domingo, 6 de janeiro de 2019

Jair Bolsonaro e a velha opinião formada sobre tudo


(Originalmente publicado no meu Facebook, em 09.10.2018. Ainda não havia o resultado das eleições presidenciais. Infelizmente, só confirmaram minhas previsões)

Vou falar novamente numa outra língua que você talvez entenda.

Você é mulher. Se tiver de passar por uma rua deserta sozinha, do que você mais tem medo? E sempre tiver de entrar em um carro de um homem estranho? Como um motorista de táxi de uma empresa que você não conhece? E se estiver sozinha em casa e for obrigada a receber um prestador de serviço, tipo um instalador de internet ou um encanador? O que mais te assusta nessas circunstâncias? Violência sexual? Medo de ser estuprada?

Eu sou homem. Eu poderia dizer que isso é mimimi. Eu não tenho a menor ideia do que é este medo. Não vislumbro a menor possibilidade de ser sexualmente violentado por um taxista, um pedreiro, um transeunte qualquer de uma rua vazia. A figura de outro homem, pelo simples fato de ser homem, perto de mim não se afigura uma ameaça. Não tenho nenhum receio pela minha integridade física. Tenho 1,85 de altura e poderia dizer que me sinto até bastante seguro quanto à minha integridade física. O máximo que eventualmente poderia me causar algum temor seria o receio de algo a ser feito contra meu patrimônio: assalto, perder meu celular ou minha carteira. Isso faz de mim parte legítima para desdizer o medo que você, mulher, tem, de ser vítima de violência sexual? Não, não faz. Faz de mim alguém que ignora completamente o seu sentimento. E no máximo, faz de mim alguém que tenta ter empatia com o que você diz passar. Eu poderia muito bem dizer que é um medo infundado, porque não faz parte da minha realidade. Em vez disso, prefiro pensar que o fato de eu ignorar um sentimento não significa que ele não exista e não tenha algum fundamento.

Pois é isso que o seu candidato fascista e aqueles que o seguem não fazem. Por desconhecerem o temor alheio na própria pele, passam a minimizá-lo.

Você nunca terá ideia do que é ter medo de andar de mãos dadas na rua com a pessoa que ama como as pessoas LGBT sentem. Da mesma forma que nós, homens, não saberemos o que é ter medo de outra presença masculina como uma ameaça à nossa integridade física e sexual apenas por estarmos no mesmo ambiente junto com ele.

Você não sabe o que é ser cercada na rua com palavras ofensivas por andar de mãos dadas com seu namorado, e posso apostar que nunca tentaram bater em você por isso.

***

Em meados de 2005 ou 2006, eu e um amigo fomos cercados por um grupo de rapazes. Eu e um amigo. Não éramos namorados. Não andávamos de mãos dadas. Não trocávamos carinhos em público. Apenas andávamos juntos. E nossa existência incomodava tanto um grupo de pessoas, a ponto de nos cercarem, ofenderem e tentarem nos bater. Assim, gratuitamente. "Vocês são gays, logo têm que apanhar". E nos cercaram. E socaram o rosto do meu amigo. E tentaram socar o meu. Nossa sorte era que nesta época eu corria cerca de 20 km diariamente e praticava musculação, andando no auge da minha resistência física. Consegui esmurrar um deles, joguei seu rosto contra uma árvore e o empurrei sobre os demais, para conseguir tirar meu amigo do meio daquela roda de violência e sairmos ambos correndo para longe. Eu saí ileso. Meu amigo ainda teve uns hematomas. "Ileso", quer dizer... assim, entre aspas. Fisicamente saí ileso. Internamente, eu estava devastado, constatando que minha existência era algo que podia ser relativizado, minimizado e extinto.

***

Jair Bolsonaro, a pessoa, o Seu Jair para algum dos seus vizinhos, não é uma ameaça. É um senhor idoso. Um velho, decrépito, burro e fraco. Mesmo hoje, não mais correndo 20km por dia, nem praticando musculação como há doze ou treze anos, eu me garantiria se algum disse esse velho se atrevesse a me bater como declarou em entrevista que o faria se visse dois rapazes se beijando. Quem me dera, inclusive, se ele tentasse! A satisfação de lhe arrancar um dente com um soco não teria preço! Não, esse corpo velho não é uma ameaça. Suas ideias são.

Jair Bolsonaro forma opiniões. Tem uma legião de seguidores, tão limitados quanto o alcance dos seus cérebros, simplista, que se vale de uma dúzia de frases de efeito, e espalha sementes. Planta o ódio na cabeça dos seus seguidores e deixa que o restante dos seus trabalhos seja feito pela massa anencéfala.

Quando você ouve uma horda de seguidores dessa pessoa gritando a plenos pulmões, em tom de comemoração, quase como torcida organizada "o Bolsonaro vai matar viado", você pode perceber a influência que este velho decrépito tem. Você não se importa, você não é viado. Você não sabe o que é o medo de ser pego olhando para um rapaz que ache bonito, não sabe o que é beijar de olho aberto na rua, para poder ver se virá um ataque de algum lugar e poder se precaver. E aí você diz que não é homofóbica, que tem amigos gays, que ama seu amigo gay, mas que eleger um homem que confere validade a este discurso violento "é apenas é uma opinião, mas ainda sou sua amiga".

Dias atrás assisti, chocado, a uma "amiga" de um "amigo" viado, dizer a mim os maiores desaforos, numa postagem deste "amigo". O motivo? Desmenti com fotos e argumentos umas notícias falsas que ela compartilhava. O meu "amigo", mesmo sendo gay, mesmo estando inserido na categoria que aquela mulher decidiu ofender, mesmo sabendo que é a sua existência que também corre risco com o candidato que aquela mulher decidiu escolher, limitou-se a curtir uma a uma cada uma das respostas malcriadas que ela me deu. Sabe como é, né? É vizinha. É tia. É prima. Conheço desde pequeno. Ela me ama, sim. Está elegendo um cara cujos defensores alardeiam em vídeo que irá matar o grupo dentro do qual eu estou inserido, foi extremamente grosseira com um amigo meu, sem nenhuma razão de ser, mas, poxa, tadinha, vou clicar aqui no botãozinho "curtir" da sua resposta, por que, você sabe, não vou me indispor. Tudo bem, a escolha é sua. Quando levar a primeira paulada na rua, espero que se lembre de sua omissão.

Eu vou me indispor, sim. Tempos atrás perdi um parente. Morreu. Parente mesmo, não família. Havia declarado voto ao candidato que se acha no direito de me bater se me vir beijando meu namorado na rua. Só pude me sentir grato por ter morrido antes das eleições. Um voto a menos para um fascista. Cortei conversa com outros tantos parentes que, infelizmente, foram às urnas conferir poder a esse candidato desprezível. Felizmente posso me orgulhar dos meus pais e irmãs, que ainda defendem a democracia.

Não, você não sabe o que é ter que soltar as mãos do seu marido na rua apenas porque vem vindo alguém.

***

Dias atrás, peguei o metrô. Eu estava sozinho, mas o vagão estava cheio. Um grupo de quatro homens estava perto e eu podia ouvi-los falar sobre o quanto havia sido divertido terem zoado um "casalzinho de viados" e sobre a frustração de um deles sobre outro casal porque "porra, os cara era lutador! Dois homi tudo forte, cara, eu vou zoar?" (sic)

Muito frequentemente, pego o metrô com meu namorado. Neste dia, infelizmente, eu estava sozinho. Queria poder entrar no vagão abraçado, ou de mãos dadas, ou trocando qualquer tipo de carinho, porque eu estava disposto a desbancar um grupo de marmanjo problemático que se sentisse no direito de se intrometer na minha vida afetiva. Segui a viagem sozinho, pensando que deveriam ser proibidas manifestações de estupidez.

Seu candidato é essa ideia entranhada na cabeça vazia de quem o segue. Ele não me bateria no metrô, tampouco me cercaria numa rua com um amigo. Mas, daria a força que essa gente precisa para destilar seu ódio. Se esses homens praticam essa violência, que há muito deixou de ser simbólica, mesmo quando têm contra si todo um sistema legal que coíbe a discriminação, o que farão quando se sentirem representados, refletidos e chancelados pelo Chefe de Estado, pelo representante máximo de uma nação?

Então, não, eu não sei o que é ter medo de ser estuprado numa rua deserta. Mas sei que meu afeto incomoda um mundo ao meu redor, que você com seu voto está disposta a colocar em prática. Não peça minha empatia se você não se dispõe a dar a sua. A propósito, o candidato que tem seu voto também defende que mulher é cadela que deve ser alimentada em tigela. Você acha mesmo que estará segura numa rua deserta em um governo que ele vier instaurar?

Algibeira

Algibeira

Guarda memórias na tua algibeira 
Quando é noite e o frio te abraça.
Posto que, ao veres vazios teus bolsos,
Sentirás plena tu'alma, imersa
Nas lembranças de olhos que sorriem.

Guarda e rememora: feliz encontro
Entre o pretérito perfeito
E o conjugar dos verbos todos,
Em tempos, modos e pessoa singular.

Tira do bolso a paz e a doce ausência,
Pois te ronda o sono e faz-se tarde.
Sonha! Quando a saudade te contorna,
Põe-te vulnerável: emoção eruptiva
Como gêiseres que brotam.

Deixa te enlevar, do forro da casaca
Trazido à tona por dedos curiosos,
Alegria vaga de quem traz consigo
Recordações, desvarios, devaneios
Que felicidade alguma ousa pôr fim.

Rio, 11 de julho de 2018.

Antítese do Tempo

Antítese do tempo

Dias que gotejam
Em lento arrastar de passos
Desejo de que avancem
E que do futuro se faça presente
Quando o maior presente
São as horas que os sonhos
Insistem em querer congelar

Contraponto dos ponteiros
Que correm distante
E apontam avante
Do presente que se faz pretérito.
Fiquem! Mas, vão!
Paradoxo de sorrisos longevos:
Anseiam pelo amanhã
E querem no hoje o eterno,
Posto que o passado se esvai
Mas, não aparece o porvir.

Ah, se me trouxesse a noite
Horas sonolentas!

Que olhos cerrados aos dias vindouros
Almejam apagar o brilho
De segundos preciosos que foram a galope?

Iroko, planta aqui tua gameleira
E guarda os minutos que já foram,
Dentro dos quais sorrisos se fizeram.
Devora, Cronos, as manhãs que não vieram,
Digere a ansiedade e ao fim do dia sexto
Regurgita a pacatez
Do abraço que tempo algum
Intenta separar.

Rio, 03.08.2018

Pedido

Pedido

Quando fores mata funesta,
Deixa-me ser rio que te atravessa,
Margem enternecida que perpassa
Os meandros do teu solo ferido.

Deixa-me ser colarinho
Quando fores gravata.
Em teu nó, abraça-me forte!
Traze algum sentido à minha destinação.

Mas, quando fores mão, outra mão serei.
Deixa-me pôr ao teu lado,
Posto que dedos trançados
Traduzem o verbo aninhar.

E quando fores sorriso, fica!
Deixa-me ser esperança.
Não te vás a brilhar noutros olhos
Não permitas que eu seja saudade.

Rio, 05 de julho de 2018.

Mas, eis que chega a roda vida...

(Originalmente postado no meu Facebook em 22.08.2018)

"Tô de olho em você, que estava dizendo que não queria nada sério com ninguém, mas uma semana depois apareceu namorando."

"Tô só manjando esse povo que ontem estava me mandando nude e hoje aparece colocando foto de casal apaixonado em rede social."

"Sem saco para quem diz que quer um relacionamento estável, mas não sai do aplicativo de pegação, pegando geral."

Então, migx, senta aqui, bora levar dois dedinhos de prosa: cuida da tua vida, sim? Pronto. Era só isso mesmo que eu queria te dizer.

Em vez de reclamar de quem enxerga a vida de forma dinâmica e agarra as oportunidades que aparecem, por que você não tenta fazer o mesmo?

Para com essa chatice de reclamar de quem te mandou nude ontem, ou que não queria nada sério com você, ou que semana passada te deu mole (e cá pra nós, aposto que você ficou fazendo cu doce e, por conta disso, a pessoa encheu e foi ciscar noutro terreiro).

Ontem foi ontem, passado, ficou pra trás. Ideias mudam todo dia. Pessoas mudam todo dia. Como é que você esperava que um bicho mutável como é gente, que carrega um troço mutável como é ideia, ficasse à mercê do seu capricho de quem prefere ver a vida passar pela janela em vez de vivê-la?

Aquilo que tu chama de piranha, eu chamo de pessoa com senso de oportunidade. É gente que não é obrigada a planejar uma vida ao teu lado, mas que, numa piscada de olhos, descobre alguém que a instiga e vira tudo de cabeça pra baixo. A pornografia que te mandaram semana passada é o coração que estão entregando a outrx hoje. Aceita. E não entra nessa chatice de aguardar ad eternum que continuem massageando teu ego, à tua disposição, enquanto você faz a linha "culto das princesas", porque decidiu esperar, e depois resolve se fazer de ofendidx quando descobre que a fila andou.

Porque a vida é assim mesmo. Se você tá vendo a pessoinha todo dia no app de pegação é porque alguma coisa você tá fazendo lá, né não? E quer saber? Não há nada de errado nisso. Corpo é teu, faz dele o que tu quiser! Só pare de achar que você é melhor que geral porque acha que você tá ali fazendo a diferença. Porque não tá. Você tá ali querendo o que tanta gente quer: dar e receber amor. E tá disponível para dar e receber outras coisas enquanto esse amor não chega. Então para. Vá dar! (Amor também, inclusive). Vá fazer sua vida acontecer também.

Porque se você acha que foi rápida a mudança daquela pessoa que, semana passada, estava pegando geral para hoje aparecer shippada com outro nome acoplado ao dela, imagine qual não vai ser a sua surpresa ao se dar conta da mudança que é você estar vivendo hoje e amanhã se descobrir à beira da morte. Pesado, né? É pra ser mesmo. Então acorda! Porque uma hora tu pode não conseguir mais.

Dano existencial

(Originalmente postado no meu Facebook, em 31.08.2018)

Dá-se o nome de dano existencial à lesão causada pelo empregador ao empregado quando, em virtude da jornada excessiva do trabalho, este deixa de gozar a própria existência como alguém dissociado do ambiente corporativo no qual está inserido e do qual deveria apenas ser parte. Ocorre quando a pessoa se encontra impossibilitada de fruir e gozar momentos de lazer, vida social, vida acadêmica e projetos pessoais, como cursos, exercícios, hobbies, etc.
O reconhecimento do dano existencial parte do pressuposto de que o trabalho do ser humano deve ser instrumento para sua subsistência e não um fim em si mesmo. Repousa sobre este entendimento a velha máxima popular de que todos devemos trabalhar para viver e não viver para trabalhar. É a própria existência da pessoa que se vê prejudicada quando toma por condição inerente, em uma relação de total submissão e dependência, a ideia de que sua vida se resume à atividade que você pratica para sobreviver.
E o mundo corporativo há muito vende a ideia falaciosa de que a dignificação do indivíduo é consequência direta da sua atividade laboral. De tal forma que costumamos nos definir pela atividade com a qual atuamos. Quando, algum  tempo atrás me perguntavam o que eu era, eu respondia sem pestanjear: sou advogado.
Pressupunha-se, com essa resposta, que o conceito de "ser" resumia-se, ontologicamente, a uma fatia do ser, ou, mais precisamente, a um só (dos inúmeros) campos de atuação do ser. O ente profissional ocupava todo o indivíduo, em uma metonímia cruel que atribuía como o todo apenas uma de suas facetas: a do trabalhador.
Essa cultura mesquinha que resume a pessoa à sua atividade laborativa criou a falsa ideia de que é o trabalho que valoriza o homem, aqui tomado em sua acepção mais ampla, como um exemplar da espécie humana. Não ouso discordar que o trabalho valoriza o homem, mas insisto em dizer que o valoriza também, mas não somente.
Quando eu respondia que eu, Gustavo, era advogado, eu traduzia exatamente a noção de que o ser humano é definido pelo seu trabalho, o que, evidentemente, não corresponde à verdade. Para demonstrar isto, basta que se pergunte "o que você é?" a quem não exerce qualquer atividade laborativa. Invariavelmente, outra faceta que compõe a pessoa preencherá a vaga deixada aberta pela ausência do trabalho: sou filho, sou irmã, sou homem, sou sonhadora.
O mundo corporativo ganha muito com esta visão, de forma que é fácil se perder na reflexão sobre a causa e a consequência: o mundo corporativo propaga essa ideia de que somos aquilo com que trabalhamos por que temos essa percepção ou temos essa ideia por que o mundo corporativo nos ensinou e nos fez acreditar que somos aquilo com que trabalhamos?
Seja como for, o que se nota sem grandes esforços é que as empresas, as grandes corporações, os empregadores, via de regra, insistem em propagar esse pensamento, incutindo na cabeça do trabalhador que ele está sendo agraciado pelo excesso de trabalho que lhe impõem.
Assumo doravante, em caráter generalista para fins de economia argumentativa, que todo empregador seja um explorador do homem, sem que seja necessário explicar, todas as vezes em que eu fizer alusão ao empregador e ao empresariado, que eu deva lembrar que existem aqueles de visão humanista, que reconhecem o valor dos seus subordinados e os veem como pessoas e não como máquinas.
O empresariado capitalista busca o lucro, fato. Necessita, para isto, fazer sua balança pender sempre para o lado da receita, deixando mais leve o lado dos gastos. Para isto, busca utilizar insumos mais baratos, mão obra mais barata, reduzir o quadro de pessoal para enxugar a folha de pagamento.
Consequentemente, passa a ser recorrente a queixa de que a quantidade de atividades impostas ao funcionário é excessiva para ser cumprida na carga horária pela qual ele é pago para trabalhar.
E é aqui que experimentamos o lado mais cruel da realidade corporativa. Você é ensinado que sua definição se mede pelo trabalho que você exerce. Logo, a qualidade do seu trabalho traduz o seu próprio valor como pessoa. E quando você não sabe o que é causa e o que é consequência, enxergando apenas uma intersecção entre o que você é e o que você faz, passa a ser levado a crer que toda responsabilidade sobre tudo o que você faz decorre do que você é.
Se o seu trabalho fracassa, é porque você não se dedica o suficiente. Se você se atrasa na execução de uma atividade, é porque não otimiza seu tempo satisfatoriamente. Se você se cansa, é porque não se prepara para trabalhar sob pressão. Para o sistema aqui explanado, se você não dá conta, nunca é porque lhe impõem um fardo maior do que alguém pode carregar. É culpa sua. Apenas sua. Quem adora essa ideia são os coaches, profissionais da moda que são pagos para te ensinar o que já lhe empurram diariamente goela abaixo. Sou capaz de apostar que não foram poucas as vezes em que você viu anúncios do tipo "Cansado de procrastinar? Nós te ensinamos a administrar seu tempo". Sim, porque, neste sistema massacrante, novamente é você - e só você - o responsável pelo que te acontece.
Diariamente, sou bombardeado por "mensagens de estímulo" do tipo "não reclame da sua vida, trabalhe para mudá-la", "o sucesso demanda esforço", "se não quer fracassar, durma menos, trabalhe mais". Trabalhe, trabalhe, trabalhe, trabalhe, trabalhe. Até que não sobre mais nada de você. Vemos o trabalho por todos os lados, sempre esfregados na nossa cara como algo dignificador do homem, ou mais, como determinante de sua  própria identidade.
Nossa sociedade, etnocêntrica, insiste em criticar alguns grupos tidos como primitivos, a exemplo de certas aldeias indígenas, arguindo que seus membros são preguiçosos (e esta palavra nunca vem de forma não pejorativa), que não trabalham, que não produzem, que não acumulam. Temos até uma palavrinha emprestada do inglês para definir o oposto disto, usada para nomear a pessoa que vive em função do seu trabalho e raramente é mal vista por isto: workaholic. O workaholic passa a ser um modelo de conduta, não importando a quem o vê como um exemplo a ser seguido a sua ausência do meio familiar, as horas passadas longe dos filhos, a saúde sacrificada pela falta de horas dormidas.
Ao contrário, o empregador vende a imagem de que ser um viciado em trabalho é algo excelente. E tão excelente que qualquer forma de questionamento desta premissa será reprovável. Você automaticamente será alçado à categoria de preguiçoso se começar a questionar os prejuízos pessoais decorrentes do excesso de trabalho. Anda de mãos dadas com este pensamento, como uma espécie de venda casada, a pior faceta desse sistema: a ditadura da felicidade e do necessário combate à negatividade.
Não basta a exploração à qual o empregado é submetido com excesso de trabalho, carga horária apertada, cobrança, pressão, exigência de que sua vida esteja inteiramente à disposição do seu ambiente de trabalho, seu celular conectado ao seu e-mail, os famigerados grupos de trabalhos em aplicativos de mensagem instantânea, os acessos remotos gentilmente disponibilizados pelo empregador para que ele trabalhe de casa em fim de semana ou madrugada adentro. Não basta. O funcionário ainda deve estar sempre sorridente e grato por ter sua existência corrompida. Deve irradiar a maldição da positividade, demonstrando entusiasmo por cada tarefa a mais que lhe é atribuída. Afinal, ao empregado que reclama não é dada sequer a presunção de seu real interesse é o de exercer uma atividade de excelência e contribuir com melhores resultados. Em vez disso, a este empregado é apenas atribuída a responsabilidade (mais uma) de ser uma influência negativa aos colegas. Só. O mundo corporativo te quer sorrindo. O contrário disto será apenas uma forma de diminuir o moral da equipe. Uma influência nefasta capaz de prejudicar o bom andamento dos trabalhos. E o empregado deve estar feliz e grato por mais uma oportunidade de integrar aquele ambiente.
Oportunidade. Essa é a palavra coringa, o dois de paus usado no jargão corporativo para mostrar que você não pode revelar jamais sua insatisfação. O empresário determina que você abrace mais tarefas do que aquelas que você já tem e não consegue cumprir com sua jornada diária? Em sua visão egoísta, que te vê como uma peça substituível de uma engrenagem que deve se manter em movimento, é uma oportunidade que está sendo oferecida para você mostrar que pode, que é capaz. O empresário cria grupos estratégicos para que você os integre, com o objetivo de pensarem soluções para problemas diários e recorrentes em sua atividade, mas te lembra que você deverá dispor de alguma horas semanais que não serão descontadas da sua jornada diária. Afinal, você é que deve se organizar para usufruir dessa oportunidade que lhe está sendo oferecida. Trabalhe mais rápido, mas sem perder a qualidade, e aproveite essa chance. O chefe precisa de você para cobrir o funcionário afastado por auxílio-doença, mas não te libera das suas tarefas normais? Eis uma oportunidade que a empresa está lhe dando de adquirir mais conhecimentos exercendo uma tarefa a mais que você passará a dominar.
E te fazem questão de mostrar que essa oportunidade que lhe dão é para poucos. Lá fora há uma fila de gente que também acredita precisar de uma definição embasada em sua atividade laboral, esperando essa mesma oportunidade. Esse é o pensamento do empregador. E o dano existencial? Para o mundo corporativo, não existe. Dane-se a sua existência. Ao final, tomado por estafa, estresse, esgotamento físico e mental, você ainda pode infartar. Mas, se for morrer, por favor, deixe sua agenda cumprida. Obrigado.

O mal do século


(Originalmente postado no meu Facebook, em 22.11.2017)

Faço parte de uns grupos no Facebook, com diferentes temáticas, como poliamor, combate à homofobia, empoderamento de minorias, combate ao machismo, etc. Vez ou outra, nestes grupos, surgem brincadeirinhas fora da discussão, no intuito de fomentar a interatividade entre os membros, tipo "comenta sua idade, e quem curtir tem interesse em você", "fale sobre seu signo, quem tiver interesse comenta no seu comentário", "beija o de cima ou arrisca no próximo?" E outras coisinhas bobas do tipo. Muitas das quais, visando à formação de casais ou de amigos dentro dos grupos.

Não critico as brincadeiras. Até gosto, acho divertido promover a harmonia dos membros, inclusive dando uma ajudinha para o cupido de plantão.  No entanto, tenho percebido que este tipo de postagem incentivando a interatividade entre a galera não tem sido muito frutífera. Porque tem faltado exatamente uma interação efetiva.

É divertidinho comentar que está solteiro e aguardar pessoas dizendo "então me pega", ou postar um retrato e falar sobre os próprios atributos pessoais, como em aplicativos de pegação, aguardando que candidatos à vaga num coração vazio apareçam. Mas, a impressão que tenho tido é a de que somos todos uma geração permanentemente carente, um monte de pessoas solitárias, que se queixam por estarem sós, mas que não se propõem a olhar para o lado.

O que sempre vejo é que a maioria das pessoas posta seu próprio comentário, vendendo seu peixe no mercado, mas não se dá o trabalho de olhar, curtir, comentar o post do outro. Como se todos se queixassem por estarem sozinhos, mas ninguém tomasse uma iniciativa efetiva para interagir com o outro. É meio assustador ver tanta gente se queixando por ser sozinha, por querer um namorado ou namorada, uma embaixo da outra, mas ninguém comentando no post um do outro, como se nem ao menos tivesse lido o que já havia sido postado antes do seu próprio comentário.

É como se o mundo girasse em torno apenas do nosso próprio umbigo, fazendo apenas com que aguardemos a curtida do outro, o comentário do outro, o elogio do outro, mas nós mesmos não nos esforçamos para curtir o outro, comentar o outro. Apenas aguardamos. Aguardamos a curtida, aguardamos o elogio, aguardamos o comentário. E assim, cresce o número de pessoas solitárias, enquanto mensagens, fotos e autopropagandas se perdem em meio à sobrecarga de comentários seguintes.

A música Esperando Por Mim, da Legião Urbana tem uma frase muito condizente com esta realidade: "Digam o que disserem, o mal do século é a solidão. Cada um de nós imerso em sua própria arrogância, esperando por um pouco de afeição."

É estranho que, com tanta gente sozinha, querendo um "mozão", todas reunidas num mesmo ambiente, nenhum par se forme. Cadê aquela iniciativa do "se organizar direitinho, todo mundo transa"? Vale também para o amor: "se organizar direitinho, todo mundo ama". Urge que se busquem uns aos outros, em vez apenas de  esperar que o outro o faça.

Circula pela Internet um texto, desses chatos, de reflexão e autoajuda, que descreve o Inferno como uma grande mesa com um banquete, à qual, segurando talheres de cabos imensos, sentam-se os comensais, todos famintos, pois não conseguem virar os talheres em direção à própria boca, tendo em vista o comprimento de cada talher. E descreve o Paraíso como a mesma mesa, com o mesmo banquete e os mesmos talheres, mas os comensais, em vez de pensarem somente em si e passarem fome, alimentam uns aos outros.

Vejo que a analogia também funciona para a situação dos grupos. A solidão às vezes me parece como o Inferno do conto, no qual cada um olha tanto para o próprio umbigo, que se perde em si mesmo, sem conseguir ver o outro ao seu lado.

Se olhassem todos ao redor, cada qual estaria menos sozinho. Vivemos a cultura da solidão, revelada na recusa a dar atenção com quem puxa papo conosco na fila do mercado, ou na cara feia que fazemos quando alguém ocupa o assento ao nosso lado no ônibus. E seguimos permanentemente reclamando dos dias vazios, da ausência de amigos, de amores, de emoções.