sábado, 7 de maio de 2011

Liza

Sempre fico tenso quando tenho que lhe dar injeções. Sou um pai de coração mole, e após distribuir algumas chineladas, acabo sempre com um remorso monstruoso... E penso que seus dentes nem fariam estrago. É uma mentirinha que acabo contando pra mim mesmo, mas que sempre me deixa com a consciência pesada após uns gritos, mas me traz um alívio imenso quando penso nos próximos dez, doze anos em sua companhia...
Permitam-me apresentá-la. Seu nome é Liza (fala-se “Laiza”, como a Minelli). É uma paixão nova que não escondo de ninguém... O que gera sempre uma falha de interpretação, quando me questionam porque eu não gosto tanto do Ataulfo quanto dela...
Lógico que isso não é verdade. O Ataulfo é meu bebezão, meu filhote primogênito que ainda não cresceu. Um molequinho que muitas vezes faz um monte de coisas erradas e me tira um pouco a paciência. O que, nem de longe, significa que eu goste menos dele.
Mas a Liza é diferente. Não se trata de gostar mais. É uma questão de afinidade. De respeito mútuo. E de orgulho da minha parte, reflexo da vaidade, a cada vez que eu penso no desafio que aceitei no momento em que eu disse “quero esta”.
Foi há pouco mais de um mês... Eu tinha acabado de mudar para o Condado de Village Peña e acreditava que teria a Dolores [Duran] para fazer companhia ao Ataulfo [Alves] e formaria uma dupla imbatível de MPB... Mas por alguns contratempos, acabei trazendo a cadelinha já batizada para casa. E o pior, com o nome de uma amiga minha...
Ao escolher a Liza eu tinha a certeza de que estava fazendo uma grande bobagem. Uma cadela adulta, com medo de gente (e este foi o fator precípuo que pesou na minha escolha) e agressiva com qualquer um que tentasse chegar perto. Mas foi instantâneo: bati os olhos naquela monstrinha maltratada, com uma sarna enorme das costas, que me olhava com ar desconfiado e mostrava os dentes em tom de ameaça ao menor sinal de que pretendia tocá-la... Era uma cadela feia, temperamental e ameaçadora. E isso tudo só significava uma coisa, e no plural: problemas. Mas eu queria tentar! Eu queria fazer algo por ela. E fui arrogante o suficiente para querer aceitar o desafio e mostrar que seria capaz...
Confesso que minutos após trazê-la, minha cabeça rodava e o medo tomava conta de mim. E se ela me atacasse? E se ela atacasse o já assustado Ataulfo? E se ela nunca me deixasse tocá-la? E se ela roesse meus móveis recém comprados?
Meu primeiro contato físico com a Liza foi uma dentada. Fortíssima! Assustadoramente intensa. Fez um furo no meu dedo médio da mão esquerda que me deixou por cerca de quinze dias sentindo dor... Ela tinha uma coleira e eu mal conseguia chegar perto para tirar. Ela tinha um ferimento e eu mal conseguia chegar perto para tratar. Ela tinha carência e eu mal podia chegar perto para acariciar. Era frustrante e cheguei a pensar que eu nunca me apegaria a uma cachorra tão instável, e que, no fim de uma semana, a levaria de volta... Mas essa idéia era insuportável! Eu queria tentar.
Lembro-me de um dia, na primeira semana em que ela chegou. Tentei fazer carinho em sua cabeça e ganhei um rosnado de brinde. Fiquei tenso, irritado por ter uma cachorra que necessitava de cuidados e que não me deixava cuidar. E a indignação aflorou na forma de um choro muito intenso quando me perguntei que diabos tinham feito com ela para deixá-la daquele modo... Como alguém pode ser tão mau com um animal a ponto de transformá-lo numa arma movida a pavor? Ela não era uma cachorra agressiva. Via-se que ela estava apenas assustada e usava a arma que tinha para se defender. O X da questão era saber por quanto tempo este medo permaneceria...
Ela chegou aqui com uma cláusula de devolução, em caso de não adaptação. A pessoa que a deu a mim disse o quanto esperava que eu cuidasse bem dela, mas reconhecia que eu não estava optando por uma aquisição fácil e assegurou-me de que se eu não conseguisse, que eu poderia levá-la de volta, desde que não a abandonasse novamente nas ruas, pois muito provavelmente ela não sobreviveria. Tendo-a conhecido com aquele temperamento, não tenho dúvidas de que ela estava certíssima.
Mas os dias foram passando e eu tentando ter paciência. Só a tocava – timidamente – quando lhe dava comida e qual não foi a minha surpresa quando, cerca de uma semana depois de sua chegada, eu a vi sentar-se entre minhas pernas e me deixar alisá-la, com a mão cheia. Foi uma emoção sem tamanho.
Eu tinha certeza de que levaria pelo menos um mês para conseguir aquela proeza. E, no entanto, para minha satisfação, neste um mês, os avanços foram muito, muito, muito além disso!
Aos poucos fui conhecendo a Liza, sabia onde me era permitido tocá-la e onde não tinha e não teria acesso. Comecei a perceber quando ela estava tensa, quando mostrava seus dentes em sinal de ameaça e quando o fazia brincando. Pois sim, ela brincava! Ou sentia vontade de brincar... Mas seu medo sempre falava mais alto. Até o dia em que voltei do trabalho e a vi pular na minha frente, fazendo festa com a minha chegada. Levantou-se sobre as patas traseiras e se apoiou nas minhas coxas. Foi quando arrisquei um passo perigoso: dei-lhe um abraço. Naquele dia eu tive a certeza que ela era minha e que eu jamais a abandonaria na rua, tampouco a devolveria como uma mercadoria rejeitada. Ela tinha encontrado um lar. E eu tinha encontrado uma filha. A segunda da prole.
Daquele momento em diante, vi muitos avanços! Descobri que ela sentia minha falta e que ficava feliz quando me via. Descobri que poderia dar banho sem fazer uso de sedativo, bastando que eu a segurasse da forma correta. Descobri que, ao ouvir o estourar de fogos, ela se assustou e foi em mim que buscou proteção. Descobri que podia pegá-la no colo...
E assim fui tratando seus problemas, com o auxílio de um amigo Médico Veterinário, aplicando medicamentos quando necessário, dando-lhe banhos, variando seu cardápio com ração, arroz e patê de cachorro...
Ainda não tenho uma cadela ideal. Mas hoje me sinto muito feliz de saber que tenho uma sombra que me segue pela casa. Que sobe no meu colo quando estou sentado no sofá vendo TV. Que late de ciúmes quando a deixo de lado para fazer carinho no Ataulfo... Talvez as dificuldades da nossa relação tenham fortalecido nosso afeto e hoje não tenho dúvidas do quanto eu amo a Liza. E sei que é recíproco.
Ao contrário do que pensam, não amo menos o Ataulfo. Apenas acho que ela precisa mais de mim do que ele. É muito mais fácil gostar de um cachorro manso, bobo, brincalhão, com pelos sedosos e lindo. Todos os que frequentam a minha casa já se renderam. Difícil é gostar de uma cachorra que morde, que rosna, que tem dentes sempre evidentes, tem resquícios em sua pelagem que mostram que ainda está se recuperando de uma sarna e que não é “peludinha, fofinha e lindinha”. E foi essa rejeição que ela recebeu de alguns que fez com que eu me aproximasse mais e conseguisse enxergar a beleza subjacente aos seus olhos pequenos, suas orelhas pontiagudas e seu pelo curto e áspero. E nem de longe enxergo aquela cadelinha feia, de coloração encardida que me mordeu a ponto de tirar sangue do meu dedo naquele comecinho de abril... Acho-a linda quando me olha. Acho-a linda quando dorme. Acho-a linda quando me recebe na porta. Acho-a linda quando levanta a patinha para me pedir qualquer coisa, seja carinho, comida, água ou só um pouco de atenção...
Hoje tivemos que vaciná-la. No local em que a peguei, fui informado de que ela já havia sido, mas como não tinha isso documentado, achei por bem fazê-lo novamente, já que não faria nenhum mal. Como já vem acontecendo em dia de injeção, ela ficou tensa, tentou morder, tentou fugir, tive que dar uns gritos, tive que dar uma chineladas e no fim, nada disso resolveu e acabei perdendo a luta para o uso de sedativo e mordaça. No final, valeu a pena e neste momento em que escrevo, tenho uma cadelinha saindo do efeito do medicamento, acordando aos poucos e que, em meio ao transe e à vigília que se mesclam, escolheu meu colo como local apropriado para recuperar os sentidos...
Ainda tenho uma batalha pela frente e tenho certeza de que muitas vezes virão em que eu me perguntarei porque enfrentar tanta dificuldade diante de um animal temperamental e feroz. E no momento seguinte virá a resposta: por amor. Por saber que ela não é feroz, mas finge muito bem quando se sente ameaçada e consegue, por alguns momentos esconder a docilidade que a acompanha naturalmente.
Saber que esta cachorra poderia estar sendo morta a pedradas ou pauladas no meio da rua onde, um dia, foi abandonada me aterroriza e me dá a certeza de que vale a pena enfrentar suas investidas com intuito de morder, a cada vez que eu precisar cortar suas unhas, limpar seus ouvidos, catar carrapatos e pulgas entre seus dedos e aplicar injeções... Quem sabe um dia isso também mude, como ocorreu com a permissão que eu não tinha para tocá-la. Acho que a vida com ela não será fácil. Mas tenho certeza de que sem ela não será boa.

quarta-feira, 30 de março de 2011

Pai de primeira viagem

Em meio a esta propagação exacerbada de valores politicamente corretos, dentro da qual quaisquer opiniões pessoais manifestadas com um pouco mais de veemência serão categorizadas, inevitavelmente, como homofobia, pedofilia ou racismo, minha afirmação poderá soar um tanto dissonante, para o horror daqueles que defendem a pena capital para o politicamente incorreto: eu gosto de fazer crueldade.
Não. Não sou um assassino, tampouco ladrão, estelionatário, torturador, estuprador... Mas tenho meu rol de pequenas maldades favoritas. E atire a primeira pedra o politicamente correto que não as tem. Aquele que nunca se escondeu atrás de uma parede e gritou “bu!” para o desavisado que vinha logo atrás. Aquele que nunca passou um trote telefônico. Não sou hipócrita.
Mas este texto não se propõe a divagar acerca da moral e dos bons costumes. A ideia é falar de bicho. E apresentei minha introdução justamente para afirmar que, muito embora eu mantenha meu “Pequeno Rol de Maldades, Travessuras e Diabruras Favoritas” sempre atualizado, existem aquelas maldades cometida contra dois tipos de vítimas, que eu simplesmente abomino. As praticadas contra crianças e as praticadas contra animais. E se a perversidade foi direcionada a um animal-criança, tanto pior.
Poucas coisas são tão ruins quanto bater num filhote de cão. Ainda mais se o cachorro é naturalmente assustado e carrega consigo uma quantidade imensa de traumas por maus tratos, sobre os quais apenas ele pode testemunhar.
Adotar o Ataulfo me fez, pela primeira vez, ter uma noção do que deve ser a paternidade. E não estou exagerando. Ao longo da vida, tive outros animais, todos completamente independentes, como peixes, esquilos-da-mongólia e porquinhos-da-índia... Todos lindos e fofos, mas um tanto impessoais (se for cabível o termo pessoalidade a animal de estimação). Bicho que não atende pelo próprio nome, ou que não faz festinha quando chegamos em casa é meio-bicho.
Houve outros cães, mas não eram exatamente meus. Não tive qualquer ingerência em escolhê-los e havia mãe em casa para lhes tomar conta, de forma que a mim cabia apenas a parte boa: rolar no chão, correr pela casa, espalhar pelos nos tapetes a amassar as almofadas do sofá... Houve também o Iago, meu gato do qual até hoje sinto uma falta enorme. Mas quem já teve um gato sabe que não existe relação de paternidade com o bichano. Gatos já nascem adultos. Sabem o lugar exato para suas necessidades fisiológicas, saem e entram a hora que querem, limpam-se sozinhos e você não precisa perder os cabelos quando eles não voltam para casa até a hora de dormir. São autodidatas e nada têm a aprender com seu dono.
Com cães é diferente. E com o Ataulfo, mais diferente ainda. Arranjei mesmo um bebê. Um cãozinho que só come quando você fica ao lado do prato, que acorda você de madrugada, que o estimula a buscar os mais variados tipos de literaturas e manuais no estilo “cuide bem do seu” ou “tudo que você queria saber sobre”, e que faz xixi pela casa inteira, obrigando-o a fazer faxina várias vezes ao dia nos horários mais inóspitos. E como toda criança, exige muita dedicação, amor e paciência. E como toda criança, precisa ser educado. E como toda criança, requer medidas corretivas.
Mas, sou um pai bastante frouxo, quando a ideia é punir. Dentre minhas malvadezas prediletas, de fato, não se encontram castigos a bebês-cães.
Noite passada foi assim. Após um dia extenuante, cheguei a casa e fui recebido pelo meu bichinho, que fez uma pequena cerimônia-do-pula-na-cara-do-papai para mim. Eu apenas desejava um bom banho frio, cair na cama e ficar ali, deitado, fazendo carinho no meu filhote, até que adormecêssemos. Mas, antes que se passassem trinta ou quarenta minutos de minha chegada, ele fez seu primeiro xixi noturno. Dentro de casa. No meio da sala. Eu, que já vinha apresentando um sinal de impaciência com este tipo de incontinência canina, e que já vinha tentando adotar uma educação construtivista ao moleque, apenas ralhando, assim mesmo, verbalmente, decidi que era hora de testar algo novo.
Bati no Ataulfo com um jornal, esbravejando acerca do erro do seu gesto. E ainda que o português do meu cãozinho não esteja muito desenvolvido, tenho absoluta certeza que ele entendeu a mensagem transmitida através da minha linguagem corporal. Ele correu pela casa, tentando se esquivar, ganiu, chorou, escorregou na própria poça amarelinha e saiu espalhando urina pela casa inteira na sua fuga desesperada.
Tranquei-o no quintal e fui forçado a fazer uma faxina completa em casa, o que consegui realizar em um tempo consideravelmente rápido de quarenta minutos. Ainda meio zangado, dei um banho no bebê-cão e tomei o meu em seguida. Supus que então eu teria meu merecido descanso, quando, em um ato de protesto, ele decidiu que precisava de um mictório mais macio e confortável. Ao vê-lo encharcando a cama, perdi de vez a paciência e não corri sequer em busca de um jornal para utilizar como corretivo. Bati com minha mão espalmada, que tem um peso consideravelmente maior que uma folha de papel enrolada.
E enquanto gritava – literalmente – com o rebelde, a mesma corrida pela casa, a mesma tentativa de se esquivar, o mesmo ganido, o mesmo choro. Só não teve escorregão, pois desta vez seu xixi não estava no piso, e sim, sendo rapidamente absorvido pelo meu colchão.
E foi neste momento que começou a minha pungência. Acuado sob a escada, no seu refúgio, meu filho me olhou com aqueles olhinhos escuros de quem não está entendendo coisa alguma – e urinou outra vez. Desta vez de medo! A violência contra animal-criança havia sido praticada por mim mesmo e eu estava odiando aquilo. Toquei nele, e ele tremia, sentado sobre sua terceira poça amarela da noite, ignorando completamente o banho que havia acabado de tomar. Eu já me sentia péssimo e em uma fração de tempo lembrei-me de todos os traumas que eu já sabia que tinham vindo junto com meu cachorro tão lindo. Lembrei do pavor que ele sentia das pessoas e do quanto ele evoluiu nos últimos dias, tornando-se bem mais sociável.
Poucas coisas são tão ruins quanto bater num filhote de cão. E pouquíssimas são piores do que olhar nos olhos do filhote de cão em quem você acabou de bater. Aquela troca de olhares me disse, no português mais claro que o Ataulfo ainda não aprendeu a falar, que ele estava muito mais do que assustado. Estava aterrorizado, sentindo-se confuso e traído, por estar sendo tão duramente repreendido pela pessoa que ele escolheu para confiar, apenas por não conseguir controlar seus instintos naturais de cachorro e sua bexiga incontida de bebê.
Ali, enquanto eu o olhava de forma tão severa, falando num tom de voz que, seguramente, ainda não era o meu natural, normalmente bem menos áspero, eu lutei contra a vontade de fazer carinho no meu bichinho medroso e a necessidade de fazê-lo entender que seu banheiro não fica dentro de casa. Assim, sentindo-me estilhaçado, fechei a porta dos fundos, deixando-o no quintal, e voltei para o quarto para terminar a limpeza e virar o colchão no qual, nesta noite, eu dormiria sozinho...
Felizmente, a dedicação do cãozinho sobrepuja o rancor, típico de nós, humanos. Acordei e, ao abrir a porta dos fundos, lá estava ele, pronto para nova cerimônia-do-pula-na-cara-do-papai, dizendo-me para eu esquecer a noite passada, pois, apesar de tudo, ele me ama e ainda confia em mim. Por sua vez, seus olhinhos de filhote me diziam para que eu me lembrasse daquele segundo terrível em que o vi acuar-se sob a escada, trêmulo e assustado, e para que, a cada vez que o fizer, eu pense, quantas vezes forem necessárias, antes de levantar a mão para castigá-lo. Até porque, no auge deste mea culpa que não sei se algum dia meu cachorro chegará a ler, estou mais certo de que pai de verdade acorda de madrugada quando o bebê chama, troca suas fraldas e o protege quando ele está assustado. E é óbvio, comemora cada aprendizado do seu filhote, recompensando-o – com um ossinho – por ter dado um novo passo.

terça-feira, 8 de março de 2011

Pânico de semiconhecidos

Quem não tem um semiconhecido? Semiconhecidos são seres estranhíssimos. Um tipo de gente que você sabe quem é, mas não entende a razão de ser. É a pessoa que poderia muito bem não existir, pois não te fará falta. Mas existe e você tem pânico só de pensar em um encontro constrangedor. "Não te conheço de algum lugar?". Você fica apavorado e sorri, sem graça (mas sem a menor ideia de quem é aquele ser) "É claro! Tudo bem com você?", você respira aliviado. Livrou-se do semiconhecido sem mostrar seu lado mais relapso, sem demonstrar que simplesmente não sabe quem é. Mas os semiconhecidos são terríveis e insistentes. "Ah, você não deve lembrar de mim, né? Sua espinha gelou. Sua cara de "mas, hein?" o traiu! Mas você é elegante. "Ora, claro que lembrei! Claro que nos conhecemos!" Ufa, escapou de novo. mas não se deu conta de que moveu seu último peão antes do xeque-mate. "E é de onde mesmo que a gente se conhece?"
O semiconhecido é aquele parente distante que só aparece nas festas de fim de ano, cujo laço você nem consegue descrever, pois não sabe mais qual a relação familiar existente entre vocês, puxa um papo sem pé nem cabeça e sempre cita nomes de outros parentes semiconhecidos, de quem você também não lembra. É o vizinho para quem você mal dá bom dia, e que você finge não ver quando encontra na rua, tentando mesmo atravessar para o outro lado, mas o destino impele as partículas de vocês em direção umas às outras, e você se rende, vencido, quando acontece sempre o mesmíssimo diálogo "Opa! Beleza?" "E aí?". É aquela pessoa que você catou na internet e cometeu a imbecilidade de marcar um encontro, para descobrir que não há a menor afinidade entre vocês, mas você não sabe mais como se livrar. É o amigo de infância que tomou um rumo diferente do seu e que, num dia, vocês se vêem ao acaso e descobrem que não conseguem mais conversar...
Há um tipo de semiconhecido que sempre te deixará numa saia justa, independemente de qualquer tentativa sua para evitá-la!
Na mais tenra infância vocês ficaram sem se falar, por alguma bobagem que só crianças mesmo podem justificar. Por causa disso, vocês cresceram e cada um tomou um rumo. Nunca mais se viram, tampouco se falaram... Mas a vida é um rato que passeia pela sua sala (li isso hoje, no MSN de um amigo) e, por mais voltas que ele dê, sempre acabará passando sob o mesmo sofá.
Então um dia, anos mais tarde, você encontra essa figura e por uma obrigação social de ter maturidade - porque as pessoas em sua volta não entenderão o fato de você insistir em alimentar uma rixa por algo que ocorreu mil anos atrás e que nem você mesmo lembra o que foi, e ainda vão te criticar por isso - você se força a colocar a mão na consicência e pensa, tentando enganar a si mesmo, dizendo-se que você cresceu, que virou gente grande e, como se nisso houvesse qualquer relação obrigatória de causa e consequência, que você amadureceu: "não faz sentido continuar sem falar com ele por causa de briga de criança".
E aí, ele te olha por um longo e constrangedor momento. Longo o bastante pra você se tocar que não dá mais para virar o rosto e fingir que não o viu, pois ele sabe que você o viu, sim! Rendido, sem alternativas, você se apercebe apenas que está acontecendo, sem que você possa evitar, uma troca de sorrisinhos forçados, de cuja existência você é incapaz de compreender o sentido. Mas você respira aliviado, pensando "ufa, passou, agora vou atravessar a rua". Mas para seu espanto, ele te encara e diz: "Tudo bem, cara?" (é sempre cara, pois vocês sequer se lembram do nome um do outro). E emenda imediatamente: "Quanto tempo! A gente nunca mais se falou, desde que aquela bola bateu na trave, lá no campinho!".
É nesse momento, após um átimo de segundo, no qual você faz um retrospecto de toda a sua vida pregressa, que você chega à constatação mais aterrorizante daquele encontro: "Que diabos vou falar com essa pessoa agora?"
Veja o impasse em que você se meteu! Se você não falar nada, ficará por toda a eternidade se martirizando, sentindo-se imaturo por não ter superado um fato que ocorreu quando você ainda acreditava em bicho-papão. Se você tentar falar, descobrirá que ficará sem assunto e não falará nada mesmo e, muito embora tenha a consciência limpa por ter tentado fazer sua parte, as pessoas à sua volta só registrarão que você não falou, e te acharão totalmente blasé.Logo você continuará sendo visto como imaturo por não ter superado um fato que ocorreu quando você ainda acreditava em bicho-papão.
Por fim, se você consegue ultrapassar todas as barreiras do passado e dar um sorriso sincero, percebendo até que aquele seu ex-inimigo-mortal-dos-tempos-da-cabra-cega pode ser gente boa e você acredita piamente que pode até criar um vínculo de amizade, pois aquele encontro não aconteceu por acaso, sempre haverá aquele maldito semiconhecido da mesma época, que testemunhou o exato momento em que a tal bola bateu na tal trave ali no tal campinho para lhe apontar o dedo na cara e dizer: "Como você é falso! Todo mundo sabe que vocês sempre se odiaram!"

quarta-feira, 23 de fevereiro de 2011

Tabuleiro BA - A Bahia de Todos os Sons

Desde que cheguei a esta cidade, pouco menos de quatro anos atrás, tive o privilégio de testemunhar momentos musicais memoráveis, como o show que uniu Virgínia Rodrigues e Naná Vasconcelos, em meados de 2007, no Rival Petrobrás, a apresentação de Zé Renato e Nina Becker no Teatro Carlos Gomes, e que eu quase perdi por causa de uma entrevista de emprego, em junho de 2009, além, claro, do das irmãs Soraya Ravenle e Ithamara Koorax cantando Dolores Duran, no SESC Ginástico, dentre tantos outros que integram a lista “Shows Inesquecíveis”...

Começou hoje no Centro Cultural Banco do Brasil o projeto “Tabuleiro BA – A Bahia de todos os sons”, que trará ao Rio, uma vez por mês, até junho, representantes da música baiana, como a já citada Virgínia Rodrigues, que tem sua apresentação agendada para 26 de abril, além de Lucas Santana, Márcia Castro, Jarbas Bittencourt, Pietro e Ronei Jorge.

Hoje tive a oportunidade de assistir à apresentação da Jussara Silveira, com participação – ou a cereja que dá o toque final no bolo – do Roberto Mendes, e posso assegurar que meu rol “Shows Inesquecíveis” ganhou mais um elemento!

O timbre da Jussara dispensa maiores comentários, e quem a ouviu sabe do que estou falando. Sua voz une de modo harmonioso o potente ao suave, o rouco ao cristalino, e resume musicalmente o conceito de versatilidade. Já no início, a cantora chama atenção pela sua postura elegante, trazendo canções lentas, com uma pegada jazzística reforçada pelos arranjos de Sascha Amback nos teclados e Marcelo Costa na percussão. O intimismo, que contou com uma boa interpretação de “Muito Romântico” (mas que não substitui a gravação da Célia em seu álbum “Faço no tempo soar minha sílaba”) encontra seu auge na devastadora composição do Arnaldo Antunes, “Contato Imediato”, lindíssima música até então minha desconhecida, mas pela qual me apaixonei instantaneamente, arriscando-me mesmo a dizer que foi a mais bela de todo o show. A ela seguiu-se uma “Marcianita” leve e animada, iniciando-se o que poderia ser considerado um segundo ato, mais despojado que o precedente.

Foi neste momento que Roberto Mendes subiu ao palco, resgatando os sambas de roda do Recôncavo Baiano, como “Quem pode mais, dona da casa, eu vim aqui”. Confesso que fiquei impressionado como, em alguns momentos seu timbre grave se metamorfoseava de tal forma, que assumia uma suavidade que me remeteu demais à voz do Gilberto Gil. Coisas da Bahia...

Destaque para a qualidade do som, que nos permitia escutar cada vibração, cada respiração, cada nota. Isso tudo com um cenário simples, em uma iluminação na medida exata!

No bloco final, chamou minha atenção a interpretação quase histérica – como realmente deve ser – da música “Dê um rolê”. E claro, não poderia deixar passar em branco o bis em dueto de Roberto e Jussara, com a canção “Massemba”, que teve seu compasso marcado pelas palmas do público, emendadas à ovação generalizada que seguiu paralela aos versos que resumem o ideal de cooperação na busca de uma sociedade mais justa: “vou aprender a ler pra ensinar meus camaradas”. Inesquecível!

domingo, 12 de dezembro de 2010

Sem horas e sem dores... III

Quando estava aprendendo técnicas de redação argumentativa, nos tempos há muito idos do meu 2º Grau – Ensino Médio da garotada atual – foquei-me na informação de que se você pretende valorizar um argumento, deve deixá-lo para o final do texto, apresentando já no começo aqueles que você pretende refutar. Sendo assim, devo partir logo para a descrição dos fatos que impediram a noite de ser perfeita...
Dentro de uma Fundição Progresso lotada, já estava me preparando para o espetáculo à parte que a plateia sempre oferece em conjunto com a banda, quando comecei a tossir em razão do trio de rapazes que se encontrava ao meu lado, os quais soltavam as fumaças de seus cigarros diretamente sobre meu rosto, sem o menor pudor por estarem incomodando e por estarem em um ambiente fechado, dentro do qual, por imposição legal, é proibido fumar. Não fosse o bastante, uma dupla de garotos, em um dos camarotes, periodicamente demarcava seu território jogando cerveja, água, ou qualquer outro líquido gelado sobre a plateia, o que tornou bastante desagradável a permanência no mesmo recinto. Constatações de que o público carioca vem se tornando um tanto difícil... Para finalizar a “parte chata”, vamos ser honestos... Que som é esse da Fundição, sempre cheio de ecos e mal equalizado? Algumas vezes, tornava-se impossível entender as letras do que estava sendo cantado! E, em tempos de “Rebolations”, deixar de ouvir as letras do Teatro Mágico é deixar de testemunhar momentos de notável inspiração literária, há muito evadidas da música brasileira...
Finda a parte refutável, passemos às impressões causadas pelo show! E que show, me’irmão?!
Energia. Essa foi a sensação mais transmitida ao longo de quase três horas de música repleta de intensa carga emotiva! Um show histórico, no qual foram comemorados os sete anos de formação da banda. Uma festa realizada no palco, com direito a convidados, à execução de um “Parabéns a você” e a abraços distribuídos diante de um simbólico brinde representado por “Libiamo, libiamo ne lieti calici” da ópera “La Traviata”.
Mas estou me antecipando... Este foi o final do show, duas horas e cinquenta minutos depois de um estrondoso bloco iniciado com o poema “Amadurecência”, seguido de “Abaçaiado”, “Camarada d’água” e “Pratododia”. Essa introdução por si só já avisava aos presentes o tipo de show que viria pela frente.
Uma noite repleta de surpresas, trazendo uma citação em flauta de “Atirei o pau no gato” dentro de “Cidadão de papelão”. A singela coreografia no ar, iluminada por um belo tom lilás, emoldurando “Sonho de uma flauta”, levando ao delírio os espectadores. E para minha total estupefação, um lindíssimo “Wish you were here” que – sou capaz de apostar – deixaria Roger Waters extasiado! E não podia passar despercebido o passinho “Moonwalk” arriscado pelo Anitelli durante uma breve “Billie Jean”, que embora incompleta, foi mais que suficiente pra homenagear o Grande Mestre Michael Jackson!
E quando o convidado Leoni subiu ao palco, cantando o clássico “Garotos II”, a ovação foi geral, seguindo ao longo de todo o bloco, que teve “Realejo” iluminada pelos aparelhos celulares da plateia, “Só pro meu prazer”, que contou com a incidental “Com eu quero”, trazendo um pouco da atmosfera dos anos 80 para dos dias atuais, a qual chegou ao auge com “A fórmula do amor”, finalizado com “Xanéu nº 5”. Foi quando entraram no palco os segundos convidados, Caio Só e Os Varandistas e o Anitelli apresentou uma faixa do terceiro álbum, calminha, “O que se perde enquanto os olhos piscam”, e que pretendo muito em breve apreciar sem moderação quando o cd sair do forno. Uma pausa para introspecção com “No ar” e “Vagalumes”, tirando-me um sorriso do rosto com os primeiros acordes de “Elephant Gun” do Beirut.
E já que estamos falando em instrospecção, dentro desta resenha cabe um espaço para descrever este momento realmente incrível e incrivelmente real. Minha maior surpresa foi quando, após assistir a diversos shows do Teatro em que eles nunca a cantavam, lá estava ela, “A pedra mais alta” – de longe a minha favorita! – belíssima por si só, e desta vez incrementada com um breve “Bolero”, de Ravel. Não dava para ter perdido este show!
No mais, já tendo assistido outras duas vezes a este “Segundo Ato”, eu já esperava pela guerra verbal dos grupos representados pelo “Omovedô” e pelo “Carejangrejo”, após a execução de “Zaluzejo”, e pela gigante figura assustadora que marca presença em “O mérito e o monstro”, pelo movimento ascendente de mãos e palmas em “Pena” e, claro, por “Ana e o mar” que, para minha surpresa, não foi tocada, mas que nem por isso tirou o mérito e a beleza deste show comemorativo pelos sete anos da banda, que teve seu encerramento com a espetacular “Reticências”.
Ou melhor, seu quase encerramento, porque houve bis, no qual, além dos dois primeiros convidados, subiram ao palco os integrantes do Forfun, e uma linda homenagem ao eterno poeta Cazuza levou abaixo a Fundição, mal começaram as primeiras notas de “Exagerado”, à qual emendou-se – como não poderia deixar de ser – “O anjo mais velho”, agora sim, encerrando a noite deixando aquele gostinho de saudade e a pergunta que sempre fica na cabeça a cada final de um show do Teatro Mágico: quando será qie eles voltam?
Que não demore muito, pois seu público fiel anseia por isso pelos próximos sete anos, e que venham outros sete, e outros sete, e outros e outros e outros...
Ao Teatro Mágico, parabéns pelo aniversário. A quem esteve no show, parabéns por terem aproveitado a oportunidade de estarem presentes neste momento emblemático. E a todos os seus fãs, parabéns por dedicarem sua admiração a uma banda que faz cada vez mais por merecê-la. Sem horas e sem dores, respeitável público pagão, até a próxima!

segunda-feira, 20 de setembro de 2010

Amanhecer de saudades

Amanhecer de saudades

Tu partes quando mal se abrem os portões do dia...
Hora sorrateira, traz o Sol minha solidão...
Imerso, outrora, em sonhos, desperto à realidade:
“Até breve, amor...” sussurro, sem alento,
Gastando meus últimos minutos ao teu lado
Olhando, tenso, o relógio, cujos ponteiros não param de rodar...

“Vai, anjo meu, desce a rua
E segue em teu trajeto, se tens de ir...”
Saudade pungente que me aperta o peito,
Guio-te até o portão, desejando com ardor
Um derradeiro beijo, um terno abraço –
Instante mágico em que meu corpo e o teu
Num só se amalgamam! –
Há tanta paz, há tanta calmaria neste átimo...
Outrora melancolia, agora felicidade!

E quedo-me só, todavia não lamento
Um longo dia que se segue até que voltes...

Aguardo teu retorno, tomado de nostalgia...
Mas sei que outra noite cairá sobre nós!
Ouvirei de novo teus passos, sentirei outra vez teu abraço!

Vem, Amor! Chega até mim!
Oscula de leve meus lábios,
Carrega-me contigo ao nosso leito
E sejamos felizes, antes do Sol nascer...

Gustavo Carneiro de Oliveira
21.09.2010

domingo, 12 de setembro de 2010

Tudo que eu queria te dizer

Em 1992, a minissérie “As Noivas de Copacabana”, exibida na TV Globo trouxe-me um enorme impacto profissional, quando optei por seguir carreira de advogado, após ver os debates inflamados entre a promotora, interpretada por Marieta Severo e o advogado agressivo na pele de Milton Gonçalves, no Tribunal do Júri dos últimos capítulos. Além da carreira, esta minissérie apresentou-me também a atriz Ana Beatriz Nogueira, no papel da noiva sobrevivente Fátima. Não foi seu primeiro papel na TV, mas foi o primeiro para o qual eu atentei dos meus 12 anos de idade...
Dali para frente, comecei a admirar bastante suas atuações, como no papel da sem-terra Jacira, da novela “O Rei do Gado”, da filha bastarda Duda de “Anjo Mau”, da oportunista Ana Paula de “Celebridade”, da temível Frau Herta, de “Ciranda de Pedra” e da fútil Ilana, de “Caminho das Índias”, dentre outras.
Mas minha admiração pela atriz resumia-se ao que eu conhecia do seu trabalho televisivo, o qual, vale frisar, muitas vezes deixou de fazer jus ao seu talento, colocando-a sempre em papeis secundários. Nunca antes a tinha visto num tablado.
Estará em cartaz no Centro Cultural dos Correios, de quinta a domingo, até o dia 24 de outubro, o monólogo “Tudo que eu queria te dizer”, baseado no livro homônimo de Martha Medeiros, com direção de Victor Garcia Peralta, que também assinou o monólogo “Não Sou Feliz, Mas Tenho Marido”. Trata-se de uma colagem de seis textos epistolares, não sei ao certo se ficcionais ou verídicos, mas nenhum assinado por ‘Martha Medeiros’. As cartas, de inquestionável sensibilidade, emocionam o espectador, pelo simples fato de serem cartas, tão raras em épocas de World Wide Web, e-emails, scraps, e tweets... Trazem aquele gosto de saudade, de quando esperávamos, às vezes dias, para conseguirmos a resposta de perguntas tão simples como “tudo bom com você?”.
Passado o choque de nostalgia, as emoções capturam o espectador das mais diversas formas. Da audácia na carta da recalcada Andressa para Ester, a esposa de seu amante; da triste saudade na carta da viúva Clô para seu falecido esposo; da decisão tomada pela mulher sonhadora, disposta a seguir em busca do seu amor perfeito, ainda que para isso tenha que trocar a vida real pelo paralelismo das noites dormidas; da paixão revelada pela terapeuta a uma de suas pacientes; do pavor na carta endereçada à Eneida, após as revelações de uma cartomante e a inexorabilidade da morte; e ainda, da intolerância de uma paciente por todas as convenções sociais, explicitada para o conhecimento do seu analista. As cartas interpretadas no palco traduzem todo tipo de emoção, em certos momentos tirando-nos o riso e em outros, convidando-nos a refletir acerca da nossa própria crueldade e do vazio da vida, colocando um peso sobre nossos ombros.
Tudo isso numa composição cênica de máxima simplicidade, na qual atriz e ambiente se fundem através da predominância da cor negra no figurino e no cenário, apenas com um foco de luz incidindo sobre si, enquanto, emolduradas pela música composta por Gabriel Mesquita, alternam-se as vidas, os contextos e, sobretudo, as personagens, visivelmente diferenciadas umas das outras pelo virtuosismo interpretativo da Ana Beatriz, que deita e rola sobre os textos da Martha, revelando a grandiosidade do seu talento e a cumplicidade firmada entre ambas, reforçada através da leitura de uma carta desta para aquela no início da apresentação e, ao final, da resposta enviada pela atriz à escritora.
O único aspecto que entra em choque com a proposta da peça, de revelar “textos escritos”, é a presença, em determinados momentos, de elementos de tal forma gestuais e de oralidade, fazendo-nos questionar como alguém conseguiria “escrever”, transcrevê-los em cartas, o que, de maneira alguma, empobreceu ou comprometeu a beleza do espetáculo. Até mesmo porque, se, por um lado, nestes poucos momentos, faltou veracidade à idéia de que o ato estava narrado em um texto escrito, por outro, a presença de tais elementos não verbais demonstrou o quanto nossa mente é capaz de divagar e captar emoções, ainda que postas de forma estática, impressas em folhas de papel.
Um belíssimo espetáculo, mais do que recomendado.