terça-feira, 12 de fevereiro de 2019

Diga Não ao Golpe

Tenho notado por parte da imprensa, por parte das pessoas nas redes sociais, nas conversas de mesas de bar e grupos de WhatsApp um certo fomento à ideia de que o General Mourão estaria seguindo os passos do seu antecessor Michel Temer, arquitetando um golpe contra o presidente fascista Jair Bolsonaro.

A impressão que tenho é a de que a própria imprensa vem insistindo no fato de que o presidente não poderia governar hospitalizado e que a administração do país deveria ser instituída ao vice-presidente, Mourão.

Vejo alguns conhecidos endossando o discurso de que um golpe perpetrado pelo General seria bem-vindo, pois acabaria com os desmandos de um governante autoritário e incompetente que ocupa a presidência da república. E o coro aumentou depois que o General Mourão passou a fazer declarações de tom mais moderado e progressista, alinhado a pautas de alguns movimentos sociais, como ao mencionar o aborto como um direito exclusivo das mulheres.

É neste momento que entro num conflito intenso comigo mesmo, quando penso no sonho de um Brasil não governado pelo presidente das armas, Jair Bolsonaro, e na felicidade que me daria vê-lo vítima de um golpe deflagrado por seus aliados. Conflito porque não fico nada, absolutamente nada confortável com a ideia de um golpe apoiado pela mídia, que me parece fazer questão de reforçar a ideia de que o presidente eleito (ainda que sob a influência das fake news) não se encontra apto a governar em razão do seu estado de saúde.

Concordo que o presidente não tem aptidão alguma para governar, mas não é pelo seu estado de saúde. O Brasil já assistiu às reviravoltas decorrentes dos dois pesos e duas medidas no uso conveniente da saúde do Bolsonaro que, quando lhe convinha, era pretexto para se abster de debates e entrevistas, como a gafe que cometeu em Davos, ao dar um bolo na entrevista coletiva depois do seu malfadado discurso de seis minutos, mas não impunha quaisquer óbices à sua aparição na TV aberta, no famigerado canal conservador e evangélico. O presidente não tem aptidão para governar por ser fraco, covarde, néscio, estúpido até, nada preocupado com o bem estar dos governados, mas disposto a sempre dar um jeitinho para beneficiar seus parentes e amigos, valendo-se da máquina pública para tanto.

No entanto, por mais que eu deseje ver a presidência da república do meu país nas mãos de alguém competente e com o Bolsonaro fora, eu não simpatizo com a ideia de que um golpe do seu vice Mourão seja benéfico.

Recentemente, vi pelo Facebook um meme que comparava as últimas declarações do general ao discurso do esquerdo-macho heterossexual oportunista e desconstruído de fachada que, para se aproximar das mulheres, finge estar alinhado às pautas feministas: "Miga, acorda! Ele só quer te comer!" É exatamente o que penso sobre o General Hamilton Mourão. Usa um discurso envolvente para devorar a esquerda, engolindo-a no primeiro momento que lhe for possível.

Durante a campanha eleitoral, tive oportunidade de ouvir o atual vice-presidente em algumas entrevistas. Extremamente bem articulado, chamava atenção pela postura elegante em suas colocações e pelo tom de voz modulado, de maneira comedida, com que exprimia argumentos bem fundamentados e defendia seu ponto de vista. Mostrava-se anos-luz mais informado e culto que o atual presidente e eu quase poderia simpatizar com ele. 

Quase. Não fossem alguns conhecimentos prévios acerca do posicionamento político do militar. Assim como Jair Bolsonaro, Hamilton Mourão é simpatizante à ditadura militar e tem como herói o Coronel Ustra, torturador notável do DOPS. Só isto já elimina qualquer possibilidade de simpatia que eu eventualmente tenha cogitado em ter para com ele.

Em 2017, defendeu que o exército deveria impor o afastamento de pessoas envolvidas em ilícitos, caso o judiciário não o fizesse, o que não apenas invade a esfera de competência do poder judiciário, como ainda extrapola a função das forças armadas.

Em seu discurso linha dura, Mourão já declarou ser contrário ao ativismo LGBT. De acordo com o entendimento raso e equivocado de alguém que notoriamente almeja retirar a credibilidade e a importância de um movimento social, a militância em prol de direitos equiparados entre gays e héteros pretende impor a homossexualidade como um padrão à sociedade, o que não é verdade!

Em 1964, quando João Goulart ainda se encontrava em solo brasileiro, seus rivais, apoiados pelo exército, declararam sua ausência do país e a consequente vacância do cargo de presidente. O resultado disso, todos conhecemos. O Brasil viveu 21 anos sob o domínio militar e sufocou a democracia, que somente seria instaurada em 1988, com o advento da Constituição Federal atualmente vigente. Quando vejo um esforço grandioso da imprensa em declarações como a de que o presidente não está apto ao governo e deve deixar o vice assumir interinamente o cargo, não consigo deixar de associar isto ao apoio que a mesma imprensa deu ao golpe de 1964. E a impressão que tenho é a de que, a qualquer pretexto, a mídia irá declarar a vacância para que, com o apoio popular da esquerda seduzida pelo seu discurso progressista, o General Mourão usurpe o cargo e assuma a presidência da república. Não, eu não apoio.

Não, também não significa que eu esteja satisfeito com alguém como Jair Bolsonaro nos governe. Se estamos dispostos a fazer barulho e questionar a legitimidade da chapa eleita, continuemos a brigar pelas investigações da influência das fake news propagadas pelo PSL e eventualmente pela cassação da chapa eleita, com a deposição do Bolsonaro e do Mourão, se confirmado o vício de consentimento decorrente de erro e dolo, hábil a ter alterado os resultados das eleições.

A substitução um fascista por outro que lhe tenha puxado o tapete pode até soar agradável a quem tem o animus de ver um vilão de novela se dar mal no final. No entanto, diferentemente do script da novela, que acaba quando tudo vai bem para os mocinhos e os vilões recebem seu castigo, na vida real um enredo pode se revelar ainda mais assustador que o antecedente. E seu direito de regozijar com a queda de um presidente incompetente pode ser seu último ato dentro de uma democracia, antes que esta seja sepultada.

sexta-feira, 8 de fevereiro de 2019

Uma maldição chamada WhatsApp.

Uma maldição chamada WhatsApp.

Amores, não é porque eu estou em casa que eu posso receber todos os meus amigos ao mesmo tempo e dar atenção integral a todos. O mesmo vale para aplicativos de mensagens instantâneas. O fato de eu estar online não significa necessariamente que eu esteja disponível para conversar com todo mundo ao mesmo tempo.

Sim, eu visualizo as mensagens, as barrinhas ficam azuis. E eu volto quando dá para voltar. Ou quando eu quero. Muitas vezes estou lendo, estou cozinhando, estou vendo filme... ou estou recebendo visitas, aquela que você também poderia me fazer em vez de cobrar resposta rápida no WhatsApp.

Sim, eu saio do aplicativo sem me despedir e entro sem dar bom dia. Não gosto de introduções do tipo "preciso falar com você". Já está falando, manda a mensagem. Se for urgente, liga. Se não for, aguarda, que eu respondo. O aplicativo para mim é um mero instrumento facilitador de contato. Não um substituto para o olho no olho. Minha vida está acontecendo ao meu redor, à minha frente, ao alcance das minhas mãos. A prioridade é sempre aquilo que está aqui diante de mim.

Então, sim, vou deixar você sem resposta se meus cachorros vierem brincar comigo. Vou deixar você sem resposta se eu tiver de correr para apagar o forno porque o pão estará queimando. Vou deixar você sem resposta se minha campainha tocar. E quando eu tiver um segundo a mais, pode ficar em paz, sua mensagem será respondida. E vou voltar horas mais tarde e continuar o papo de onde parou. Ou, iniciar outro se, para o anterior eu não tiver resposta a acrescentar.

"Mas, é rapidinho, Gu!" Seria rapidinho se a cobrança viesse de uma pessoa apenas. Mas, minha agenda tem mais de 300 contatos, dentre amigos, parentes, contatos profissionais, etc. Pelo menos 20% desses contatos conversam comigo via WhatsApp. Cada um querendo um tempo que é rapidinho,  não me sobrará mais tempo de fazer outra coisa. E se tiver de avisar a cada um que "estou entrando no banho" ou ser educadinho e polido com "bom dia, pode perguntar", "preciso sair agora", nada mais farei senão enviar mensagens protocolares de introdução e despedida.

Assim, se você falar comigo com um "Bom dia, tudo bem?" E fizer algum comentário qualquer a seguir, não se surpreenda, nem se chateie se eu não responder nem ao seu bom dia, nem dizer se estou bem, e partir direto para o assunto que foi abordado.

Bora marcar uma praia, uma pedalada, uma trilha, um passeio no museu. Assim a gente coloca todo o papo em dia e ainda aproveita o prazer da companhia um do outro. E quando fizer isso, pode chamar assim: "tô indo para o CCBB hoje à noite, topa?". Dispense a formalidade e ganhe tempo ao deixar de escrever três ou quatro mensagens protocolares, tipo "Oi, Guto!", "Boa tarde", "Tudo bem?", "Posso te fazer um convite?". Apenas convide. Ou ligue se eu não visualizar ou responder em tempo hábil e a minha companhia for realmente desejada. É assim que eu faço e dá certo.

Passei cerca de três meses afastado das redes sociais e percebi que tornei inexistente para uma galera! Amigos simplesmente sumiram, convites deixaram de ser feitos, e quando alguém esbarrava em mim em algum canto, exclamava em tom de espanto: "Nossa! Você sumiu!" Não, gente, eu estava no mesmo lugar. Você é que estava vivendo demais a vida virtual, onde deixou de me ver, e parou de se preocupar com a vida real, com o telefonema "Gusta, acabei de fazer um bolo de chocolate. Traz uns salgadinhos e vem aqui agora para gente ouvir música e bater um papo, regado a bolo e salgadinhos!"

Quando retornei para o Facebook para divulgar os pães que eu estava vendendo, de repente voltei a ser visto. Recebi tantos "Estava com saudades!", que me perguntei onde se guardava essa saudade, que poderia ter sido resolvida com uma visita de algumas horas. Não, não estavam com saudades de mim. Estavam com saudades de ver um avatar meu seguido por algumas palavras ácidas, que a gente chama "postagem", e que minutos depois se perderiam em meio a uma enxurrada de outras postagens.

E é com este compromisso acirrado ao mundo virtual que me cobram presença e respostas via WhatsApp quando eu estou muitas vezes vivendo a minha vida do lado de fora do celular.

Para os desavisados, posso estar soando como um velho anacrônico, reclamando do avanço da tecnologia, preso ao passado com o pensamento "na minha época era melhor". Não, não é disso que se trata. É o oposto! Eu entendo que os tempos são outros, entendo que a comunicação avançou com a conectividade permanente, entendo que a agilidade das relações virtuais muitas vezes se torna mais atraente que o contato pessoal. Entendo tudo isso! E é justamente por isso que escrevo este texto. Porque os tempos são outros, pessoal! Para que trazer formalidades que faziam sentido na comunicação de outrora para outro tipo de comunicação que é mais veloz?

- Guto?
- Oi.
- Bom dia.
- Bom dia.
- Como vc está?
- Tô bem e vc?
- Tô bem também. Posso fazer uma pergunta?
- Faz, claro!
- Tem certeza?
(Porraaannnn...)
- Claro, fala logo!
- Não vai atrapalhar, não? Se estiver ocupado, falo outra hora.
(Ah, caralho, fala logo, cacete!)

Olha o tempo que as pessoas perdem e nos fazem perder, quando já podiam começar assim:

- Oi, Gu. Ganhei um par de ingressos para o cinema num sorteio. Ta a fim de ir comigo? Hoje às 21h.
- Opa! Tô sim! Vamos!

The fim!

É isso, galera. Não é preciso ser rude e grosseiro, mas dá pra ser educado sem ser enrolado no WhatsApp. Os tempos são outros. Mas, mesmo assim, existe uma realidade acontecendo ao meu lado enquanto o app está me chamando. Não espere de mim que eu sempre esteja disponível para papear no WhatsApp. Ainda que eu esteja online.

terça-feira, 5 de fevereiro de 2019

O Criminoso Projeto de Lei Anticrime do Moro

Sérgio Moro, esse mesmo que se valeu do cargo de juiz para tirar do processo eleitoral o favorito Lula e, com isto, garantir a eleição que lhe renderia o posto de Ministro da Justiça, apresentou nesta segunda o seu Projeto de Lei Anticrime, uma miscelânea teratológica de medidas autoritárias que visam a alterar dispositivos de leis penais e processuais penais, com a esfarrapada desculpa de endurecer o combate ao crime.

O ministro, que em sua trajetória política iniciada com a perseguição ao ex-presidente Lula, já demonstrou não ser muito preocupado com o respeito à Constituição Federal e aos princípios assecuratórios do estado democrático de direitos, vale-se da cultura do medo, arraigada na cabeça da população, para validar as medidas de exceção inseridas no texto do projeto de lei apresentado.

Tive o desprazer de ler a íntegra do projeto e não posso dizer que fiquei chocado com o teor elaborado por um simpatizante de um governo fascistoide, que galgou sua carreira política disfarçado de agente do Poder Judiciário. Mas, se o texto não me causou espanto, não posso dizer que não me tenha causado medo.

Isto porque as alterações propostas pelo Ministro da Injustiça violam nitidamente a Constituição Federal, lei máxima na hierarquia do ordenamento jurídico do país, ao propor a presunção de inocência como uma exceção, não como regra. Além disso, retiram do direito penal sua natureza protetiva do delinquente em face dos excessos punitivos adotados pelo Estado, conferindo-lhe, antes, o caráter de mecanismo apto a legitimar o jus puniendi estatal, ainda que praticado em violação dos direitos humanos. Um dos exemplos disto é o texto que amplia o conceito de legítima defesa e inclui o "medo escusável" como elemento configurador da excludente de ilicitude, além de incluir proteção ao policial, dando-lhe total autonomia sobre o próprio ato, inclusive isentando-o de pena por homicídio cometido em atividade supostamente alegada como confronto.

Conforme introduzido acima, este projeto de lei ganha força quando a sociedade se deixa levar pela cultura do medo, à qual está exposto o "cidadão de bem". Trata-se do discurso amplamente divulgado pela mídia, que insiste em enfatizar, de forma não representativa de números reais, a prática de pequenos delitos, abordando-os em notícias sensacionalistas de forma reiterada, causando a impressão de que sua prática se dá rotineiramente em quantidade exponencialmente maior do que realmente acontece.

Este discurso, aliado à ausência de políticas públicas eficazes no combate às desigualdades sociais, quando capturados por candidatos ou agentes públicos, cujos interesses são ganhar a simpatia deste "cidadão de bem", massifica a ideia de que existe o "cidadão", aquele privilegiado que vive inserido no bojo da sociedade, e existe "o outro", o inimigo, aquele que, por não estar incluído na sociedade, vive dela à margem, passando a ser visto não mais como sujeito de direitos, mas como um sujeito que ameaça os direitos do cidadão, desestabilizando a suposta ordem social vigente.

Vejamos que tal ordem somente existe pelo ponto de vista de quem goza os benefícios da inclusão nos espaços urbanos ou rurais, estruturados de maneira a lhes garantir existência digna. Para aquele a quem as comunidades sociais institucionais viram as costas, nada resta como ordem, e qualquer movimento que eventualmente tente incluí-lo na sociedade, a fim de equilibrar as desigualdades, será visto como desordenador por aqueles cujas posições no grupo serão alteradas. 

Existe um abismo social que separa os "cidadãos" e "os outros", não somente de maneira ideológica ou simbólica, mas também de maneira física. É uma linha demarcatória de lugar, que cria uma fronteira, dentro da qual "o outro" não deverá estar.

Faço uma necessária digressão para comentar que nossa cultura foi criada valorando a noção de escassez, criando desde a mais tenra idade a ideia de competitividade para assegurar ao indivíduo aquilo que não pode ser para todos. Brinquedos na infância. Emprego, moradia, saúde, condições dignas de sobrevivência, na vida adulta. Essa valoração distorcida de que tudo o que existe não existe para todos mantém um suposto, mas inexistente, "instinto de sobrevivência". Assim, o "cidadão" passa a enxergar como ameaça não somente o ato delinquente, mas as próprias iniciativas estatais para redução da desigualdade. Em sua mentalidade de quem foi doutrinado pelo viés da concorrência oriunda da escassez, o acesso do "outro" àquilo que é "seu" o obrigará necessariamente a perdê-lo. E neste contexto, vemos a movimentação da sociedade para barrar políticas assistencialistas, mantendo a exclusão como norma, já que a inclusão do outro no seu espaço, supostamente trará concorrência, para o que quer que seja. É quando assistimos, chocados, a pessoas que se indignam quando o filho da empregada doméstica frequenta a mesma universidade que seu filho.

Assim, tem-se a fórmula ideal para sustentar projetos de lei com foco punitivo e não inclusivos, tais como redução de maioridade penal, aumento de pena ou criminalização de condutas. O medo incutido no "cidadão" leva ao desejo de afastar "o outro" do seu convívio, não importando os meios para tanto. A cultura do medo cria a figura do "inimigo", para quem será direcionado o Direito Penal.

É neste contexto que o projeto do Ministro oportunista Sérgio Moro ganha o apoio da parte conservadora da sociedade, fortalecendo a falsa ideia de um Estado atuante e eficaz no combate à criminalidade. O que este Estado de exceção faz, na verdade, é um trabalho de mascarar a realidade, mantendo excluídos os excluídos, que, se não permanecerão nos espaços urbanos que lhes são destinados, estrategicamente para mantê-los afastados - favelas e periferias - então, serão confinados em prisões. Para o "cidadão de bem", não fará diferença, desde que a ordem social em que está inserido não se veja afetada. É um caso clássico de fins justificando os meios.

Se aprovado o texto integral proposto pelo usurpador Moro, o que veremos será maior segregação das classes menos favorecidas, já que as alterações legais propõem o endurecimento de um mecanismo que já funciona meramente de controle social, o direito penal.

Deste modo, as políticas penais adotadas pelo governo ampliarão o alcance punitivo do Estado, dando-lhe poderes que deveriam ser refreados e não fomentados, sob pena de vermos crescer o totalitarismo em detrimento da democracia. Afigura-se, por conseguinte, notória a incoerência do governo que se elegeu com a proposta de reduzir e enxugar o Estado, vir agora alterar as leis para estender seu alcance com o único propósito de perseguir e afastar "o outro", o desfavorecido  pela estratificação social, alçado à categoria de delinquente por qualquer policial que autodeclarar a prática de homicídio por ato em confronto, ou o cidadão que usar a desculpa do medo escusável como pretexto para excluir a ilicitude do seu ato.

domingo, 6 de janeiro de 2019

O dia em que explusei um bolsominion da minha cama


(Originalmente publicado no meu Facebook em 07.07.2018)

Numa noite qualquer de verão, estava com quase tudo arranjado para momentos incríveis de sexo, carinhos e - quem sabe? - algo que pudesse vir a se desenvolver para um relacionamento.

Mas, num dado momento, falando sobre política, o rapaz me disse que iria votar naquele fascista, cujo nome prefiro não mencionar para não lhe dar moral. Fiquei um pouco chocado. Fui tomado de surpresa, afinal, era alguém com quem eu vinha mantendo contato há alguns meses, a quem já tinha, inclusive, levado para a cama.

Minha primeira reação foi rosnar involuntariamente: "Porra! Você é viado! É candomblecista e portador de HIV, como votar num cara desses? Ele é homofóbico, condena minorias e fala que vai cortar investimento público no tratamento e prevenção do HIV, porque diz que AIDS – ele chama de AIDS! – é doença de viado!" E só depois foi que eu decidi perguntar o porquê desse disparate. Sempre sou inclinado à orientação antes do descarte. Conversamos um pouco sobre política e, ao final do papo, ouvi, num tom que me pareceu honesto um "não tinha parado para pensar sob esta ótica, talvez você tenha razão".

Ufa! Aquela alma tinha salvação! Voltamos à programação habitual. Uns pegas daqui, uns pegas dali, não para, não para agora, puxa cabelo, morde pescoço, me dá sua língua aqui, ah! Naquele estado entre cansaço e relaxamento, cada um olha o próprio celular, fala algumas trivialidades e, não lembro como a Pabllo Vittar foi parar naquela cama.

- Você não acha ridículo esse sucesso todo para uma travesti?
- Oi?! - o tom de voz já tinha saído com vontade própria, sem muito controle da minha parte, e soou como de alguém cuja paciência nunca foi uma marca registrada - Ridículo por quê?! Travesti, transexual, Drag Queen, não podem fazer sucesso? Não, não acho ridículo! Não gosto da sua música, mas acho extremamente importante que sua imagem seja mostrada de forma positiva, o máximo possível, como vem sendo. - e descambei a metralhar meu discurso sobre a importância da representatividade da diversidade nas mídias, no quanto isso me fez falta durante uma adolescência conturbada numa cidadezinha medieval do interior da Bahia nos anos 90 e no quão importante é para pessoas se sentirem representadas e, com isso, evitando os elevados índices de suicídios entre jovens LGBT.

Ali, eu já tinha certeza de que meu crush tinha acabado. Só estava me perguntando então como faria para dizer que não ia rolar mais nada. Eu estava num conflito interno entre a vontade de pedir que ele fosse embora, depois que eu mesmo o convidara (e insistira para que ele viesse) e no quanto seria rude da minha parte fazer isto. Provavelmente permitiria que ele dormisse ali e, no dia seguinte, conversaríamos sobre isso e eu lhe diria que, por questões de princípios inconciliáveis, não conseguiria mais ter qualquer envolvimento com ele.

Mas, já estava um climão instaurado no ar, quase 2h da madrugada, um silêncio constrangedor no quarto. Polêmica sobre o cabelo da modelo negra Yasmim, racismo e preconceito no programa da Fátima Bernardes pipocando em todas as mídias, ele tenta puxar papo:

- Olha isso! Vai dizer que um cabelo desse é bonito?! Esse povo negro é engraçado! Vitimista, tudo agora é racismo!

Estourei. Paciência acabou. Na minha cabeça tinha ficado claro que eu não precisava ser um gentleman com alguém que estava disposto a destruir ideais igualitários de um mundo melhor, alguém que estava pronto para votar num candidato que chancelaria a violência contra mim, contra meus amigos, contra si próprio.

- Cara, olha só, não vai mais rolar nada comigo e com você. Nem hoje, nem amanhã. Não vai. Pode se vestir e ir embora? Eu chamo seu Uber.

Ao sair, depois de ser expulso da minha casa, disse que eu era intolerante:

- Vocês de esquerda são um bando de hipócritas. Falam tanto em igualdade, mas não toleram uma opinião diferente da de vocês. Eu convivo com gente de direita e de esquerda, mas vocês não. Só por causa de uma divergência de opinião!

Saiu. Bloqueou-me de todas as redes sociais. Nunca mais vi. Nunca mais tive notícias. No fundo eu estava orgulhoso para caralho por ter tido pulso firme e ter decidido não ser um cavalheiro com alguém que pauta a existência na segregação.

***

Numa noite qualquer de inverno, durante um papo descontraído com um outro pretendente.

- Não sei o que você viu em mim, mas seja lá o que for, gosto que tenha visto.
- Além de tudo o mais, a sua visão política foi um fator determinante para manter meu interesse. Acho até confortável estar com alguém com interesses e gostos parecidos, mas não é essencial. Respeitadas as liberdades individuais e o espaço de cada um, acho tranquilo lidar com alguém gostar de pop e eu gostar de jazz, alguém gostar de viver em casa e eu gostar de pedalar e fazer trilha. Mas, ao contrário, acho essencial estar com alguém alinhado pelos mesmos ideais. Eu namoraria alguém baladeiro, que detesta praia e odeia contato com a natureza, mesmo sendo o oposto disso. Mas, não namoraria alguém que achasse legal o homem ser explorado pelo homem.

***

Percebo como é fácil para pessoas que têm uma visão conservadora de mundo dizerem que nós, "de esquerda", somos intolerantes quando queremos nos manter distantes deles.

Sem adentrar a seara daqueles que têm má-fé mesmo e acham correto espancar homossexual, negro e mulher,  vejo, em sua grande maioria - e digo aqui apenas com base em conhecimento empírico fundado numa observação do mundo à minha volta, não se podendo levar em conta como dados estatísticos confiáveis - que são pessoas pouco inteligentes e não enxergam a política como uma alavanca capaz de mudar o mundo.

Para estas pessoas, política é um universo paralelo, que não alcança os meros mortais. Então, não faz diferença em quem votam, já que em sua mente limitada, seu voto no candidato homofóbico não vai agredir seu vizinho bicha, porque a violência está na rua e não no Congresso. Para estas pessoas, você não é o mesmo negro de quem aquele candidato defende que se pode falar mal e fazer piada, você é brother, pô. "Eu sou seu amigo, negão, então não sou racista!"

Esse tipo de gente não entende o significado de democracia representativa e que, ao dar ao candidato seu voto, está lhe conferindo um poder parar agir em seu nome,  fazendo aquilo que não tem condições de fazer sozinho. Estas pessoas não parecem levar em conta que estão legitimando o candidato para lhes representar. Se não acham correto bater em criança, e mesmo assim dão poder a alguém que defende que crianças devem apanhar, estas pessoas não têm coerência. São, talvez, as que tenham salvação. Ignorantes, pouco inteligentes, nada engajadas. Se forem bem orientadas, talvez possam abrir os próprios horizontes e se tornarem mais conscientes.

Outro tipo, que não exclui o anterior, é o de quem não tem uma visão sistêmica, de que o discurso de um candidato pode ser uma influência ao cidadão comum. O candidato que diz que a mulher merece ser estuprada se estiver usando decote está chancelando a prática do mero mortal para cometer esse tipo de violência.

Cortei relação com um parente depois que me mandou uma montagem na qual homens sorridentes ao redor de uma mesa de sinuca seguram armas em vez de tacos, na qual se lia "Eu e meus amigos quando meu candidato for eleito". Naquela ocasião, antes de bloqueá-lo e limá-lo do meu convívio, enviei a foto de um rapaz gay brutalmente assassinado, espancado a pauladas até a morte. E escrevi na última mensagem que lhe enviei: "Eu e meus amigos quando seu candidato for eleito. Quando acontecer comigo, lembra da escolha que você fez e não venha dizer que me ama".

Entendo porque parece tão fácil para essas pessoas conservadoras conviverem com gente que tem uma "opinião diferente" e porque elas não compreendem como anseio por igualdade e por liberdade o nosso afastamento.

Porque em seu mundo, a opinião diferente de uma minoria continuará sendo apenas uma opinião diferente de uma minoria, que, por ser minoria, jamais será uma ameaça aos seus privilégios. O mundo ideal do conservador é aquele em que sua posição de destaque permanece inalterada. Então, ok vc ser negro, ok vc ser viado, ok vc ser mulher. Você continuará sendo discriminado, continuará sendo explorado, continuará sendo submissa ao patriarcado e nada disso afetará a condição de homem, heterossexual, branco, de classe média alta. Ao passar a manteiga no pão que tem em sua mesa pela manhã, não irá mesmo se lembrar que em lugar do planeta, uma legião estará passando fome. Então, sim, "convive" com todos numa boa!

No meu mundo não cabe esse tipo de gente. No meu mundo eu quero derrubar os privilégios e dar oportunidades iguais a todas as pessoas. Todas as pessoas que não se utilizarão dessa oportunidade para crescer sobre as outras e viver privilégios que as outras não têm.

Então, você que é descartado deste meu mundo, não ache que estou sendo intolerante. É fácil demais para você, cujo mundo ideal é um mundo de intolerância, achar que as minorias devem querer conviver contigo, já que você mesmo não enxerga a falha no seu sistema e não se interessa em dar um boot para reiniciar de outra forma.

Amizades desfeitas e a Democracia representativa II

Nesta semana um idiota voltou a me provocar no WhatsApp, mandando-me uma imagem na qual se viam alguns rapazes sorridentes ao redor de uma mesa de sinuca. Na tosca montagem, os tacos do jogo haviam sido substituídos por espingardas e fuzis, e sua legenda dizia "EU E MEUS AMIGOS QUANDO BOLSONARO FOR ELEITO EM 2018".

Antes de bloqueá-lo, depois dessa sua terceira provocação, devolvi a mensagem. Enviei-lhe a foto de um rapaz morto de forma violenta, com dentes quebrados, hematomas no rosto inchado e sangramento na boca e no nariz e fiz questão de legendá-la com a mensagem "EU E MEUS AMIGOS SE BOLSONARO FOR ELEITO EM 2018 POR GENTE COMO VOCÊ E SEUS AMIGOS".

Tempos atrás, tive uma ligeira indisposição com um amigo querido porque eu disse que alinhamento político diverso ao meu era um fator limitante para determinar meu interesse ou não por uma pessoa, ao que fui interpelado com o argumento de que opiniões divergentes são fundamentais para o crescimento e que não se deve perder a chance de descobrir pessoas interessantes por causa de política, já que os candidatos "estão lá" e "nossa vida segue por aqui", como se nossa existência fosse indiferente às políticas do nosso país.

Incomodo-me demais com esta visão de que política é uma coisa alheia à nossa vida, como se fosse um universo paralelo incapaz de nos afetar.

É claro que opiniões divergentes geram debates e enriquecem as ideias. Concordo em absoluto com esta premissa, o que não significa que eu deva ser aberto a toda e qualquer opinião. Especialmente se a manifestação dessa opinião for contrária a valores que trago como essenciais.

Disse-lhe que eu jamais conseguiria me envolver afetivamente com alguém que votasse num candidato como o Bolsonaro e fui tachado de radical por este posicionamento. "Uma pessoa pode ter outras qualidades". Sim, pode! Mas, conferir um voto a um candidato totalmente desalinhado com os valores que tomo como diretrizes para a minha própria existência faz dessa pessoa alguém diametralmente oposto a mim, anulando qualquer outro valor que porventura esta pessoa venha a ter.

Política é algo muito mais perto de nós do que imaginamos. E podemos extrair isto do artigo 1º, Parágrafo único, da Constituição Federal, que diz: "Todo o poder emana do povo, que o exerce por meio de representantes eleitos ou diretamente". Significa que vivemos em uma democracia representativa, ou seja, que conferimos ao nosso candidato o poder que nos cabe, para que ele tome, em nosso nome, as medidas que nós mesmos tomaríamos. Por isso, são chamados de representantes eleitos. Porque eles representam aquilo que somos.

Assim, se alguém confere a um candidato como Jair Bolsonaro o poder para que ele venha restringir direitos das minorias, fazendo-as se curvar à maioria, como já declarou inúmeras vezes, este eleitor está dizendo que concorda com esta política e se sente representado por quem a exerce. Se alguém confere a este candidato o poder para agredir homossexuais, mulheres, negros, índios, não cristãos, está dizendo a mim que faria isto tudo se lhe coubesse. Como não cabe, outorga a um representante seu que o faça em seu lugar.

Uma pessoa que faz tudo isso está dizendo a mim que a minha existência é um erro e valida qualquer tentativa de corrigi-lo, ainda que eu venha a ser massacrado na rua com a chancela do seu candidato. Uma pessoa desta definitivamente não é digna da minha consideração, da minha amizade, do meu afeto, tampouco de qualquer laço existente meramente por consanguinidade.

O imbecil que me provocou reiteradas vezes pelo meu WhatsApp ao longo dos últimos dias já foi devidamente freado do meu convívio com um bloqueio no meu aplicativo. Se ele quiser jogar a sinuca dele com seus amigos, usando armas de fogo em lugar de tacos, que fique à vontade. Mas, quando um dos seus disparos me atingir, que não lamente pela escolha que fez. Ele escolheu me alçar à qualidade de alguém que pode deixar de existir.

Amizades desfeitas e a Democracia representativa

(Originalmente publicado no meu Facebook em 26.03.2017)

Não vale a pena se afastar das pessoas por causa de candidato político?

Nosso sistema político é representativo, o que significa que quando damos nosso voto a um candidato, estamos conferindo-lhe que nos represente. A isto damos o nome de democracia representativa: o poder exercido pelo povo, através de seus representantes. Estamos dizendo que seu pensamento é alinhado com o nosso e esperando que ele faça em nosso nome aquilo que não temos como fazer. É como passar uma procuração para alguém exercer um poder que me cabe.

E aí, você pensa que não vale a pena se afastar daquele seu "amigo" que apoia um Bolsonaro, por exemplo, qualquer um daquela famigerada tradicional família racista, misógina e homofóbica. Ou aquele parente que acha lindo o discurso homofóbico que fala em Jesus e em Deus com uma naturalidade incrível para quem defende o preconceito, do Ezequiel Teixeira, aquele pastorzinho da igreja da cara de leão, que veio, com a voracidade da fera, devorando os direitos humanos ao assumir sua secretaria no Estado do Rio de Janeiro, de forma similar ao que Marco Feliciano fez em nível nacional quando foi alçado à presidência da comissão.

Ora, se meu "amigo" diz que apoia um Bolsonaro, está me dizendo que apoia a violência contra gays, a discriminação contra negros e o estupro de mulheres. Sua mensagem é clara: "estou dando ao meu candidato a representatividade para atuar em meu nome, fazendo por mim aquilo que eu faria, mas não posso". Estou ouvindo do meu "amigo" que ele apoia um candidato que se dispõe a brigar contra quem eu sou, que está verdadeiramente disposto a empreender um embate para combater não só a mim, mas todos aqueles que me são semelhantes.

Mas, em nome da camaradagem, devo aceitar que meu "amigo", meu tio, meu primo ou meu avô concedam a um candidato disposto a transformar a minha vida num inferno, poder para atuar e colocar em prática seus planos doentios?

Não, obrigado. Se alguém se dispõe a dar a um candidato poder para fazer isso tudo, não devo lhe outorgar minha amizade, tampouco devo lamentar se a política me tirar esse tipo de "amigo" do caminho.

Postura profissional?

(Originalmente publicado no meu Facebook, em 22.08.2018)

Cursei Direito em uma universidade pública. Localizada em cidade à beira do mar, com aulas muitas vezes oferecidas em horário de verão, à tarde, depois de meses de greve. Nessas ocasiões, muitas vezes, fugi do calor e fui assistir às aulas trajando bermuda, camiseta, sandália. Estava longe de me formar, longe de ingressar no mercado de trabalho e mais preocupado em alimentar meus sonhos de acadêmico a pensar em "traje adequado" ou "postura".

Muitas vezes, fui alertado sobre a minha suposta falta de "postura profissional", em razão de entrar nas aulas de bermuda, camiseta e chinelos. Meu professor de Direito Tributário, um dos piores que já tive na vida inteira, foi um deles: não dava aula, era um péssimo profissional e se sentia no direito de me alfinetar a cada vez que me olhava, com meu ar de quem estava pronto para ir à praia, e não para a aula.

Quando apresentei meu TCC, fui de terno e gravata. Foi a primeira vez em que usei terno durante a vida acadêmica. No corredor, tive o desprazer de esbarrar com aquele professor. Olhou-me de cima até embaixo, com ar de desdém comentou: "nem o reconheci agora que parece um bom profissional". Não deixei por menos e retruquei, com um sorriso cínico de quem estava, na verdade, controlando uma vontade de socá-lo: "pois é, professor, como pode pode ver, não foi a falta de um terno que me impediu de chegar até aqui". Saí, irritado, com a percepção de que para parecer um bom profissional era mais importante estar alinhado nas vestes que mostrar competência.

Passei no TCC com 9,5.

Na vida profissional, já soube de caso em que serventuário de cartório telefonou para uma chefe minha, apenas para lhe alertar de que um advogado do seu escritório estava diligenciando em fórum com trajes inapropriados à dignidade de sua profissão. Eu havia ido de calça, sapatênis e camisa de gola polo tirar fotocópia de um processo.

Na ocasião, comentei que se o péssimo profissional do fórum estivesse menos preocupado em fazer fofoca e mais ocupado em fazer seu trabalho, talvez os processos não fossem tão morosos naquela Vara de Família.

Noutra ocasião, uma chefe me disse que eu escrevia mal, que minhas petições não eram técnicas e que eu "viajava demais, filosofando tanto na escrita, de forma desnecessária", já que, de acordo com suas palavras, duvidava que o juiz fosse entender. Delicadamente, respondi que o fato de ela não acompanhar o raciocínio do meu texto não lhe dava o direito de presumir que todos os juízes fossem pouco inteligentes como ela.

Não foram poucas as vezes em que fui "alertado" sobre usar brinco, sobre não viver de terno e gravata para cima e para baixo, sobre sentar em rodinhas de estagiários em vez de rodinhas de chefes, por não suportar ser chamado de "doutor" e por me recusar a chamar colegas pelo mesmo título, por expor aspectos da minha vida em redes sociais, sobre não ter "postura de advogado".

Ao longo da minha vida profissional, consegui alguns feitos que poucos profissionais conseguem num Judiciário tão engessado como o do Rio de Janeiro. Sempre briguei contra este conservadorismo que impera no mundo jurídico e que fomenta esta visão de que você só será bom se seu sapato for o mais brilhante e seu terno for o mais caro.

E sempre fui a favor de que o bom profissional é aquele que investe em conhecimento aplicável e não em roupa. E por conhecimento aplicável não me refiro a decorar artigos de lei, prática desnecessária, já que a lei está ali sempre à disposição de uma consulta, mas a entender a relação entre o Direito e outros campos do conhecimento, como Filosofia, Sociologia, História. É dominando o discurso lógico que se constroem bons argumentos, ferramenta necessária ao trabalho de um bom advogado. É saber usar as palavras e mostrar a desconstrução de um raciocínio, etapa por etapa, para demonstrar sua formação, evidenciando os possíveis erros e acertos em suas premissas. Assim, faz-se o convencimento.

Então, quando você tiver alguns Recursos Especiais admitidos de primeira pela Terceira Vice-Presidência, remetidos ao STJ sem necessidade de interposição de Agravo; quando você conseguir, na lábia, despachar tutela de urgência e antecipar em uma tarde uma tramitação que levaria cerca de um ano, garantindo o direito do seu cliente; quando você conseguir impugnar laudo de IML sem ser médico, mas valendo-se do conhecimento que adquiriu em suas aulas de Medicina Legal; quando você conseguir reverter condenações homéricas para improcedência em seus recursos de Apelação; quando você conseguir fazer muitas testemunhas mentirosas se contradizerem durante audiências, apenas com perguntas; quando você tiver trechos das suas petições transcritos nas decisões proferidas pelos desembargadores que acolheram seus argumentos ali apresentados; quando você conseguir analisar riscos, antecipar derrotas e evitá-las oferecendo e firmando acordos muito mais vantajosos ao seu cliente, aí sim você vem falar comigo sobre postura profissional.