Ela entrou com o bebê no colo. Ele nunca foi um homem bom. Fazia um julgamento de si próprio desprovido de falsa modéstia e acreditava-se com o caráter um nível acima do da grande maioria dos indivíduos e nutria um notório desprezo contra aquilo que se chamava “raça humana”. Não sentia raiva do indivíduo ao seu lado, mas desprezava o grupo de todos os indivíduos que estavam ao seu lado e dentro do qual se inseria. Não se achava bom. Supunha, sim, que a raça humana é que estava a um passo atrás de si. “As pessoas são más”, dizia a si mesmo e, sem se acreditar bom, tinha apenas a impressão de que agia com o mínimo de postura com que deveriam agir todos. Pouco se importava com o maniqueísmo da espiritualidade, mas encontrava em Immanuel Kant um grande aliado. Ele sempre sonhou em mudar o mundo, embora nunca tivesse se dado ao trabalho de acreditar nesta possibilidade. E para não sucumbir por sua falta de fé, ele nunca deixou de desejar. Com tudo que podia. Se o fizesse, acabaria por atirar no próprio ouvido. Perdera a esperança que nem mesmo depositara no homem e desprezava-o por isto. Mesmo assim, tentava praticar boas ações, sempre repetindo para si mesmo: “não é mais que minha obrigação; é o mínimo que todos deveriam fazer.”
Era egoísta e por isto praticava o que diziam ser o bem, o que para ele era só mais uma faceta do seu próprio olhar sobre si mesmo por desejar estar em consonância com seus próprios valores e isto lhe dava prazer. Era a busca por este prazer que o fazia praticar um ato em prol da mesma humanidade da qual não se enxergava como membro, embora o fosse. Não acreditava em altruísmo despropositado, porque no âmago todos fazem algo visando à própria satisfação pessoal. Sua consciência nunca lhe pesou por pensar assim. Pelo contrário, sempre achou bom que existissem pessoas capazes de sentir o tal prazer de ver o bem do próximo e correrem atrás dele. Isso tornava o mundo um lugar um pouco menos insuportável.
Ao vê-la desajeitada segurando aquela criança, ele percebeu que ela era, evidentemente, evangélica. Lutara sempre consigo mesmo para abolir preconceitos e ideias pré fabricadas que costumeiramente conduziam à intolerância e, por esta razão, nunca gostou de conceitos limitantes, tais como “cara de crente”, “jeito de gay” ou “ar da bandido”... “Gay, crente e bandido não têm cara”, dizia. Mas, naquele momento, contra seus princípios, ele teve a certeza de que ela era evangélica, afinal, ela trajava uma sóbria camisa de manga longa e usava uma saia na altura do tornozelo, a despeito do calor escaldante que mordia a cidade com suas presas pontiagudas. Sem se dar conta de que ele mesmo trajava um terno, como trajam os pastores, ele teve a absoluta certeza de que ela era evangélica.
Naquele momento, ele não pensou na resistência que nutria contra crianças e na própria intolerância que tinha em relação a cristãos – mais um preconceito seu do qual ele tinha consciência e o qual tentava não alimentar. Apiedou-se dela. Não por bondade, que ele não era dado a este tipo de pieguice. Apiedou-se porque ele mesmo era arrogante. E viu apenas uma mulher em uma sociedade de homens, uma negra em uma sociedade de brancos e uma evangélica. E também por vê-la obrigar-se a segurar uma criança no colo enquanto lutava para entrar naquele vagão repleto daquilo que ele desprezava: gente.
Mas nada do seu desprezo passou por sua cabeça naquele momento. Não pensou no quão impaciente as crianças normalmente o tornam. Não pensou em todos os embates ideológicos que já travara com um cristão. E assim, sem pensar em nada, mecanicamente, levantou-se e ofereceu-lhe seu lugar. "Jesus lhe abençoe", ela disse, confirmando suas suspeitas. Somente então perguntou-se se ela teria aceitado a sua oferta e sentado no lugar que ele lhe cedera se soubesse que ele era ateu. Divertiu-se com este pensamento e sorriu. Fechou os olhos e prosseguiu sua viagem em pé.
quarta-feira, 29 de fevereiro de 2012
quarta-feira, 28 de dezembro de 2011
Ele não me fez falta.
Em diálogo com um amigo que vem valentemente enfrentando um Linfoma Não Hodgkin, e por cuja recuperação torço sinceramente, fui questionado se eu nunca me senti solitário durante todo o período em que venho enfrentando/enfrentei meu Carcinoma pelo fato de eu ser ateu e, consequentemente, não depositar a esperança da minha cura em um “ser superior” que estivesse velando por mim. Em resposta, disse-lhe que não. E uma série de pensamentos me ocorreu de forma atabalhoada, quase me impedindo de seguir adiante na conversa, em razão da dificuldade de transpô-los ordenadamente em palavras.
De fato, não me senti sozinho durante meu tratamento e nas ocasiões das cirurgias a que tive de me submeter. Em todos estes momentos, contei com uma equipe médica bem preparada, o que, por razões óbvias para mim, é o principal! Ademais, contei com o apoio de amigos e da família, o que me impediu de sucumbir quando o medo, a dor e a tristeza bateram algumas vezes a minha porta.
Não. Deus não fez a menor falta! Até mesmo porque, ad argumentandum tantum, partindo do pressuposto hipotético de que ele realmente exista e de que nada no Universo acontece sem sua intervenção onipotente, o fato de eu ter desenvolvido uma neoplasia maligna supostamente foi uma vontade divina, seja lá quais forem os motivos que ele tenha tido para desejar minha doença... Não adentrarei neste mérito. Prosseguindo, Deus não fez falta, basicamente por dois motivos: o primeiro é que se ele teve a presença de espírito (para não dizer “espírito de porco” ou “fogo no rabo”) de me colocar um câncer, não acredito que ele se importaria muito com meu sofrimento, tampouco estivesse preocupado em me curar; segundo, porque se ele me proporcionou algo tão ruim como a doença, sou rancoroso demais para querer alguém como ele por perto, a não ser que eu tivesse a oportunidade de quebrar sua cara com um soco.
Como uma coisa acarreta outra, uma outra ideia que me ocorreu durante minha conversa com meu amigo foi que não há um critério baseado na fé para assegurar quem vai ser curado e quem não vai. Crentes e ateus sofrem com doença. Crentes e ateus morrem de câncer. Crentes e ateus morrem em paz. Crentes e ateus morrem a custa de muita dor. Crentes e ateus se curam. Crentes e ateus têm recidiva... Enfim, se a doença tiver que sumir de dentro de você, sumirá, com ou sem a sua fé na salvação de sua alma. Se a doença tiver que te matar, matará, com ou sem a sua fé na salvação de sua alma.
Penso como deve ser triste àquelas pessoas que contaram com Deus para sua cura, mas acabaram morrendo! Como deve ser sido decepcionante aos que ficaram e carregam a certeza de que não puderam contar com ele, mesmo tendo pedido tanto. O fato é que eu me sentiria menos enganado se eu morresse sem ter depositado minha esperança em alguém que, supostamente poderia me curar e não curou!
Honestamente, para mim, vale mais contar com os médicos, mesmo sabendo que muitas vezes eles não conseguem nos salvar. Alivia pensar que eles fazem o possível! Vale mais contar com a família e os amigos. Ainda que eles não tenham o poder de nos curar, senti-me bem mais seguro em meio aos que me amam e que se esforçaram para reduzirem de alguma forma os incômodos que a doença trouxe. Estes sim tiveram importância crucial para me ajudarem a lidar com o câncer!
E Deus, quem é? É aquele que poderia me manter saudável, mas preferiu macular meu corpo com um tumor maligno? É aquele que poderia ter me tirado as dores que a radioterapia me causou, mas preferiu permanecer omisso, agravando-me os sintomas com as queimaduras na minha pele e as feridas na minha garganta? É aquele que poderia me tirar as náuseas e azias decorrentes da quimioterapia, mas preferiu pagar para ver o quanto eu vomitaria? É aquele que poderia manter intacto o meu paladar, mas preferiu extirpar de mim o meu maior prazer, que é o de comer? É... Ele não me fez a menor falta!
De fato, não me senti sozinho durante meu tratamento e nas ocasiões das cirurgias a que tive de me submeter. Em todos estes momentos, contei com uma equipe médica bem preparada, o que, por razões óbvias para mim, é o principal! Ademais, contei com o apoio de amigos e da família, o que me impediu de sucumbir quando o medo, a dor e a tristeza bateram algumas vezes a minha porta.
Não. Deus não fez a menor falta! Até mesmo porque, ad argumentandum tantum, partindo do pressuposto hipotético de que ele realmente exista e de que nada no Universo acontece sem sua intervenção onipotente, o fato de eu ter desenvolvido uma neoplasia maligna supostamente foi uma vontade divina, seja lá quais forem os motivos que ele tenha tido para desejar minha doença... Não adentrarei neste mérito. Prosseguindo, Deus não fez falta, basicamente por dois motivos: o primeiro é que se ele teve a presença de espírito (para não dizer “espírito de porco” ou “fogo no rabo”) de me colocar um câncer, não acredito que ele se importaria muito com meu sofrimento, tampouco estivesse preocupado em me curar; segundo, porque se ele me proporcionou algo tão ruim como a doença, sou rancoroso demais para querer alguém como ele por perto, a não ser que eu tivesse a oportunidade de quebrar sua cara com um soco.
Como uma coisa acarreta outra, uma outra ideia que me ocorreu durante minha conversa com meu amigo foi que não há um critério baseado na fé para assegurar quem vai ser curado e quem não vai. Crentes e ateus sofrem com doença. Crentes e ateus morrem de câncer. Crentes e ateus morrem em paz. Crentes e ateus morrem a custa de muita dor. Crentes e ateus se curam. Crentes e ateus têm recidiva... Enfim, se a doença tiver que sumir de dentro de você, sumirá, com ou sem a sua fé na salvação de sua alma. Se a doença tiver que te matar, matará, com ou sem a sua fé na salvação de sua alma.
Penso como deve ser triste àquelas pessoas que contaram com Deus para sua cura, mas acabaram morrendo! Como deve ser sido decepcionante aos que ficaram e carregam a certeza de que não puderam contar com ele, mesmo tendo pedido tanto. O fato é que eu me sentiria menos enganado se eu morresse sem ter depositado minha esperança em alguém que, supostamente poderia me curar e não curou!
Honestamente, para mim, vale mais contar com os médicos, mesmo sabendo que muitas vezes eles não conseguem nos salvar. Alivia pensar que eles fazem o possível! Vale mais contar com a família e os amigos. Ainda que eles não tenham o poder de nos curar, senti-me bem mais seguro em meio aos que me amam e que se esforçaram para reduzirem de alguma forma os incômodos que a doença trouxe. Estes sim tiveram importância crucial para me ajudarem a lidar com o câncer!
E Deus, quem é? É aquele que poderia me manter saudável, mas preferiu macular meu corpo com um tumor maligno? É aquele que poderia ter me tirado as dores que a radioterapia me causou, mas preferiu permanecer omisso, agravando-me os sintomas com as queimaduras na minha pele e as feridas na minha garganta? É aquele que poderia me tirar as náuseas e azias decorrentes da quimioterapia, mas preferiu pagar para ver o quanto eu vomitaria? É aquele que poderia manter intacto o meu paladar, mas preferiu extirpar de mim o meu maior prazer, que é o de comer? É... Ele não me fez a menor falta!
terça-feira, 20 de dezembro de 2011
Yhwh: O precursor do terrorismo
Mais um ano caminha em direção ao seu fim e todo aquele ritual característico do mês de dezembro começa a ser observado no comportamento geral das pessoas. Em todos os cantos, todos correm pelas lojas em busca de presentes e pelos mercados em busca do maior peru. As agendas ficam lotadas com tantas reuniões e confraternizações que, rotineiramente, acabam no famigerado “Amigo Oculto”, o qual sempre deixa insatisfeito um considerável percentual do grupo em questão. Há sempre um exagero nas ornamentações de gosto duvidoso, com uma infinidade de luzes e cores, que configuram poluição visual sem fim, mas que todo mundo ama. Há homens gorduchos vestidos com inexplicáveis casacos vermelhos, que devem ter sido bastante úteis na última glaciação, mas, que se afiguram completamente desprovidos de sentido no verão escaldante destas paragens tupiniquins. E há ainda as mobilizações sociais para arrecadação de donativos a serem distribuídos para grupos menos favorecidos, que, muito provavelmente, só são lembrados nesta época do ano.
De outro lado, há sempre um grupo ávido pela discórdia, pronto para estragar o prazer alheio, insistindo em propagar que tudo isso é vão e que a verdadeira razão de ser do Natal é celebrar o nascimento de Jesus Cristo (que nasceu 7 anos a. C.!) e que todo o mais não passa de armadilha do Demônio do Capitalismo, filho mais velho de Satanás, que insiste em desvirtuar pessoas de bem do Verdadeiro Caminho (assim mesmo, com letra maiúscula, em sinal de reverência ao caminho – na verdade um desfiladeiro – que supõem ser a única opção válida). São os crentes! Os filhos de Deus! E faço questão de deixar claro que o termo “crente” aqui está tomado na sua acepção mais ampla, não se confundindo com “evangélico”, “religioso”, “cristão” ou qualquer outra designação restritiva de fé. É um clichê, mas para evitar comprar uma briga desnecessária com grupos que apregoam o politicamente correto, explicito aqui o conceito: crente é quem crê, é sinônimo de crédulo. Melhor assim.
Hoje, há poucas horas atrás, em conversa com uma amiga crédula, declarei-me ateu e ouvi a pergunta “por qual razão você é ateu?”. Antes de responder, por se tratar de um diálogo com uma pessoa com quem possuo um mínimo de intimidade e nutro um mínimo de estima, senti-me à vontade para brincar, munindo-me de uma suposta intolerância ateísta (que, aliás, também não me agrada em nada, porque qualquer forma de fundamentalismo me preocupa), revidei, num fingido tom agressivo: “por qual razão você crê? Ou melhor, por que você crê? Porque quem crê já não tem razão!”. Rimos da guerra ideológica e encerramos a contenda ali mesmo, com ambas as perguntas deixadas sem resposta.
Mas, confesso que, como ateu declarado há pelo menos 15 anos, começo a achar que são clichês as mesmas perguntas tantas vezes repetidas por mim e pelos meus pares como “porque crer?”, mas, ainda assim, não consigo deixar de fazê-las! E uma das coisas que mais me intriga na fé cega (que é realmente uma faca amolada) é quando eu escuto que “Deus é bom”.
Este raciocínio me atormentou durante um bom tempo, quando, anos atrás, assistindo ao desenho animado “O Príncipe do Egito”, cheguei a uma conclusão: “Deus é um terrorista!”, exclamei em um volume alto o suficiente para deixar minha irmã evangélica e minha mãe horrorizadas com a heresia proferida.
Em um excelente conceito extraído da Wikipedia, terrorismo é o uso de violência, física ou psicológica, através de ataques localizados a elementos ou instalações de um governo ou da população governada, de modo a incutir medo, terror, e assim obter efeitos psicológicos que ultrapassem largamente o círculo das vítimas, incluindo, antes, o resto da população do território. Trata-se de uma forma de coação das aglomerações sociais para se colocar em prática aquilo que se quer propagar, seja de cunho religioso, político, étnico, ou qualquer outra forma de ideologia, normalmente incutindo o pânico nas pessoas inocentes, para que os grupos que detém o poder possam realizar a vontade do grupo que pratica o terror.
Assim, como exemplo de terrorista, posso citar o grupo separatista Euskadi Ta Askatasuna (ou simplesmente ETA, sigla para “Pátria Basca e Liberdade”, no idioma basco) que, visando ao seu desmembramento do restante da Espanha com a criação de um país basco, desde 1959 vem pressionando o governo espanhol através de luta armada e ataques a civis. Da mesma forma, as Forças Armadas Revolucionárias da Colômbia, as FARC, que, visando à implantação do sistema socialista na Colômbia, pressionam o governo, através de sequestros e homicídios. E o que dizer da Al-Qaeda, grupo fundamentalista islâmico, liderado por Osama Bin Laden, que, em combate ao imperialismo norte-americano, deixou boquiaberto o mundo ao lançar aviões sobre o World Trade Center, causando a morte de pessoas inocentes, que sequer tinham relações com o governo dos Estados Unidos!
É comum vermos toda a gente horrorizada com tais práticas, perguntando-se como é possível que tantos inocentes paguem pelos atos dos grupos terroristas que, pretendendo mobilizar governos, atacam-nos, mesmo que com eles sequer guardem relações!
Trata-se de uma prática antiga. Muito antiga. Em minha palavra de leigo, tenho como o mais antigo registro de terrorismo o livro do Êxodo, capítulo 3, versículos 19 e 20, que assim narrou: “Eu sei que o rei do Egito não os deixará sair, a não ser que uma poderosa mão o force. Por isso estenderei a minha mão e ferirei os egípcios com todas as maravilhas que realizarei no meio deles. Depois disso ele os deixará sair.”
Segundo a Mitologia Bíblica, ninguém mais que o próprio Deus, o mesmo que lá em cima me disseram que era bom, escolheu o povo hebreu como herdeiro da Terra Prometida de Canaã, ordenando a Moisés que convencesse o faraó a libertá-lo, eis que se encontrava escravizado no Egito. Quando Moisés perguntou como faria para convencer o faraó, com a naturalidade de quem responde as horas, Jeová teria respondido que causaria feridas aos egípcios e que isto o convenceria.
E assim, vieram as Dez Pragas do Egito, que culminaram na morte dos primogênitos descrita em Êxodo 12:29-30: “Então, à meia-noite, o Senhor matou todos os primogênitos do Egito, desde o filho mais velho do faraó, herdeiro do trono, até o filho mais velho do prisioneiro que estava no calabouço, e também todas as primeiras crias do gado. No meio da noite o faraó, todos os seus conselheiros e todos os egípcios se levantaram. E houve grande pranto no Egito, pois não havia casa que não tivesse um morto.”
A pergunta que nunca deixo de fazer é a de que se Deus é onipotente, não seria mais prático mudar a opinião do faraó, poupando a vida do “filho mais velho do prisioneiro que estava no calabouço”, que nada tinha a ver com a dominação dos hebreus? Ou, sem adentrar o mérito de sua questionável bondade e benevolência, e toda a ausência de lógica daí decorrente, se Yahweh precisava tanto satisfazer sua sanha assassina, porque não matar apenas o faraó? Ou apenas o seu filho mais velho? Para que levar “grande pranto” ao Egito?
Honestamente, se vejo alguma diferença entre o terrorismo de Alfonso Cano, Osama Bin Laden e Gilmar António e o de Javé é porque este último, supostamente onipotente, poderia dispor de outras estratégias para alcançar seu objetivo maior e se delas não fez uso, tal fato somente se explica por um prazer mórbido na destruição e na dor alheia.
Recentemente o ETA anunciou o fim da guerrilha, partindo para o diálogo e a diplomacia. As FARC não chegaram ao mesmo nível de civilidade, mas negociaram a libertação de vários prisioneiros, demonstrando certa relativização de seus métodos, ainda que sutil. Enquanto isso, para o futuro, o profeta João Batista nos diz, em Apocalipse 14:18-19: “Declaro a todos os que ouvem as palavras da profecia deste livro: Se alguém lhe acrescentar algo, Deus lhe acrescentará as pragas descritas neste livro. Se alguém tirar alguma palavra deste livro de profecia, Deus tirará dele a sua parte na árvore da vida e na cidade santa, que são descritas neste livro.”
Parece-me que a vingança será sempre a primeira opção para a Yhwh. E diante disto tudo, continuo seguindo meus passos de ateu, perguntando “qual a razão de crer?”, ou melhor, “porque crer?”
Porque quem crê, se o faz, é porque há muito já perdeu sua razão!
De outro lado, há sempre um grupo ávido pela discórdia, pronto para estragar o prazer alheio, insistindo em propagar que tudo isso é vão e que a verdadeira razão de ser do Natal é celebrar o nascimento de Jesus Cristo (que nasceu 7 anos a. C.!) e que todo o mais não passa de armadilha do Demônio do Capitalismo, filho mais velho de Satanás, que insiste em desvirtuar pessoas de bem do Verdadeiro Caminho (assim mesmo, com letra maiúscula, em sinal de reverência ao caminho – na verdade um desfiladeiro – que supõem ser a única opção válida). São os crentes! Os filhos de Deus! E faço questão de deixar claro que o termo “crente” aqui está tomado na sua acepção mais ampla, não se confundindo com “evangélico”, “religioso”, “cristão” ou qualquer outra designação restritiva de fé. É um clichê, mas para evitar comprar uma briga desnecessária com grupos que apregoam o politicamente correto, explicito aqui o conceito: crente é quem crê, é sinônimo de crédulo. Melhor assim.
Hoje, há poucas horas atrás, em conversa com uma amiga crédula, declarei-me ateu e ouvi a pergunta “por qual razão você é ateu?”. Antes de responder, por se tratar de um diálogo com uma pessoa com quem possuo um mínimo de intimidade e nutro um mínimo de estima, senti-me à vontade para brincar, munindo-me de uma suposta intolerância ateísta (que, aliás, também não me agrada em nada, porque qualquer forma de fundamentalismo me preocupa), revidei, num fingido tom agressivo: “por qual razão você crê? Ou melhor, por que você crê? Porque quem crê já não tem razão!”. Rimos da guerra ideológica e encerramos a contenda ali mesmo, com ambas as perguntas deixadas sem resposta.
Mas, confesso que, como ateu declarado há pelo menos 15 anos, começo a achar que são clichês as mesmas perguntas tantas vezes repetidas por mim e pelos meus pares como “porque crer?”, mas, ainda assim, não consigo deixar de fazê-las! E uma das coisas que mais me intriga na fé cega (que é realmente uma faca amolada) é quando eu escuto que “Deus é bom”.
Este raciocínio me atormentou durante um bom tempo, quando, anos atrás, assistindo ao desenho animado “O Príncipe do Egito”, cheguei a uma conclusão: “Deus é um terrorista!”, exclamei em um volume alto o suficiente para deixar minha irmã evangélica e minha mãe horrorizadas com a heresia proferida.
Em um excelente conceito extraído da Wikipedia, terrorismo é o uso de violência, física ou psicológica, através de ataques localizados a elementos ou instalações de um governo ou da população governada, de modo a incutir medo, terror, e assim obter efeitos psicológicos que ultrapassem largamente o círculo das vítimas, incluindo, antes, o resto da população do território. Trata-se de uma forma de coação das aglomerações sociais para se colocar em prática aquilo que se quer propagar, seja de cunho religioso, político, étnico, ou qualquer outra forma de ideologia, normalmente incutindo o pânico nas pessoas inocentes, para que os grupos que detém o poder possam realizar a vontade do grupo que pratica o terror.
Assim, como exemplo de terrorista, posso citar o grupo separatista Euskadi Ta Askatasuna (ou simplesmente ETA, sigla para “Pátria Basca e Liberdade”, no idioma basco) que, visando ao seu desmembramento do restante da Espanha com a criação de um país basco, desde 1959 vem pressionando o governo espanhol através de luta armada e ataques a civis. Da mesma forma, as Forças Armadas Revolucionárias da Colômbia, as FARC, que, visando à implantação do sistema socialista na Colômbia, pressionam o governo, através de sequestros e homicídios. E o que dizer da Al-Qaeda, grupo fundamentalista islâmico, liderado por Osama Bin Laden, que, em combate ao imperialismo norte-americano, deixou boquiaberto o mundo ao lançar aviões sobre o World Trade Center, causando a morte de pessoas inocentes, que sequer tinham relações com o governo dos Estados Unidos!
É comum vermos toda a gente horrorizada com tais práticas, perguntando-se como é possível que tantos inocentes paguem pelos atos dos grupos terroristas que, pretendendo mobilizar governos, atacam-nos, mesmo que com eles sequer guardem relações!
Trata-se de uma prática antiga. Muito antiga. Em minha palavra de leigo, tenho como o mais antigo registro de terrorismo o livro do Êxodo, capítulo 3, versículos 19 e 20, que assim narrou: “Eu sei que o rei do Egito não os deixará sair, a não ser que uma poderosa mão o force. Por isso estenderei a minha mão e ferirei os egípcios com todas as maravilhas que realizarei no meio deles. Depois disso ele os deixará sair.”
Segundo a Mitologia Bíblica, ninguém mais que o próprio Deus, o mesmo que lá em cima me disseram que era bom, escolheu o povo hebreu como herdeiro da Terra Prometida de Canaã, ordenando a Moisés que convencesse o faraó a libertá-lo, eis que se encontrava escravizado no Egito. Quando Moisés perguntou como faria para convencer o faraó, com a naturalidade de quem responde as horas, Jeová teria respondido que causaria feridas aos egípcios e que isto o convenceria.
E assim, vieram as Dez Pragas do Egito, que culminaram na morte dos primogênitos descrita em Êxodo 12:29-30: “Então, à meia-noite, o Senhor matou todos os primogênitos do Egito, desde o filho mais velho do faraó, herdeiro do trono, até o filho mais velho do prisioneiro que estava no calabouço, e também todas as primeiras crias do gado. No meio da noite o faraó, todos os seus conselheiros e todos os egípcios se levantaram. E houve grande pranto no Egito, pois não havia casa que não tivesse um morto.”
A pergunta que nunca deixo de fazer é a de que se Deus é onipotente, não seria mais prático mudar a opinião do faraó, poupando a vida do “filho mais velho do prisioneiro que estava no calabouço”, que nada tinha a ver com a dominação dos hebreus? Ou, sem adentrar o mérito de sua questionável bondade e benevolência, e toda a ausência de lógica daí decorrente, se Yahweh precisava tanto satisfazer sua sanha assassina, porque não matar apenas o faraó? Ou apenas o seu filho mais velho? Para que levar “grande pranto” ao Egito?
Honestamente, se vejo alguma diferença entre o terrorismo de Alfonso Cano, Osama Bin Laden e Gilmar António e o de Javé é porque este último, supostamente onipotente, poderia dispor de outras estratégias para alcançar seu objetivo maior e se delas não fez uso, tal fato somente se explica por um prazer mórbido na destruição e na dor alheia.
Recentemente o ETA anunciou o fim da guerrilha, partindo para o diálogo e a diplomacia. As FARC não chegaram ao mesmo nível de civilidade, mas negociaram a libertação de vários prisioneiros, demonstrando certa relativização de seus métodos, ainda que sutil. Enquanto isso, para o futuro, o profeta João Batista nos diz, em Apocalipse 14:18-19: “Declaro a todos os que ouvem as palavras da profecia deste livro: Se alguém lhe acrescentar algo, Deus lhe acrescentará as pragas descritas neste livro. Se alguém tirar alguma palavra deste livro de profecia, Deus tirará dele a sua parte na árvore da vida e na cidade santa, que são descritas neste livro.”
Parece-me que a vingança será sempre a primeira opção para a Yhwh. E diante disto tudo, continuo seguindo meus passos de ateu, perguntando “qual a razão de crer?”, ou melhor, “porque crer?”
Porque quem crê, se o faz, é porque há muito já perdeu sua razão!
quarta-feira, 23 de novembro de 2011
O Gado da Central
Não se pode dizer que desde sempre essa gente se porta como gado, sem capacidade de tomar decisão, sem organização do poder que lhe cabe, de forma a permitir melhoras e benfeitorias em sua existência vazia e desinteressante, vivendo tão somente para satisfazer necessidades primárias, como alimentação, descanso e reprodução... Mas é inquestionável que a coisa vem de longa data, inspirando autores, músicos e poetas a comparar a vida humana à vida de gado... É assim na política, enfocando-se na condição de autômato do eleitor; é assim na educação, tomada em sua acepção mais estrita, enfocando-se o aluno que desenvolve estratagemas dos mais imorais para galgar os degraus formais da escola, sem se preocupar com sua capacidade de raciocinar; é assim no metrô...
Abrem-se os portões do curral chamado Central do Brasil e todo o gado entra em debandada... O Gado da Central não tem quatro patas. Não muge. Não come grama. Não tem chifres e tampouco sacode a cauda para espantar parasitas incômodos. O Gado da Central é a vaca que carrega uma bolsa a tiracolo, que fala ao celular e corre para não chegar atrasada em seu escritório. É o bezerro que ouve funk sem fone de ouvido e em volume altíssimo, obrigando todo o curral a compartilhar seu som de gosto duvidoso. É a novilha de cabelo escovado, cuja chapinha lentamente se desfaz e gruda em sua testa, que transborda suor, como consequência do tempo abrasador desta cidade quando o verão se aproxima de forma inexorável. É o touro engravatado, que enverga um terno sóbrio, revelando o quão superficial é o traje - mera embalagem que nada tem a ver com sinônimo de boa educação...
O movimento das reses tem vida própria e quando toca o sinal avisando que a próxima estação está a caminho, toda a manada dispara, empurrando, pressionando, pisoteando e ofendendo a rês ao lado, por estar ocupando um lugar que seria seu por direito absoluto, como se a condição daquele fosse menos tormentosa que a sua por estar ali. A porteira se abre e as cabeças mais fracas são empurradas para fora pelo fluxo que se evade do curral, enquanto pelo lado externo, o gado que entra pisoteia tudo em seu caminho, formando-se, por alguns segundos, uma linha de batalha aterrorizante, na qual há uma disputa para se definir se o movimento dominante será o da boiada que entra ou da boiada que sai.
Assusta saber que este mesmo gado figura no ápice da escala evolutiva, como a criatura superior a todas as outras, tendo alcançado o topo darwiniano, do qual não existe mais possibilidade de subida e crescimento. E, no entanto, porta-se como um ser primitivo, inserido nas condições mais aviltantes e sub-humanas, sem ao menos se utilizar do poder que possui - demonstrada por sua inquestionável capacidade de empurrar e tomar à força o espaço que era do outro - para exigir um meio de transporte mais digno. Sim, pois o gado não está feliz com sua condição. Deseja fugir do seu status quo, mas não consegue - ou não quer - imaginar como fazê-lo.
Se todo o Gado da Central do Brasil se unisse com a mesma voracidade com que se une para invadir o curral, objetivando não um lugar desconfortável dentro metrô, como se disto dependesse sua vida, mas um metrô funcional, dentro dos padrões técnicos internacionais, os responsáveis pela concessionária de transporte público seriam arremessados contra a parede com a mesma intensidade com a qual diariamente as reses lançam-se umas às outras. E assim, talvez, por um momento único de sua existência mecânica, o gado pudesse ser alçado à condição de gente.
Abrem-se os portões do curral chamado Central do Brasil e todo o gado entra em debandada... O Gado da Central não tem quatro patas. Não muge. Não come grama. Não tem chifres e tampouco sacode a cauda para espantar parasitas incômodos. O Gado da Central é a vaca que carrega uma bolsa a tiracolo, que fala ao celular e corre para não chegar atrasada em seu escritório. É o bezerro que ouve funk sem fone de ouvido e em volume altíssimo, obrigando todo o curral a compartilhar seu som de gosto duvidoso. É a novilha de cabelo escovado, cuja chapinha lentamente se desfaz e gruda em sua testa, que transborda suor, como consequência do tempo abrasador desta cidade quando o verão se aproxima de forma inexorável. É o touro engravatado, que enverga um terno sóbrio, revelando o quão superficial é o traje - mera embalagem que nada tem a ver com sinônimo de boa educação...
O movimento das reses tem vida própria e quando toca o sinal avisando que a próxima estação está a caminho, toda a manada dispara, empurrando, pressionando, pisoteando e ofendendo a rês ao lado, por estar ocupando um lugar que seria seu por direito absoluto, como se a condição daquele fosse menos tormentosa que a sua por estar ali. A porteira se abre e as cabeças mais fracas são empurradas para fora pelo fluxo que se evade do curral, enquanto pelo lado externo, o gado que entra pisoteia tudo em seu caminho, formando-se, por alguns segundos, uma linha de batalha aterrorizante, na qual há uma disputa para se definir se o movimento dominante será o da boiada que entra ou da boiada que sai.
Assusta saber que este mesmo gado figura no ápice da escala evolutiva, como a criatura superior a todas as outras, tendo alcançado o topo darwiniano, do qual não existe mais possibilidade de subida e crescimento. E, no entanto, porta-se como um ser primitivo, inserido nas condições mais aviltantes e sub-humanas, sem ao menos se utilizar do poder que possui - demonstrada por sua inquestionável capacidade de empurrar e tomar à força o espaço que era do outro - para exigir um meio de transporte mais digno. Sim, pois o gado não está feliz com sua condição. Deseja fugir do seu status quo, mas não consegue - ou não quer - imaginar como fazê-lo.
Se todo o Gado da Central do Brasil se unisse com a mesma voracidade com que se une para invadir o curral, objetivando não um lugar desconfortável dentro metrô, como se disto dependesse sua vida, mas um metrô funcional, dentro dos padrões técnicos internacionais, os responsáveis pela concessionária de transporte público seriam arremessados contra a parede com a mesma intensidade com a qual diariamente as reses lançam-se umas às outras. E assim, talvez, por um momento único de sua existência mecânica, o gado pudesse ser alçado à condição de gente.
segunda-feira, 21 de novembro de 2011
"Que era fácil se perder por entre sonhos..."
Dias atrás um amigo me enviou um link do Youtube, com uma recomendação: “Dá uma olhadinha nesse moço”. Era um vídeo de um cantor, até então meu completo desconhecido. Tratava-se de um videoclip gravado ao vivo, nos estúdios da Trama, em que um rapaz cabeludo com uma voz aguda cantava uma letra áspera e cruel, que comparava o amor a uma droga que invarialmente conduzia o homem à destruição: “E fui gostando do sabor daquela coisa/Viciando em cada verso que o amor veio trovar/Mas, de repente, uma farpa meio intrusa/Veio cegar minha emoção de suspirar (...)”.
Assim, fui apresentado ao Filipe Catto e à sua angustiante composição “Saga”. A identificação foi instantânea e por um momento não acreditei que aquela voz tão perfeita, em um timbre tipicamente "feminino" fosse emitida por aquele moço de uma geração musical tão nova, pela qual me habituei a não ser surpreendido com a percepção de talentos que ultrapassassem a barreira do mediano. Eu queria conhecê-lo mais.
No dia 10 de novembro, o palco do Studio RJ, o mesmo do antigo Jazzmania, que apresentou ao Brasil a cantora e compositora Marisa Monte no final dos aos 80, trouxe Filipe Catto pela primeira vez ao Rio de Janeiro, no show de lançamento do seu álbum “Fôlego”, produzido pela gravadora Universal, após a divulgação pelos meios virtuais de um disco independente, “Saga”.
Aos desavisados de plantão, que porventura tentarem limitar a uma comparação despropositada o contratenor Filipe Catto ao eterno Ney Matogrosso, em virtude dos seus naipes vocais, eu diria que não tentem. A falsa identificação decorrente do fato de que ambos são homens com "voz de mulher" - uma definição um tanto imprecisa, frise-se - esgota-se nesta única coincidência.
Com uma postura bem próxima a um público bastante entusiástico, Filipe Catto cantou o amor. Não aquele amor que proporciona finais felizes a casais apaixonados, mas o amor destrutivo, que corrói, que desgasta, que conduz os amantes à sordidez humana quando perdem o equilíbrio e deixam de lado a dignidade racional, trocando-a pela conduta passional e desmedida. Filipe Catto cantou a mulher infiel, que se regozija de poder trair o seu esposo, cantou o homem bruto, que espanca imotivadamente sua companheira, cantou o homem abandonado, que, sem qualquer esperança, busca alento na bebida e se destrói pelo vício, cantou a mulher submissa, que espera em casa por seu homem, pacientemente, enquanto ele se diverte em um lupanar qualquer.
Mesclando o repertório do seu álbum “Fôlego”, como as belíssimas “Crime Passional”, “Roupa do Corpo”, “Gardênia Branca”, com clássicos da música brasileira, como uma ligeira citação ao “Canto de Ossanha”, o artista cantou de forma arrebatadora, possuído pela música, como se se tratasse de uma entidade transcendental, uma força externa capaz de colocá-lo em um estado de transe catártico, fazendo-o dançar, gesticular de forma incisiva, ajoelhar-se, fechar os olhos e rodopiar, sem no entanto parecer exagerado ou clichê. O que se via no palco era pura emoção, traduzida nos arranjos conduzidos pelos músicos Adriano, Ramon, Deco e Fabá, na voz impecável e na presença carismática do cantor, compositor e, sobretudo, intérprete, que estava perceptivelmente feliz por poder se apresentar nos palcos cariocas, “já que sempre viu o Rio de Janeiro desde criança nas novelas, tendo-o como algo distante e inatingível”.
Em minha modesta opinião de leigo, posso dizer que o show foi inversamente proporcional àquele palco tão pequeno no qual foi apresentado, tratando-se do maior show do ano de 2011 nos palcos cariocas. Compartilhei com o Filipe a felicidade de estar no Rio de Janeiro e poder testemunhar um espetáculo de tamanha carga emotiva.
Pouco antes de morrer, Elis Regina, uma das maiores intérpretes que este país já produziu, declarou em uma entrevista que a feijoada havia sido feita por ela, Milton Nascimento, Gal Costa, Tom Jobim, Gilberto Gil e João Gilberto, e que depois desta geração fazia-se muito pastel, mas feijão mesmo, nunca mais, dando a entender que, o que viesse depois da sua geração estaria relegado a um segundo plano, a uma qualidade inferior, à mediocridade pelo constante surgimento de talentos medianos ou duvidosos...
Concordando até então com a Pimentinha, vim me entristecendo ao longo dos últimos anos com os talentos incipientes que o mercado vinha nos impondo, acreditando que a música brasileira caminhava para sua derrocada. Mas, depois de ouvir inúmeras vezes o álbum “Fôlego”, além do seu precursor, o single “Saga”, e de testemunhar uma apresentação ao vivo do talentosíssimo Filipe Catto, eu saí feliz daquele show, com a certeza de que a música popular brasileira ainda está salva.
Assim, fui apresentado ao Filipe Catto e à sua angustiante composição “Saga”. A identificação foi instantânea e por um momento não acreditei que aquela voz tão perfeita, em um timbre tipicamente "feminino" fosse emitida por aquele moço de uma geração musical tão nova, pela qual me habituei a não ser surpreendido com a percepção de talentos que ultrapassassem a barreira do mediano. Eu queria conhecê-lo mais.
No dia 10 de novembro, o palco do Studio RJ, o mesmo do antigo Jazzmania, que apresentou ao Brasil a cantora e compositora Marisa Monte no final dos aos 80, trouxe Filipe Catto pela primeira vez ao Rio de Janeiro, no show de lançamento do seu álbum “Fôlego”, produzido pela gravadora Universal, após a divulgação pelos meios virtuais de um disco independente, “Saga”.
Aos desavisados de plantão, que porventura tentarem limitar a uma comparação despropositada o contratenor Filipe Catto ao eterno Ney Matogrosso, em virtude dos seus naipes vocais, eu diria que não tentem. A falsa identificação decorrente do fato de que ambos são homens com "voz de mulher" - uma definição um tanto imprecisa, frise-se - esgota-se nesta única coincidência.
Com uma postura bem próxima a um público bastante entusiástico, Filipe Catto cantou o amor. Não aquele amor que proporciona finais felizes a casais apaixonados, mas o amor destrutivo, que corrói, que desgasta, que conduz os amantes à sordidez humana quando perdem o equilíbrio e deixam de lado a dignidade racional, trocando-a pela conduta passional e desmedida. Filipe Catto cantou a mulher infiel, que se regozija de poder trair o seu esposo, cantou o homem bruto, que espanca imotivadamente sua companheira, cantou o homem abandonado, que, sem qualquer esperança, busca alento na bebida e se destrói pelo vício, cantou a mulher submissa, que espera em casa por seu homem, pacientemente, enquanto ele se diverte em um lupanar qualquer.
Mesclando o repertório do seu álbum “Fôlego”, como as belíssimas “Crime Passional”, “Roupa do Corpo”, “Gardênia Branca”, com clássicos da música brasileira, como uma ligeira citação ao “Canto de Ossanha”, o artista cantou de forma arrebatadora, possuído pela música, como se se tratasse de uma entidade transcendental, uma força externa capaz de colocá-lo em um estado de transe catártico, fazendo-o dançar, gesticular de forma incisiva, ajoelhar-se, fechar os olhos e rodopiar, sem no entanto parecer exagerado ou clichê. O que se via no palco era pura emoção, traduzida nos arranjos conduzidos pelos músicos Adriano, Ramon, Deco e Fabá, na voz impecável e na presença carismática do cantor, compositor e, sobretudo, intérprete, que estava perceptivelmente feliz por poder se apresentar nos palcos cariocas, “já que sempre viu o Rio de Janeiro desde criança nas novelas, tendo-o como algo distante e inatingível”.
Em minha modesta opinião de leigo, posso dizer que o show foi inversamente proporcional àquele palco tão pequeno no qual foi apresentado, tratando-se do maior show do ano de 2011 nos palcos cariocas. Compartilhei com o Filipe a felicidade de estar no Rio de Janeiro e poder testemunhar um espetáculo de tamanha carga emotiva.
Pouco antes de morrer, Elis Regina, uma das maiores intérpretes que este país já produziu, declarou em uma entrevista que a feijoada havia sido feita por ela, Milton Nascimento, Gal Costa, Tom Jobim, Gilberto Gil e João Gilberto, e que depois desta geração fazia-se muito pastel, mas feijão mesmo, nunca mais, dando a entender que, o que viesse depois da sua geração estaria relegado a um segundo plano, a uma qualidade inferior, à mediocridade pelo constante surgimento de talentos medianos ou duvidosos...
Concordando até então com a Pimentinha, vim me entristecendo ao longo dos últimos anos com os talentos incipientes que o mercado vinha nos impondo, acreditando que a música brasileira caminhava para sua derrocada. Mas, depois de ouvir inúmeras vezes o álbum “Fôlego”, além do seu precursor, o single “Saga”, e de testemunhar uma apresentação ao vivo do talentosíssimo Filipe Catto, eu saí feliz daquele show, com a certeza de que a música popular brasileira ainda está salva.
sábado, 22 de outubro de 2011
Maria Bethânia e as Palavras
Já lá se vão pouco mais dois anos, quando, em agosto de 2009, na Casa do Saber, na Lagoa, Dona Maria Bethânia apresentou o então chamado “Palavras, Palavras”, encontro literário voltado à divulgação da poesia luso-brasileira, como forma de incentivo às leituras em escolas públicas e privadas.
Diante do estrondoso êxito do projeto, a cantora decidiu levá-lo em turnê país afora, já sob o nome de “Maria Bethânia e as Palavras” ao longo de 2010, causando verdadeiro furor por onde passou, como as cidades de Porto Alegre, Recife, Curitiba e o próprio Rio de Janeiro, durante sua temporada no Teatro Fashion Mall, em São Conrado.
Já tendo assistido duas vezes ao espetáculo, confesso que, apesar de admirador da literatura brasileira e portuguesa, este não estava dentre os meus prediletos, e não me animei quando soube que haveria duas apresentações no Teatro Sesc Ginástico para o relançamento do livro “Maria Bethânia Guerreira Guerrilha”, do escritor Reynaldo Jardim. Assim, quando surgiu o convite, pensei, munido de toda a minha má vontade: “Na falta de um programa mais interessante, eu vou!”. Não queria ouvir Dona Maria recitando os mesmos poemas já citados e recitados, sedimentados em mais de quarenta anos de carreira.
Mas, eis que o “programa mais interessante” não apareceu e lá fui eu ao Teatro Sesc Ginástico, esperando encontrar pouca novidade e atratividade. Felizmente, estava enganado e o que observei no palco não foi uma simples leitura de poesia, mas um verdadeiro show! Maria Bethânia estava com um vigor e uma energia contagiantes. Sua voz estava no auge da beleza. E o repertório, musicalmente ampliado, aumentando para quase duas horas a duração inicial de setenta minutos daquela fase embrionária iniciada na Casa do Saber, comovente.
Após a exibição de um vídeo contendo um depoimento do próprio Reynaldo Jardim, deu-se início à abertura do show – insisto em me utilizar deste conceito – consistente em uma leitura, pelo ator e diretor do espetáculo, Elias Andreato, de excertos do livro que estava sendo relançado na ocasião. A entrada de Maria Bethânia no palco, com a canção “As Ayabás”, foi devidamente ovacionada, seguindo-se a isto uma constante intercalação de textos e músicas, os mais belos!
Claro que nada é perfeito e, como sempre, revirei-me, incomodado diante da heresia cometida contra o Mestre Caeiro, com a insistente transformação do “Poema do Menino Jesus” – notória crítica à Igreja Católica – em uma oração cristã, sendo a proposta reforçada e tornada inequívoca com a imediata execução da ladainha popular adaptada por Tavinho Moura, “Cálix Bento”.
Por outro lado, houve seqüências de beleza absoluta, como a iniciada com a música “Genipapo Absoluto”, continuada com os textos “Distribuição de Poesias”, “Poetas Populares”, intercalados com “O Trenzinho do Caipira”, “Trem de Ferro” e encerrado com a belíssima “Francisco, Francisco”, dentre tantos outros momentos memoráveis.
Outro registro que não pode deixar de ser considerado é a lamentável má educação de alguns integrantes da plateia: O show seguiu impecável e eu já me encontrava em completa imersão catártica quando, para meu horror, umas mulheres horrendas se levantaram de suas poltronas, postando-se em frente ao palco, atirando como se fossem pedras, pétalas de rosas em uma Maria Bethânia que se desconcentrou durante a interpretação de “Menino de Braçanã”. Juro que se essas mulheres tivessem se plantado à minha frente, eu teria perdido minha compostura, dando-lhes chutes nas pernas e pedindo enfaticamente que saíssem dali para que eu pudesse ver o final da apresentação em paz.
Passados esses disparates, Dona Maria contemplou o público com um bis repleto de energia da música que a lançou ao mundo, “Carcará”, encerrando com chave de ouro o evento, que se revelou a mim uma grata surpresa, mudando inclusive meus conceitos acerca do espetáculo “Maria Bethânia e as Palavras”, em muito evoluído desde aquele distante agosto de 2009.
A poesia agradece. A música agradece. E nós, que estivemos presentes nesta manifestação artística que logrou de toda excelência e majestade, saímos regozijados ante um desempenho notável, elegante e na medida certa, da cantora, intérprete e leitora, Maria Bethânia. Uma noite para se tornar inesquecível.
Diante do estrondoso êxito do projeto, a cantora decidiu levá-lo em turnê país afora, já sob o nome de “Maria Bethânia e as Palavras” ao longo de 2010, causando verdadeiro furor por onde passou, como as cidades de Porto Alegre, Recife, Curitiba e o próprio Rio de Janeiro, durante sua temporada no Teatro Fashion Mall, em São Conrado.
Já tendo assistido duas vezes ao espetáculo, confesso que, apesar de admirador da literatura brasileira e portuguesa, este não estava dentre os meus prediletos, e não me animei quando soube que haveria duas apresentações no Teatro Sesc Ginástico para o relançamento do livro “Maria Bethânia Guerreira Guerrilha”, do escritor Reynaldo Jardim. Assim, quando surgiu o convite, pensei, munido de toda a minha má vontade: “Na falta de um programa mais interessante, eu vou!”. Não queria ouvir Dona Maria recitando os mesmos poemas já citados e recitados, sedimentados em mais de quarenta anos de carreira.
Mas, eis que o “programa mais interessante” não apareceu e lá fui eu ao Teatro Sesc Ginástico, esperando encontrar pouca novidade e atratividade. Felizmente, estava enganado e o que observei no palco não foi uma simples leitura de poesia, mas um verdadeiro show! Maria Bethânia estava com um vigor e uma energia contagiantes. Sua voz estava no auge da beleza. E o repertório, musicalmente ampliado, aumentando para quase duas horas a duração inicial de setenta minutos daquela fase embrionária iniciada na Casa do Saber, comovente.
Após a exibição de um vídeo contendo um depoimento do próprio Reynaldo Jardim, deu-se início à abertura do show – insisto em me utilizar deste conceito – consistente em uma leitura, pelo ator e diretor do espetáculo, Elias Andreato, de excertos do livro que estava sendo relançado na ocasião. A entrada de Maria Bethânia no palco, com a canção “As Ayabás”, foi devidamente ovacionada, seguindo-se a isto uma constante intercalação de textos e músicas, os mais belos!
Claro que nada é perfeito e, como sempre, revirei-me, incomodado diante da heresia cometida contra o Mestre Caeiro, com a insistente transformação do “Poema do Menino Jesus” – notória crítica à Igreja Católica – em uma oração cristã, sendo a proposta reforçada e tornada inequívoca com a imediata execução da ladainha popular adaptada por Tavinho Moura, “Cálix Bento”.
Por outro lado, houve seqüências de beleza absoluta, como a iniciada com a música “Genipapo Absoluto”, continuada com os textos “Distribuição de Poesias”, “Poetas Populares”, intercalados com “O Trenzinho do Caipira”, “Trem de Ferro” e encerrado com a belíssima “Francisco, Francisco”, dentre tantos outros momentos memoráveis.
Outro registro que não pode deixar de ser considerado é a lamentável má educação de alguns integrantes da plateia: O show seguiu impecável e eu já me encontrava em completa imersão catártica quando, para meu horror, umas mulheres horrendas se levantaram de suas poltronas, postando-se em frente ao palco, atirando como se fossem pedras, pétalas de rosas em uma Maria Bethânia que se desconcentrou durante a interpretação de “Menino de Braçanã”. Juro que se essas mulheres tivessem se plantado à minha frente, eu teria perdido minha compostura, dando-lhes chutes nas pernas e pedindo enfaticamente que saíssem dali para que eu pudesse ver o final da apresentação em paz.
Passados esses disparates, Dona Maria contemplou o público com um bis repleto de energia da música que a lançou ao mundo, “Carcará”, encerrando com chave de ouro o evento, que se revelou a mim uma grata surpresa, mudando inclusive meus conceitos acerca do espetáculo “Maria Bethânia e as Palavras”, em muito evoluído desde aquele distante agosto de 2009.
A poesia agradece. A música agradece. E nós, que estivemos presentes nesta manifestação artística que logrou de toda excelência e majestade, saímos regozijados ante um desempenho notável, elegante e na medida certa, da cantora, intérprete e leitora, Maria Bethânia. Uma noite para se tornar inesquecível.
segunda-feira, 17 de outubro de 2011
Hoje a noite tem cara de música velha
Hoje a noite tem cara de música velha. Daquelas que, quando éramos crianças, já eram velhas. E tarde da noite, sentávamos à beira do aparelho de som, sintonizado em uma rádio qualquer, e esperávamos ansiosos para gravarmos em um toca-fitas. Porque essas músicas velhas só tocam em rádio tarde da noite.
Nunca entendi porque música velha só toca tarde da noite... Deve ser porque, com aquele gosto de coisa antiga, a noite se torna menos sombria. É quando nos lembramos de que um dia fomos bem pequenos, e nossa maior preocupação era completar a coleção de figurinhas de chiclete antes do nosso melhor amigo. É quando pensamos na nossa mãe nos dando boa noite antes de fechar a porta do nosso quarto. É quando nos lembramos do nosso primeiro dia na escola...
Hoje a noite está quieta. Fria. Úmida. Um tilintar incessante de pingos grossos de chuva que caem de alguma telha quebrada sobre a escada de ferro vem do fundo do quintal e isso é bom. Aumenta a sensação de cara de música velha.
A noite range, como rangem as gravações antigas de um disco de vinil sujo e isso tem cara de música antiga. E é por ter esta cara de coisa velha, quase esquecida, empoeirada, mas que fica ali, presa nas nossas lembranças mais remotas, vindo vez ou outra à tona, que esta noite chuvosa, fria e áspera acaba se tornando terna.
Hoje a noite tem cara de música antiga. E o barulho da chuva que engrossa aumenta a saudade dos dias em que, quando lá longe, num inverno qualquer de uma infância que ficou para trás, sentávamos à mesa da cozinha, ansiosos pela caneca de chocolate quente para acompanhar um bom pão com manteiga.
Naquela época já a chuva causava algum tipo de emoção desconhecida. O vento que açoitava as janelas fazia barulhos assustadores. Por algum tipo de ironia, o medo passava logo quando quedas na rede elétrica banhavam a casa em escuridão porque logo arrumávamos um jeito de nos divertirmos, formando figuras nas paredes com a projeção de sombras criadas com a luz das velas acesas.
Hoje a noite tem cara de música velha. E é por tudo isso que estar sozinho nesta sala a esta hora não me faz mal. Escuto notas que vem de longe, que soaram em um outro tempo, tocaram num outro espaço e ecoaram em outros ouvidos que não os meus de agora... Naquele momento longínquo, faziam-me pensar num futuro incerto, que não se parecia com o dia de hoje.
Agora que aquele futuro é o presente que se descortina, as notas de outrora reverberam nestas paredes, conduzidas, sabe-se lá de onde. Mesclam-se ao tamborilar da chuva, que insiste em cair cada vez mais intensa, e trazem consigo o gosto do abraço quente, que sinto enquanto meus ouvidos captam a melodia da música antiga, cuja semelhança esta noite insiste em carregar.
Nunca entendi porque música velha só toca tarde da noite... Deve ser porque, com aquele gosto de coisa antiga, a noite se torna menos sombria. É quando nos lembramos de que um dia fomos bem pequenos, e nossa maior preocupação era completar a coleção de figurinhas de chiclete antes do nosso melhor amigo. É quando pensamos na nossa mãe nos dando boa noite antes de fechar a porta do nosso quarto. É quando nos lembramos do nosso primeiro dia na escola...
Hoje a noite está quieta. Fria. Úmida. Um tilintar incessante de pingos grossos de chuva que caem de alguma telha quebrada sobre a escada de ferro vem do fundo do quintal e isso é bom. Aumenta a sensação de cara de música velha.
A noite range, como rangem as gravações antigas de um disco de vinil sujo e isso tem cara de música antiga. E é por ter esta cara de coisa velha, quase esquecida, empoeirada, mas que fica ali, presa nas nossas lembranças mais remotas, vindo vez ou outra à tona, que esta noite chuvosa, fria e áspera acaba se tornando terna.
Hoje a noite tem cara de música antiga. E o barulho da chuva que engrossa aumenta a saudade dos dias em que, quando lá longe, num inverno qualquer de uma infância que ficou para trás, sentávamos à mesa da cozinha, ansiosos pela caneca de chocolate quente para acompanhar um bom pão com manteiga.
Naquela época já a chuva causava algum tipo de emoção desconhecida. O vento que açoitava as janelas fazia barulhos assustadores. Por algum tipo de ironia, o medo passava logo quando quedas na rede elétrica banhavam a casa em escuridão porque logo arrumávamos um jeito de nos divertirmos, formando figuras nas paredes com a projeção de sombras criadas com a luz das velas acesas.
Hoje a noite tem cara de música velha. E é por tudo isso que estar sozinho nesta sala a esta hora não me faz mal. Escuto notas que vem de longe, que soaram em um outro tempo, tocaram num outro espaço e ecoaram em outros ouvidos que não os meus de agora... Naquele momento longínquo, faziam-me pensar num futuro incerto, que não se parecia com o dia de hoje.
Agora que aquele futuro é o presente que se descortina, as notas de outrora reverberam nestas paredes, conduzidas, sabe-se lá de onde. Mesclam-se ao tamborilar da chuva, que insiste em cair cada vez mais intensa, e trazem consigo o gosto do abraço quente, que sinto enquanto meus ouvidos captam a melodia da música antiga, cuja semelhança esta noite insiste em carregar.
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