nunca me disseste que eras tão forte?" "- E tu, porque nunca me disseste que eras tão bela?".
Não quero aqui criticar a ópera em si do Carlos Gomes, mesmo porque gosto muitíssimo da linha melódica das composições, com o coro agressivo, e uma percussão marcante, que transmite com precisão a tensão constante do enredo, repleto de traições e guerras.
O que questiono, no entanto, é a escolha desta ópera para ser montada sob a forma de concerto, quando seu libreto é composto, de tal modo que muitos acontecimentos e locações não são expressamente demonstrados nos diálogos, mas em gestos dos personagens, ou na mudança dos cenários.
Desta maneira, quem não tem um conhecimento prévio do livro de José de Alencar, ou mesmo da ópera, e não sabe que Don Antônio, quando permite ao índio Peri que salve sua filha Cecília do ataque dos Aimorés à fortaleza, sacrifica-se explodindo o local, matando consigo os seus inimigos, sai do espetáculo com a sensação de que assistiu a uma história sem final!
Assim também, no segundo ato, quando Cecília encontra-se em seus aposentos e, após entoar uma canção de amor, pensando no seu amado Peri, adormece, surgindo em cena, de forma misteriosa, o antagonista Gonzales, não fica claro que o mesmo invadiu o local pela janela, vez que esta invasão é silenciosa e não aludida na fala do vilão, até o momento em que aquela acorda e, assustada, pergunta-lhe como ele teria adentrado ali. Ato contínuo, surge Don Álvaro, seu pretendente escolhido por seu pai, surgem os aventureiros invadindo a casa, surge Don Antônio e surge Peri. Como se não bastasse a total ausência de privacidade para o quarto de uma virgem do século XVI, o fim da cena ainda traz a invasão pelos Aimorés. Nenhum problema para quem enxerga a cena tal qual acontece. Mas para quem apenas ouve os solistas, o coro e a orquestra, fica a impressão de que o quarto de Cecília nada mais é do que um saco de dormir no meio da floresta, onde já estão todos os demais personagens mencionados. Uma bagunça!
A impressão que me causou é de que quem selecionou Il Guarany para esta temporada - não sei ao certo se esta responsabilidade é da Presidente da Fundação
Theatro Municipal, Carla Camurati, razão pela qual prefiro manter a acusação genérica - partiu do pressuposto de que o espectador que quer assistir a esta ópera, só vai porque já a conhece. Não lhe passou pela cabeça o pensamento de que um espectador curioso quer ver Il Guarani, justamente por não conhecer qualquer composição de Carlos Gomes, e vai ao Theatro Municipal, exatamente visando à formação de uma opinião ainda inexistente?
Deixando de lado esta discussão, cabe ainda salientar o desrespeito com o público - que além de dever conhecer previamente ao que vai assistir, tem que saber falar italiano fluentemente, uma vez que o primeiro ato inteiro foi exibido sem projeções de legenda, e esta ao longo dos demais atos, apresentou momentos de falhas. Não sou tão exigente a ponto de não aceitar a plausibilidade da ocorrência de falhas, a que todos estão sujeitos, mas acredito que o mínimo de respeito ao consumidor que pagou um valor não tão "simbólico" exigia a prestação de uma satisfação quando da entrada ao Theatro, sendo-lhe informado imediatamente acerca da ausência de legendas durante todo o primeiro ato, e sendo-lhe, ainda, conferido o poder de optar por assistir ao espetáculo ou obter o valor de seu ingresso de volta. Todavia, a solução apresentada beirou a ironia quando, ao final do terceiro sinal, depois que todos já estavam acomodados em seus lugares e as luzes já se encontravam apagadas, soou a gravação informando ao público sobre a deficiência na projeção de legendas, terminando de forma impositiva com um autoritário "esperamos a sua compreensão", revelando que você deve compreender ou então o problema é seu! E quem não compreendeu, como ficou? Tomo aqui as dores da plateia, como minhas, embora eu tivesse compreendido.
Mas por outro lado, depois de ver um copinho plástico civilizadamente depositado em um discreto cantinho da escada de acesso às galerias (eu quase pude ouvir a voz da pessoa que o deixou ali, sem nenhuma maldade, dizer "vou deixá-lo aqui no cantinho, não vai nem parecer sujeira, ninguém vai sequer notar"), sendo que todos os corredores do Theatro Municipal tem lixeiras, começo a me questionar se essa plateia é digna de que alguém lhe tome as dores e advogue por si.
Começo a ficar realmente assustado com o nível de quem tem frequentado o local e, cada vez mais, acho descabida a exigência de proibir bermudas, somente sendo permitido aos cavalheiros adentrar no recinto trajando calças. O copinho era a prova de que não é o comprimento de sua vestimenta que vai ditar a extensão de sua educação.
E a ópera? Melodias magníficas, um coral poderoso, sem nenhum adjetivo à altura. Belíssimos os solos do Marcello Vannucci e do Licio Bruno. O soprano Gabriella Pace fez uma entrada fabulosa, com um timbre cristalino, mas no decorrer do espetáculo, fui concordando com a opinião, que inicialmente não foi a minha, de que o alcance de sua voz deixou a desejar, restando sufocada em diversos momentos pela orquestra e demais solistas, sendo esta também a minha observação acerca do barítono Homero Velho.
Ao longo desta resenha de leigo que sou, expus tantas críticas negativas, o que pode parecer aos desavisados que me arrependi de ter saído de casa para o Theatro Municipal, razão pela qual faço questão de esclarecer que não foi o caso. Apesar dos contras, num balanço geral, saí satisfeito. Ainda escuto as notas do Prelúdio do Terceiro Ato, do Coro dos Aimorés (Aspra, crudel, terribile), da Canção do Ouro (L'oro è un ente si giocondo) e da Oração dos Aimorés (O Dio degli Aimorè), lindíssimas, ecoando em meus ouvidos e deixando-me emocionado.
Mas confesso que o tchan-tchan-tcha-ran-ran final da orquestra em lugar da explosão da fortaleza, após o suspense gerado pela promessa "Eu vou mostrar a vocês agora!" ficará registrado no meu anedotário particular, a cada vez que eu lembrar do semblante de decepção de, pelo menos, metade da público, que saiu de lá sem entender coisa alguma, acreditando que alguma cena foi cortada indevidamente.
domingo, 27 de junho de 2010
terça-feira, 22 de junho de 2010
Balada do Desencontro
Balada do Desencontro
Corre a Lua, que descansa
perdida, entre astros, n'algum ponto cardeal do planisfério....
Mas as noites não tem sido mais tão frias
Amaldiçoando o avanço das tecnologias,
todas as fibras óticas e sinais de rádio,
todos os satélites e ondas eletromagnéticas,
todas as mensagens criptografadas que viajam no espaço –
E que, tendo visto a Lua cerrar os olhos e adormecer,
languidamente, sob a linha do horizonte,
devem ter feito a cama sobre uma nuvem
e repousado a cabeça sobre um meteorito, tornado em travesseiro,
não alcançando pois, o seu destino –
Penso nos desencontros que me afastam o sono
(não obstante pese sobre os ombros
o acúmulo dos cansaços colecionados ao longo do dia,
e que nenhum abraço aliviou)
O ar, cada vez mais denso, não encontra os pulmões
pela trilha cerrada, qual mata virgem, das narinas.
Mas a mente passeia, e atravessa a ponte
tão leve, como já não é minha respiração.
E no instante em que, ao cruzar a rua, ao dobrar a esquina –
qualquer rua, qualquer esquina
(posto que em seu passeio noturno, meu pensamento
não divisa fronteiras, tampouco precisa caminhos),
em me veja de frente com o mar:
No verde que grita nos teus olhos,
no sal que verte por teus poros,
no abismo profundo da tua boca,
onde as línguas se agitam como ondas numa tempestade,
na força que choca meu corpo no teu,
Então, saberei que a busca está acabada.
Neste mar revolto, atracarei meu barco...
Poderei, finalmente – como a Lua – descansar
e aguardar os primeiros raios do Sol
a me aquecerem os pés.
Gustavo Carneiro de Oliveira,
madrugada de 22.06.2010
Corre a Lua, que descansa
perdida, entre astros, n'algum ponto cardeal do planisfério....
Mas as noites não tem sido mais tão frias
Amaldiçoando o avanço das tecnologias,
todas as fibras óticas e sinais de rádio,
todos os satélites e ondas eletromagnéticas,
todas as mensagens criptografadas que viajam no espaço –
E que, tendo visto a Lua cerrar os olhos e adormecer,
languidamente, sob a linha do horizonte,
devem ter feito a cama sobre uma nuvem
e repousado a cabeça sobre um meteorito, tornado em travesseiro,
não alcançando pois, o seu destino –
Penso nos desencontros que me afastam o sono
(não obstante pese sobre os ombros
o acúmulo dos cansaços colecionados ao longo do dia,
e que nenhum abraço aliviou)
O ar, cada vez mais denso, não encontra os pulmões
pela trilha cerrada, qual mata virgem, das narinas.
Mas a mente passeia, e atravessa a ponte
tão leve, como já não é minha respiração.
E no instante em que, ao cruzar a rua, ao dobrar a esquina –
qualquer rua, qualquer esquina
(posto que em seu passeio noturno, meu pensamento
não divisa fronteiras, tampouco precisa caminhos),
em me veja de frente com o mar:
No verde que grita nos teus olhos,
no sal que verte por teus poros,
no abismo profundo da tua boca,
onde as línguas se agitam como ondas numa tempestade,
na força que choca meu corpo no teu,
Então, saberei que a busca está acabada.
Neste mar revolto, atracarei meu barco...
Poderei, finalmente – como a Lua – descansar
e aguardar os primeiros raios do Sol
a me aquecerem os pés.
Gustavo Carneiro de Oliveira,
madrugada de 22.06.2010
sábado, 5 de junho de 2010
A Uma Tatuagem
(originalmente publicado em)
Itabuna, segunda-feira, 13 de outubro de 2003.
A Uma Tatuagem
Tenho-te em meus pés, Justiça!
Estou acima de ti
Não estás na cabeça
Ao contrário, estás quase no chão
Todavia, Justiça,
Mesmo estando tão baixo
Jamais irás cair!
Não te piso, não te esmago.
Antes, é contigo
Que sempre caminharei
Gustavo Carneiro de Oliveira
13.10.2003
Itabuna, segunda-feira, 13 de outubro de 2003.
A Uma Tatuagem
Tenho-te em meus pés, Justiça!
Estou acima de ti
Não estás na cabeça
Ao contrário, estás quase no chão
Todavia, Justiça,
Mesmo estando tão baixo
Jamais irás cair!
Não te piso, não te esmago.
Antes, é contigo
Que sempre caminharei
Gustavo Carneiro de Oliveira
13.10.2003
domingo, 30 de maio de 2010
A Música dos Grandes Mestres
Ainda nesta semana, conversando com uma amiga que não tem intimidade com a música erudita, disse-lhe que para quem quer começar a ir a concertos, não deve escolher qualquer obra, mas aquelas de mais fácil assimilação, como “As Quatro Estações”, de Vivaldi, “O Pequeno Serão Musical”, de Mozart, ou os concertos voltados ao público infanto-juvenil. Normalmente essas obras já são velhas conhecidas do grande público, que sem saber a origem de uma música, reconhece-a imediatamente por cenas do cotidiano, como “aquela da propaganda do sabonete Vinólia”.
Qual não foi minha surpresa ao saber que seria realizado pelo Projeto Aquarius, na Praia de Copacabana, gratuitamente, o espetáculo “A Música dos Grandes Mestres”, em celebração dos 70 anos da OSB – Orquestra Sinfônica Brasileira, um concerto repleto de ‘blockbusters’ da música clássica, ideal para todos os públicos, perfeito para aqueles que nunca foram a um concerto.
Programa ao ar livre é uma boa pedida. Apesar de a acústica do ambiente ficar um pouco prejudicada, a noite ajudou. O tempo deu uma trégua na chuva, e até uma lua cheia apareceu para iluminar a areia! E verdade seja dita, num evento como um concerto ao ar livre, a qualidade do som é coadjuvante. Emocionante mesmo é ver a multidão espalhada ao longo da orla, os vendedores ambulantes, parados, baixando suas mercadorias, hipnotizados, todos com os olhos voltados ao palco, é sentir o vento vindo do mar e, nos trechos mais baixos das execuções, ouvir em paralelo o barulho das ondas quebrando na praia...
Com um repertório impecável, abriu-se a noite com a “Abertura Festiva, op. 96”, de Shostakovich, bastante apropriada para a proposta do evento. Após arrancar uns aplausos tímidos da platéia, que parecia receosa de bater palmas, como se acreditando que, de cima do palco os músicos não pudessem escutar, a orquestra iniciou uma viagem no tempo através da música, com uma pincelada de cada movimento, passando pelo barroco, lindamente representado por um “Hallelujah”, de Haendel, com um belíssimo Coral do Theatro Municipal, que destacou os sopranos de forma impecável, seguida pelo primeiro movimento da “Primavera”, de Vivaldi e pela pungente “Ária, da Suíte nº 3”, de Bach e por um singelo coro com “Jesus Alegria dos Homens”.
Ao final desta a plateia finalmente reagiu à altura e os aplausos vieram mais efusivos. Daí por diante, passando pelo Classicismo, muitíssimo bem representado por um Mozart arrepiante no primeiro movimento da “Sinfonia nº 40” e absurdamente comovente com a arrebatadora execução da “Lacrimosa”, do Réquiem.
O baixo Savio Sperandio não pareceu empolgar os ouvintes, cantando a ária “O, Ísis e Osíris”, da ópera “A Flauta Mágica”, mas em compensação, após “O baile”, da “Sinfonia Fantástica”, de Berlioz, que deu início ao período do Romantismo, ficou muito claro que a noite foi do tenor Atalla Ayan, de dicção indefectível, que arrancou “bravos”, palmas e assovios ao final de uma “La Donna è Mobile” sem igual, seguida pela “Abertura” da ópera “Carmem” e da ária “O Mio Babino Caro”, que confesso – sem medo de parecer tiete – ter ouvido em total estado de êxtase, com a comovente voz do soprano Gabriella Pace.
Como nem tudo é perfeito, a violenta e arrebatadora “Cavalgada das Valquírias” teve como acompanhamento visual no telão ao fundo do palco, uma imagem tosca de um Pegasus estático, que não acrescentou coisa alguma à execução da orquestra. Mas para tudo há uma solução, e bastou que eu fechasse os olhos para apagar a imagem do cavalo e conseguir me concentrar na música, que me arrepiou do alto da cabeça ao dedão do pé, assim como o fez a “Abertura” de “O Guarani”.
Destaque para o momento em que a Rússia, o Rio e o Ceará dão-se as mãos, quando os bailarinos Ana Botafogo e Francisco Timbó dançam o “Pas de Deux”, do ballet “O Lago dos Cisnes”, de Tchaikovsky, deixando em silêncio a multidão que tentava fotografar e filmar de longe os rodopios, para deixar registrado aquele momento de tamanha delicadeza. O mesmo par de bailarinos retornaria ao palco durante a execução de “Canção de Amor”, de “A Floresta do Amazonas do brasileiríssimo Villa-Lobos, pelo mezzo-soprano Edinéia de Oliveira – que não é a minha mãe. Mas devo confessar que neste momento meus olhos registraram menos a dança do que o equívoco no telão, que exibia a legenda de outra música, a ”Melodia Sentimental”, a qual sequer foi cantada. Falha esta também sanada, quando se ouvem as primeiras notas do “Trenzinho do Caipira”, que deixaram boquiabertos o grande auditório ao ar livre que ali se instalara.
Se faltou a explosão que julgo necessária no crescendo do “Pássaro de Fogo”, do modernista Stravinsky, esta foi compensada com o grande clímax – e aqui confesso, sem nenhum pudor, a minha explícita tietagem – quando foi anunciado o abraço universal do “An Die Freude”, o magnífico coral da “9ª Sinfonia”, do Mestre dos mestres, Ludwig van Beethoven!
Impossível não registrar a lástima da heresia praticada, quando todos deveriam estar de joelhos, para dar a devida reverência a esta que, para muitos, é considerada um dos maiores momentos da criação humana – para mim, o maior – quando, ao final do contraponto, na pausa que antecede o solo do tenor, o público, julgando encerrada a melodia, aplaudiu, tornando visível o constrangimento do Maestro Roberto Minczuk, que ali ficou, imóvel durante alguns segundos, com os braços e batuta no ar, aguardando o cessar-fogo das palmas para que pudesse dar seguimento à regência do coro, que ainda teria mais uns dez minutos pela frente...
Coral encerrado, meus poucos pelos em pé, minha mente divagando perdida no estado de transe hipnótico, que me conduziu ao “teu santuário celeste”, quando ainda ecoavam em meus ouvidos os versos que fazem loas à “formosa centelha divina, Filha do Elíseo”, quando os músicos retornaram com o bis que não poderia ter sido mais apropriado: o brinde da ópera “La Traviata”, de Verdi, “Libiamo Ne' Leiti Calici”, que deixou bem distante a timidez para aplausos que a plateia havia demonstrado no início do espetáculo. E por último, encerrando-se a noite, a “Marcha Radetzky”, de Strauss, numa singular interatividade com a multidão, que acompanhava a orquestra com palmas, deixando explícito que a música erudita pode sim, ser mais popular do que se supõe!
Uma noite memorável, com aproximadamente duas horas da mais pura genialidade musical. A Orquestra Sinfônica Brasileira merecia mesmo uma festa de aniversário como esta! Parabéns OSB. Que venham outros 70 anos, trazendo sempre, como diria o grande Milton, o artista onde o povo está.
Qual não foi minha surpresa ao saber que seria realizado pelo Projeto Aquarius, na Praia de Copacabana, gratuitamente, o espetáculo “A Música dos Grandes Mestres”, em celebração dos 70 anos da OSB – Orquestra Sinfônica Brasileira, um concerto repleto de ‘blockbusters’ da música clássica, ideal para todos os públicos, perfeito para aqueles que nunca foram a um concerto.
Programa ao ar livre é uma boa pedida. Apesar de a acústica do ambiente ficar um pouco prejudicada, a noite ajudou. O tempo deu uma trégua na chuva, e até uma lua cheia apareceu para iluminar a areia! E verdade seja dita, num evento como um concerto ao ar livre, a qualidade do som é coadjuvante. Emocionante mesmo é ver a multidão espalhada ao longo da orla, os vendedores ambulantes, parados, baixando suas mercadorias, hipnotizados, todos com os olhos voltados ao palco, é sentir o vento vindo do mar e, nos trechos mais baixos das execuções, ouvir em paralelo o barulho das ondas quebrando na praia...
Com um repertório impecável, abriu-se a noite com a “Abertura Festiva, op. 96”, de Shostakovich, bastante apropriada para a proposta do evento. Após arrancar uns aplausos tímidos da platéia, que parecia receosa de bater palmas, como se acreditando que, de cima do palco os músicos não pudessem escutar, a orquestra iniciou uma viagem no tempo através da música, com uma pincelada de cada movimento, passando pelo barroco, lindamente representado por um “Hallelujah”, de Haendel, com um belíssimo Coral do Theatro Municipal, que destacou os sopranos de forma impecável, seguida pelo primeiro movimento da “Primavera”, de Vivaldi e pela pungente “Ária, da Suíte nº 3”, de Bach e por um singelo coro com “Jesus Alegria dos Homens”.
Ao final desta a plateia finalmente reagiu à altura e os aplausos vieram mais efusivos. Daí por diante, passando pelo Classicismo, muitíssimo bem representado por um Mozart arrepiante no primeiro movimento da “Sinfonia nº 40” e absurdamente comovente com a arrebatadora execução da “Lacrimosa”, do Réquiem.
O baixo Savio Sperandio não pareceu empolgar os ouvintes, cantando a ária “O, Ísis e Osíris”, da ópera “A Flauta Mágica”, mas em compensação, após “O baile”, da “Sinfonia Fantástica”, de Berlioz, que deu início ao período do Romantismo, ficou muito claro que a noite foi do tenor Atalla Ayan, de dicção indefectível, que arrancou “bravos”, palmas e assovios ao final de uma “La Donna è Mobile” sem igual, seguida pela “Abertura” da ópera “Carmem” e da ária “O Mio Babino Caro”, que confesso – sem medo de parecer tiete – ter ouvido em total estado de êxtase, com a comovente voz do soprano Gabriella Pace.
Como nem tudo é perfeito, a violenta e arrebatadora “Cavalgada das Valquírias” teve como acompanhamento visual no telão ao fundo do palco, uma imagem tosca de um Pegasus estático, que não acrescentou coisa alguma à execução da orquestra. Mas para tudo há uma solução, e bastou que eu fechasse os olhos para apagar a imagem do cavalo e conseguir me concentrar na música, que me arrepiou do alto da cabeça ao dedão do pé, assim como o fez a “Abertura” de “O Guarani”.
Destaque para o momento em que a Rússia, o Rio e o Ceará dão-se as mãos, quando os bailarinos Ana Botafogo e Francisco Timbó dançam o “Pas de Deux”, do ballet “O Lago dos Cisnes”, de Tchaikovsky, deixando em silêncio a multidão que tentava fotografar e filmar de longe os rodopios, para deixar registrado aquele momento de tamanha delicadeza. O mesmo par de bailarinos retornaria ao palco durante a execução de “Canção de Amor”, de “A Floresta do Amazonas do brasileiríssimo Villa-Lobos, pelo mezzo-soprano Edinéia de Oliveira – que não é a minha mãe. Mas devo confessar que neste momento meus olhos registraram menos a dança do que o equívoco no telão, que exibia a legenda de outra música, a ”Melodia Sentimental”, a qual sequer foi cantada. Falha esta também sanada, quando se ouvem as primeiras notas do “Trenzinho do Caipira”, que deixaram boquiabertos o grande auditório ao ar livre que ali se instalara.
Se faltou a explosão que julgo necessária no crescendo do “Pássaro de Fogo”, do modernista Stravinsky, esta foi compensada com o grande clímax – e aqui confesso, sem nenhum pudor, a minha explícita tietagem – quando foi anunciado o abraço universal do “An Die Freude”, o magnífico coral da “9ª Sinfonia”, do Mestre dos mestres, Ludwig van Beethoven!
Impossível não registrar a lástima da heresia praticada, quando todos deveriam estar de joelhos, para dar a devida reverência a esta que, para muitos, é considerada um dos maiores momentos da criação humana – para mim, o maior – quando, ao final do contraponto, na pausa que antecede o solo do tenor, o público, julgando encerrada a melodia, aplaudiu, tornando visível o constrangimento do Maestro Roberto Minczuk, que ali ficou, imóvel durante alguns segundos, com os braços e batuta no ar, aguardando o cessar-fogo das palmas para que pudesse dar seguimento à regência do coro, que ainda teria mais uns dez minutos pela frente...
Coral encerrado, meus poucos pelos em pé, minha mente divagando perdida no estado de transe hipnótico, que me conduziu ao “teu santuário celeste”, quando ainda ecoavam em meus ouvidos os versos que fazem loas à “formosa centelha divina, Filha do Elíseo”, quando os músicos retornaram com o bis que não poderia ter sido mais apropriado: o brinde da ópera “La Traviata”, de Verdi, “Libiamo Ne' Leiti Calici”, que deixou bem distante a timidez para aplausos que a plateia havia demonstrado no início do espetáculo. E por último, encerrando-se a noite, a “Marcha Radetzky”, de Strauss, numa singular interatividade com a multidão, que acompanhava a orquestra com palmas, deixando explícito que a música erudita pode sim, ser mais popular do que se supõe!
Uma noite memorável, com aproximadamente duas horas da mais pura genialidade musical. A Orquestra Sinfônica Brasileira merecia mesmo uma festa de aniversário como esta! Parabéns OSB. Que venham outros 70 anos, trazendo sempre, como diria o grande Milton, o artista onde o povo está.
sexta-feira, 21 de maio de 2010
Linha do Tempo
No princípio tudo era o Caos. Silêncio absoluto e uma azáfama nebulosa sem cores e contornos definidos. Então foi dada a ordem: “Fiat lux!”
Dia vinte e três de maio de mil novecentos e oitenta. O Brasil enfrentava o governo de João Batista Figueiredo, último estertor de uma ditadura moribunda que já durava mais de quinze anos. Ninguém sabia, mas dali a pouco menos de sete meses, John Lennon seria assassinado com um tiro à queima-roupa, disparado por Mark Chapman. Há quem duvide, mas a despeito de seu nascimento naquele ano, a criança não teria participação alguma no crime. Aliás, os anos posteriores revelariam que ele viria a gostar da música de John Lennon.
Dando seguimento à tragédia no meio musical, um mês depois, em janeiro de 1981, morreria a cantora Elis Regina, deixando órfãos seus admiradores, que lembrariam pelos próximos anos do seu temperamento irascível e de sua visceral interpretação da belíssima música do Chico Buarque, “Atrás da Porta”, em versão que veio a se tornar definitiva. Não há muito a ser dito acerca de uma criança de boca grande, que dava seus primeiros passos e tornava ainda mais espessos os lábios, quando, em sinal de protesto, fazia cara feia, armava bico e chorava para não ser fotografado.
Três anos depois, quando ainda não tinha completado cinco anos de idade, esta mesma criança deixaria estarrecida sua tia-madrinha, ao abrir um volume de um dicionário na letra “C”, decodificando letras e sílabas, formando, hesitante, as primeiras palavras lidas: cai-xa, cai-xão, cai-xi-nha, cai-xo-te... Esta proeza lhe renderia a sensação de que era o menino mais inteligente do mundo ao lhe proporcionar um salto em sua vida, levando-o do pré-escolar direto à primeira série, sem passar pela alfabetização. O Brasil mudava drasticamente e a campanha “Diretas Já”, conquanto não tivesse conseguido realizar seu intento de redemocratização nacional através de sufrágio universal popular, revelou-se tão influente que ajudou a pôr fim ao tenebroso período da Ditadura Militar, quando foi eleito de forma indireta o Presidente da República Tancredo Neves, que faleceu em 21 de abril de 1985, antes de ser empossado, fazendo subir ao poder seu vice José Sarney, mantendo a tradição de que sistema de governo do nosso país é o “vice presidencialismo”, o que seria confirmado anos mais tarde com a ascensão de Itamar Franco. Mas esta é outra história... Um mês após o falecimento de Tancredo, o menino receberia uma festa de aniversário de cinco anos que ficaria para sempre gravada em sua memória, não se sabe se pelos presentes recebidos ou se pela assustadora figura de uma cabeça de um palhaço como ornamento de seu bolo, seu primeiro contato com a decapitação.
Aconteceu no México naquele ano de 1986 a Copa do Mundo, marcada pela desastrosa campanha que tiraria o Brasil da jogada ao perder por pênaltis na quinta partida, após empate com a França. Mais interessante, porém, para o moleque de seis anos era o final do “Balão Mágico” e a estreia do “Xôu da Xuxa”, com novos desenhos animados e cenários modernos, que trariam a era do matriarcado para os programas infantis televisivos, inaugurando-se a dinastia da Rainha dos Baixinhos. O menino, entretanto, não contava com a frustração de, por estudar em turno matutino, estar impossibilitado de assistir à cerimônia de posse daquela que governaria absoluta a TV Globo nas manhãs dos próximos anos.
Assim iam-se embora os anos 80. Economicamente, sem deixar qualquer saudade, tendo um dos piores índices inflacionários de todos os tempos... Deixaria, no entanto, um gosto de nostalgia a quem tinha sido criança neste período turbulento, e que não tinha a preocupação de comprar carne a um preço pela manhã e vê-la dobrar de valor ao final do dia, e que teve o privilégio de crescer junto com as bandas de pop-rock, como Kid Abelha (na época, com os Abóboras Selvagens), Paralamas do Sucesso, Legião Urbana, dentre outras tantas.
O ano de 1989 teve grandes repercussões na política nacional e mundial. Na Europa, em novembro, foi derrubado o Muro de Berlin, símbolo maior da Guerra Fria, unificando-se as duas Alemanhas, deixando uma União Soviética agonizante, que viria a decair finalmente com a renúncia de Mikhail Gorbatchev, em 31 de dezembro de 1991.
No Brasil, o cenário político também foi marcado pela evolução da tão sonhada Democracia, consolidada (?) em outubro de 1988, quando entrou em vigor a Constituição Federal, que conferiu ao povo a titularidade de todo o Poder.
Se a voz do povo é a voz de Deus, as eleições de 1989, apenas seis dias depois da queda do Muro no outro lado do planeta, demonstraram que Deus até pode ser brasileiro, mas com absoluta certeza, não é patriota. Eleito na votação do segundo turno, o Presidente Fernando Collor implantaria o famigerado plano econômico que levou seu nome, suprimindo os sonhos – com o perdão do trocadilho – depositados nas contas bancárias confiscadas por todo o país. As mudanças vinham numa torrente e a TV, que pouco antes sofria a censura imposta pela não esquecida Ditadura, exibia agora os seios da Isadora Ribeiro, que girava como uma serpente na abertura da novela “Tieta”, em pleno horário nobre. As rádios de todo o país tocavam de forma incessante as lambadas, músicas de gosto totalmente duvidoso, e quando, aos nove anos, embarcou para a Bahia, dando adeus à sua querida Linhares, sem ter a menor ideia do significado de palavras como “Socialismo”, “Democracia”, “União Soviética” e “Plano econômico”, ele sabia – desnecessariamente – quem era Kaoma.
Aquele ano em Camacã passaria sem revelar muito a que viera, deixando nele um sentimento de vazio que sua pouca idade não lhe permitia compreender. Ele tinha, então, dez anos e pouco se importava com a derrota do Brasil para sus hermanos argentinos, na Copa do Mundo, tampouco com a Guerra do Golfo, que devastava o Oriente Médio e trazia à população menos informada os temores de que eclodisse uma terceira Grande Guerra Mundial... Para ele, tudo que sobrara era a saudade, sentimento que também não conhecia plenamente, mas que, com o tempo, veio a aprender que doía. Sem olhar para o futuro, ele pensava na vida que deixara atrás de si, no seu distante Espírito Santo. Ele não contava que, no mesmo dia em que as tropas iraquianas eram bombardeadas no Kuwait, embarcaria para um lugar ainda mais assustador...
Valença se revelaria uma agradável surpresa aos olhos, com seus casarios antigos e construções históricas, com as quais ele jamais tivera contato anteriormente, tendo vivido somente em cidades recém emancipadas. Mas, assim como os olhos que se acostumam ao breu roubam daquele que enxerga o medo da escuridão, o encanto inicial não durou mais que uns poucos dias, fugindo tão logo as paisagens ao redor se tornaram corriqueiras. Desta forma, a dura realidade apresentou-se e ele passaria a detestar aquele lugar.
Como parecia sina, o panorama político no Brasil continuava instável, mas os ânimos jovens, repletos do entusiasmo pela conquista de uma Democracia que ainda engatinhava, destituía em 1992 – mesmo ano que os meninos do vôlei subiram ao pódio com o ouro nas Olimpíadas de Barcelona – o Presidente Collor, que seria substituído pelo seu vice Itamar Franco.
Sua vida mudava e chegava ao final o seu período ginasial, que já lhe revelara de maneira irrevogável o quanto ele não era o garoto mais inteligente do mundo, conforme acreditara naquela tarde que já ia tão longe, quando abrira o dicionário na letra “C”...
Começava o ano de 1994 e, aos treze anos, ele percebia que o mundo à sua volta estava girando, mas não em torno de si. E nem mesmo a estabilidade econômica, trazida ao país com o advento do Plano Real, concebido pelo então Ministro da Fazenda, Fernando Henrique Cardoso, em 1º de julho, nem mesmo a conquista do tetracampeonato pelo Brasil, quando o italiano Baggio perdeu o pênalti na Copa, foram suficientes para preencher o vazio que o atormentava e que o faria pra sempre desejar apagar de sua lembranças aquele ano em que quase perdera a vida, o que não conseguiria. Apagaria, entretanto, os posteriores, transformando sua adolescência numa folha em branco sobre a qual nenhuma palavra interessante seria impressa, antes de ser amassada e atirada no lixo.
Corriam rápido os anos 90, e neste contexto a Internet se popularizava, ressurgiam as boy bands, trazendo histeria às menininhas que pouco antes trocavam figurinhas metalizadas nos pátios das escolas e àquelas que ainda as colecionavam, o Chefe de Estado conquistava o direito à reeleição, deixando tensos alguns constitucionalistas, um grave acidente automobilístico vitimava a Princesa Diana, a comunidade científica olhava, estarrecida, a pequena ovelha clonada, Dolly, mas nada o tirava do torpor em que se inserira, consequência do exílio dentro de si mesmo após a malfadada tentativa de cruzar a fronteira da vida.
Lentamente, aos 19 anos, cuidava para reaprender a importância do convívio com seus pares e, do ano de 1999, ficaria a memória dos domingos na praia, dos churrascos entre amigos e dos sonhos com a nova etapa, que se aproximava inexoravelmente: o ingresso na vida acadêmica. O mundo não acabou quando os fogos no Morro de São Paulo estouraram, anunciando o começo do ano 2000. Antes, para ele, apenas iniciava, muito embora não soubesse disso... Em março ele partia rumo ao novo, tendo a chance de anular o passado de si mesmo, numa cidade diferente, a qual – e na qual – ele finalmente aprenderia a amar. Um processo turbulento de quebras, retomadas e reavaliações... Da peculiar experiência culinária de cozinhar miojo ao fogo de velas, do susto ao ver na TV de uma amiga – pois em sua casa não tinha televisão – a audácia dos terroristas, que pararam o mundo ao reduzir a escombros o maior símbolo do poder econômico dos Estados Unidos, da percepção de que dependia de outros para encontrar um sentido para si e da tristeza que sentiu quando, perdendo o outro, não se apercebeu de si mesmo como um inteiro, dos pileques astronômicos e de todas as músicas que inserira em seu cd player, da redescoberta de que podia sorrir mesmo quando deixou para trás o cargo que lhe garantia um excelente salário, trocando-o pela Utopia – que os anos posteriores lhe mostrariam que viria a ruir...
Em 2006 um longo caminho o conduziu ao limiar da sanidade mental quando, ao final do seu curso de Direito, percebeu que um diploma não lhe teria qualquer serventia e que todas as vicissitudes superadas para que chegasse àquele apogeu eram nada quando teve de dar adeus à Pedra Negra, com lágrimas nos olhos e a alma destroçada pela certeza de que encontrara seu fim. Mas ele estava enganado e quando recebeu a paulada que o jogou de rosto no asfalto, poucos dias depois de uma criança ter sido morta de forma brutal, arrastada pelo cinto de segurança em um bairro do Rio de Janeiro, ele teria a chance de tentar outra vez, e bem perto deste asfalto – não aquele em que machucara seu rosto no Carnaval de 2007, mas este em que o menino João Hélio perdeu a vida... Onde começaria a sua...
* * *
Hoje faz três anos que cheguei a esta cidade, e o mundo continua mudando. Todavia, de forma lamentável, parecem me assaltar com maior assiduidade as más notícias em detrimento das boas... Deslizamentos de encostas no Rio, enchentes em Santa Catarina, avião caindo em Congonhas, avião caindo no meio do Atlântico, a caminho da França, terremoto no Haiti, no Chile, na Itália, vazamento de petróleo no Golfo do México...
Não obstante tudo isso, posso afirmar – como raríssimas vezes pude com a mesma convicção que hoje tenho – que estou feliz.
Descobri que tudo tem seu preço e que, se tantas vezes me senti desiludido, frustrado e desesperançoso quanto aos meus dias, agora sei que estas foram as moedas com as quais barganhei os que agora tenho, e que me fazem sorrir com uma frequência que eu jamais supus que poderia.
Hoje celebro uma vida de três décadas e nos últimos três anos, apenas um décimo de toda a trajetória, já mudei várias vezes o curso da estrada e, numa parada, saí do limbo de quem sequer era estagiário, tornando-me advogado; noutra estação, voltei a respirar o ar que meu nariz insistia em não absorver; em uma curva, deixei o desespero do desemprego para a tranquilidade de pagar minhas próprias contas no final do mês; e mais adiante, percebi que posso caminhar com as próprias pernas, após ter acreditado que eu deveria ser carregado...
As metamorfoses não acabam aqui e apenas me resta esperar o que os próximos anos me reservam. Ou não. O que sei, no entanto, é que cada passo dado, conquanto fruto do meu esforço, não teria sido possível, não fosse a presença de cada um com quem cruzei ao longo do trajeto, e que seguiu adiante, ao meu lado, dando-me força e determinação para levantar o pé quando a dormência e as dores faziam-no pesar.
Por isso, agradeço a todos. Todos os que, de alguma forma, impeliram-me à frente, participando e constituindo o evento maior – que é o próprio ato de existir – e fazendo deste, não um fardo que eu tivesse que transportar sozinho, mas permitindo tornar mais leve o peso sobre meus ombros. Meu sincero obrigado.
E ele viu que a luz era boa e regozijou-se de sua obra...
terça-feira, 27 de abril de 2010
Viola Urbana
(originalmente publicado em)
Rio de Janeiro, quinta-feira, 20 de agosto de 2009.
Sempre fui garoto de cidade, adepto a shopping centers e boates, acostumado a buzinas e sirenes. Embora tenha vivido a maior parte da minha vida em cidades pequenas, ainda assim eram cidades. E onde nasci não era muito diferente. Cidade bonita, ruas largas, carros passando, a BR 101 cortando tudo pelo meio, ônibus cheios, notícias de violência... Mas ali era uma cidade nova. Recém emancipada, e com pontos de infraestrutura ainda em construção... Isso fazia com que em algumas centenas de metros após o "centrão", podíamos visualizar algumas ruas sem calçamento, algumas casas de madeira, com cerquinhas. Do interior dessas casinhas, via-se a autoestrada, onde os carros passavam em ritmos loucos, e esse contraste era bonito. Lembro que nos domingos de manhã, minha mãe levava a mim e a minhas irmãs para uma dessas casinhas, construídas com tábua, de assoalho muito bem polido, e cortinas de chita com estampas de flores, demonstrando um gosto extremamente duvidoso da proprietária, a minha avó. Eu acordava resmungando, pois, estudante do turno matutino, achava o sábado e o domingo um tempo exíguo demais para ser retirado da cama cedo. Nunca soube o que era acordar na roça e tomar um leite fresquinho, ainda morno, da vaca ordenhada minutos antes. Mas, talvez por respirar o ar de um passado não muito distante, quando todas aquelas ruas pavimentadas de Linhares ainda eram caminhos talhados a facão, aqueles domingos de manhã na casa da minha avó tinham um gostinho especial de fazenda. O café, cujo pó era comprado na padaria (que ficava duas ruas além, onde já havia calçamento e passavam carros), cheirava forte, e o bolinho de chuva, ou mesmo o improvisado "engasga-gato", como chamávamos uma mistura de ovo, farinha de trigo e açúcar, frito em óleo bem quente, que só a minha avó sabia fazer, abria o nosso apetite (meu, das minhas irmãs e dos primos que também se reuniam por ali). Algumas vezes, a TV era ligada, com a criançada ansiosa esperando por algum desenho animado, e frustrada por ver bois e cabras e milharais em alguma edição do "Globo Rural"... Esse menino virou gente grande e decidiu viver em uma metrópole, devendo-se repetir, entretanto, que jamais viveu em zona rural. Mas sempre sentiu um tipo de nostalgia esquisita quando ouvia uma violinha bem tocada. Nessas horas minha mente viajava no tempo, e por mais que eu tentasse lembrar de um dia acordando em um recinto caipira, não conseguia. E então, a saudade aumenta, fica dolorida, porque é fácil sentir saudade do que se viveu, e ter a lembrança de um momento que realmente fez parte de sua vida. Mas saudade do que nunca se teve é difícil administrar, porque a gente tem que fantasiar, inclusive o sentimento que teria se tivesse sido!
Dispensando as descrições objetivas, limito-me às emoções. E o que posso dizer de um show, com gosto de bolinho de chuva e café forte coado em pano de prato? O que dizer de uma apresentação que me fez esquecer que eu estava em plena Zona Sul carioca, remetendo-me àquela roça em que nunca morei e que talvez tenha ficado gravada na minha memória somente por causa do Globo Rural visto na TV?
Momentos marcantes, melodias intensas, público empolgado... Não sou crítico de música, e sequer toco qualquer instrumento, tampouco violão. Assim, não me sinto gabaritado para falar nada da técnica. Mas sou emotivo, e posso bem falar sobre os sentimentos de saudade trazidos com as melodias dedillhadas pelo maestro, como a linda citação aos Beatles, mediante os curtos acordes de "Norwegian Wood", que sempre conseguem me arrepiar!
Posso falar sobre as notinhas desafinadas da Nair de Cândia, que embora (ou talvez por isso mesmo) fora do tom, conseguiram me fazer viajar por caminhos remotos, que terminavam sempre em uma grande porteira, com acesso a sabe-se lá que paragens! E mesmo caminhando cada vez mais para longe das igrejas, a presença da Ave Maria Bethânia, fez com eu me sentisse pequeno, naquele momento de reverência e sobriedade para o qual não há palavras que descrevam. O mesmo para toda a Bahia trazida na cuia de um berimbau!
Foi um show que deveria ter acontecido! E para quem não o viu, só lamento!
Mas, marcante mesmo foi a senhorinha, ao ver durante os aplausos, Maria Bethânia já com roupinha de casa (e seu tradicional coque no cabelo), calçando um sapatinho vermelho, sair estarrecida nos corredores do Oi Casa Grande gritando em alto e bom tom: "Ainda bem que eu vivi para ver Maria Bethânia entrar no palco calçada. Agora já vi de tudo!". De fato, quem viu, viu.
Rio de Janeiro, quinta-feira, 20 de agosto de 2009.
Sempre fui garoto de cidade, adepto a shopping centers e boates, acostumado a buzinas e sirenes. Embora tenha vivido a maior parte da minha vida em cidades pequenas, ainda assim eram cidades. E onde nasci não era muito diferente. Cidade bonita, ruas largas, carros passando, a BR 101 cortando tudo pelo meio, ônibus cheios, notícias de violência... Mas ali era uma cidade nova. Recém emancipada, e com pontos de infraestrutura ainda em construção... Isso fazia com que em algumas centenas de metros após o "centrão", podíamos visualizar algumas ruas sem calçamento, algumas casas de madeira, com cerquinhas. Do interior dessas casinhas, via-se a autoestrada, onde os carros passavam em ritmos loucos, e esse contraste era bonito. Lembro que nos domingos de manhã, minha mãe levava a mim e a minhas irmãs para uma dessas casinhas, construídas com tábua, de assoalho muito bem polido, e cortinas de chita com estampas de flores, demonstrando um gosto extremamente duvidoso da proprietária, a minha avó. Eu acordava resmungando, pois, estudante do turno matutino, achava o sábado e o domingo um tempo exíguo demais para ser retirado da cama cedo. Nunca soube o que era acordar na roça e tomar um leite fresquinho, ainda morno, da vaca ordenhada minutos antes. Mas, talvez por respirar o ar de um passado não muito distante, quando todas aquelas ruas pavimentadas de Linhares ainda eram caminhos talhados a facão, aqueles domingos de manhã na casa da minha avó tinham um gostinho especial de fazenda. O café, cujo pó era comprado na padaria (que ficava duas ruas além, onde já havia calçamento e passavam carros), cheirava forte, e o bolinho de chuva, ou mesmo o improvisado "engasga-gato", como chamávamos uma mistura de ovo, farinha de trigo e açúcar, frito em óleo bem quente, que só a minha avó sabia fazer, abria o nosso apetite (meu, das minhas irmãs e dos primos que também se reuniam por ali). Algumas vezes, a TV era ligada, com a criançada ansiosa esperando por algum desenho animado, e frustrada por ver bois e cabras e milharais em alguma edição do "Globo Rural"... Esse menino virou gente grande e decidiu viver em uma metrópole, devendo-se repetir, entretanto, que jamais viveu em zona rural. Mas sempre sentiu um tipo de nostalgia esquisita quando ouvia uma violinha bem tocada. Nessas horas minha mente viajava no tempo, e por mais que eu tentasse lembrar de um dia acordando em um recinto caipira, não conseguia. E então, a saudade aumenta, fica dolorida, porque é fácil sentir saudade do que se viveu, e ter a lembrança de um momento que realmente fez parte de sua vida. Mas saudade do que nunca se teve é difícil administrar, porque a gente tem que fantasiar, inclusive o sentimento que teria se tivesse sido!
Dispensando as descrições objetivas, limito-me às emoções. E o que posso dizer de um show, com gosto de bolinho de chuva e café forte coado em pano de prato? O que dizer de uma apresentação que me fez esquecer que eu estava em plena Zona Sul carioca, remetendo-me àquela roça em que nunca morei e que talvez tenha ficado gravada na minha memória somente por causa do Globo Rural visto na TV?
Momentos marcantes, melodias intensas, público empolgado... Não sou crítico de música, e sequer toco qualquer instrumento, tampouco violão. Assim, não me sinto gabaritado para falar nada da técnica. Mas sou emotivo, e posso bem falar sobre os sentimentos de saudade trazidos com as melodias dedillhadas pelo maestro, como a linda citação aos Beatles, mediante os curtos acordes de "Norwegian Wood", que sempre conseguem me arrepiar!
Posso falar sobre as notinhas desafinadas da Nair de Cândia, que embora (ou talvez por isso mesmo) fora do tom, conseguiram me fazer viajar por caminhos remotos, que terminavam sempre em uma grande porteira, com acesso a sabe-se lá que paragens! E mesmo caminhando cada vez mais para longe das igrejas, a presença da Ave Maria Bethânia, fez com eu me sentisse pequeno, naquele momento de reverência e sobriedade para o qual não há palavras que descrevam. O mesmo para toda a Bahia trazida na cuia de um berimbau!
Foi um show que deveria ter acontecido! E para quem não o viu, só lamento!
Mas, marcante mesmo foi a senhorinha, ao ver durante os aplausos, Maria Bethânia já com roupinha de casa (e seu tradicional coque no cabelo), calçando um sapatinho vermelho, sair estarrecida nos corredores do Oi Casa Grande gritando em alto e bom tom: "Ainda bem que eu vivi para ver Maria Bethânia entrar no palco calçada. Agora já vi de tudo!". De fato, quem viu, viu.
domingo, 25 de abril de 2010
"Palhaço é um homem todo pintado de piadas"
Num comentário fingidamente ofendido, o Anitelli refere-se a uma crítica da Revista Veja, categorizando a banda como filão do público dos Los Hermanos, e suas músicas como bregas, em especial "Ana e o Mar". Contra este argumento, eis o fato de que a plateia estava no Teatro Carlos Gomes ontem à noite para aproveitar o show e não para ler Veja... Aliás, quantos palcos a Revista Veja ganhou neste Viradão Carioca mesmo?
Um show histórico para o admiradores destes músicos, que revista nenhuma conseguirá ter palavras para descrever! O primeiro show do projeto Fernando Anitelli Trio, o que me fez sentir ainda mais honrado de ser um seguidor da trupe do Teatro Mágico. E após este show, percebi (e perdoei) a razão de nunca ter ouvido em seus anteriores "A Pedra Mais Alta", de longe a minha favorita, o que foi recompensado com a linda interpretação, que contou com o incidental "Shimbalaiê", levando os fãs (inclusive eu) ao delírio! A proposta do Fernando Anitelli Trio é trazer à tona as músicas mais lentas, instrospectivas, delicadas, tendo o Anitelli deixado claro que não se trata de um "Teatro Mágico Acústico", mas de um projeto novo que, em breve contará com um álbum gravado (tenho certeza de a ansiedade para vê-lo sair do forno, fresquinho, não é somente minha).
Confesso que ver o Anitelli sem máscara me surpreendeu um pouco. Foi um choque constatar que ele não nasceu pintado e com nariz vermelho. E confesso ainda que fui ao show com boas expectativas, mas não as melhores, tendo em vista estar habituado às pessoas "cuspindo fogo, pegando fogo e de fogo" nos palcos do Teatro Mágico... Em alguns momentos perguntei-me se os múscos sozinhos segurariam a barra, sem os elementos circenses... Pergunta tola esta, que foi logo respondida, quando entoadas, após uma singela interpretação de "Cuida de Mim", as primeiras notas do "Rebolation", fazendo o público vibrar numa deliciosa algazarra de quem foi pego de surpresa!
Música a música, faixa a faixa, os músicos levaram ao público a mesma energia que o Teatro Mágico proporciona! Irrestíveis ainda a citação à banda Beirut, e a devastadora interpretação de "Medo da Chuva", do eterno Raulzito! E como sempre, a plateia dá um show à parte! Sentei-me ao lado, pelo que pude perceber, de um casal, cuja moça era fã e o moço estava tendo seu 'début'. Não foi preciso mais que alguns minutos para vê-lo levantar as mãos e bater palmas - como todos - no refrão de "Pena", como se fosse um antigo admirador! Sem falar no uníssono do coro em "O Anjo Mais Velho".
Arrebatadoras as músicas "Samba de Ir Embora Só", "Na Varanda", "Durma Medo Meu", "Menina" e "Eu Não Sei Na Verdade Quem Sou", e por esta eu parabenizo aos parceiros anônimos do Anitelli, as crianças entrevistadas acerca do trabalho dos Doutores do Riso, pelas suas contribuições na composição, com versos tão lindos como "Palhaço é um homem todo pintado de piadas" ou "Velhinhos são crianças nascidas faz tempo".
Diante desta apresentação - primeira de muitas às quais espero poder assistir - deixo ao Fernando Anitelli, ao Miguel Assis e ao Fernando Rosa, meus parabéns pela beleza captada - e deixada a cada um de nós que estava ali presente, como um 'souvenir' que será guardado em nossa memória - e meu sincero agradecimento, em nome de toda a plateia, por ter nos proporcionado aproximadamente duas horas de completa imersão em alegria fluida, cujos vapores transpuseram as portas do Teatro Carlos Gomes, e permanecerão impregnados por bastante tempo, cada vez que qualquer de nós rememorar o que significou este show. "Céu azul é o telhado do mundo inteiro".
Um show histórico para o admiradores destes músicos, que revista nenhuma conseguirá ter palavras para descrever! O primeiro show do projeto Fernando Anitelli Trio, o que me fez sentir ainda mais honrado de ser um seguidor da trupe do Teatro Mágico. E após este show, percebi (e perdoei) a razão de nunca ter ouvido em seus anteriores "A Pedra Mais Alta", de longe a minha favorita, o que foi recompensado com a linda interpretação, que contou com o incidental "Shimbalaiê", levando os fãs (inclusive eu) ao delírio! A proposta do Fernando Anitelli Trio é trazer à tona as músicas mais lentas, instrospectivas, delicadas, tendo o Anitelli deixado claro que não se trata de um "Teatro Mágico Acústico", mas de um projeto novo que, em breve contará com um álbum gravado (tenho certeza de a ansiedade para vê-lo sair do forno, fresquinho, não é somente minha).
Confesso que ver o Anitelli sem máscara me surpreendeu um pouco. Foi um choque constatar que ele não nasceu pintado e com nariz vermelho. E confesso ainda que fui ao show com boas expectativas, mas não as melhores, tendo em vista estar habituado às pessoas "cuspindo fogo, pegando fogo e de fogo" nos palcos do Teatro Mágico... Em alguns momentos perguntei-me se os múscos sozinhos segurariam a barra, sem os elementos circenses... Pergunta tola esta, que foi logo respondida, quando entoadas, após uma singela interpretação de "Cuida de Mim", as primeiras notas do "Rebolation", fazendo o público vibrar numa deliciosa algazarra de quem foi pego de surpresa!
Música a música, faixa a faixa, os músicos levaram ao público a mesma energia que o Teatro Mágico proporciona! Irrestíveis ainda a citação à banda Beirut, e a devastadora interpretação de "Medo da Chuva", do eterno Raulzito! E como sempre, a plateia dá um show à parte! Sentei-me ao lado, pelo que pude perceber, de um casal, cuja moça era fã e o moço estava tendo seu 'début'. Não foi preciso mais que alguns minutos para vê-lo levantar as mãos e bater palmas - como todos - no refrão de "Pena", como se fosse um antigo admirador! Sem falar no uníssono do coro em "O Anjo Mais Velho".
Arrebatadoras as músicas "Samba de Ir Embora Só", "Na Varanda", "Durma Medo Meu", "Menina" e "Eu Não Sei Na Verdade Quem Sou", e por esta eu parabenizo aos parceiros anônimos do Anitelli, as crianças entrevistadas acerca do trabalho dos Doutores do Riso, pelas suas contribuições na composição, com versos tão lindos como "Palhaço é um homem todo pintado de piadas" ou "Velhinhos são crianças nascidas faz tempo".
Diante desta apresentação - primeira de muitas às quais espero poder assistir - deixo ao Fernando Anitelli, ao Miguel Assis e ao Fernando Rosa, meus parabéns pela beleza captada - e deixada a cada um de nós que estava ali presente, como um 'souvenir' que será guardado em nossa memória - e meu sincero agradecimento, em nome de toda a plateia, por ter nos proporcionado aproximadamente duas horas de completa imersão em alegria fluida, cujos vapores transpuseram as portas do Teatro Carlos Gomes, e permanecerão impregnados por bastante tempo, cada vez que qualquer de nós rememorar o que significou este show. "Céu azul é o telhado do mundo inteiro".
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